Diz-se que Heráclito assim teria respondido aos estrangeiros vindos na intenção de observá-lo. Ao chegarem, viram-no aquecendo-se junto ao fogo. Ali permaneceram, de pé, (impressionados sobretudo porque) ele os encorajou a entrar, pronunciando as seguintes palavras: 'Mesmo aqui, os deuses também estão presentes'. (Aristóteles. De part. anim. , A5 645a 17ff).
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domingo, julho 03, 2011

A Bíblia e a Homossexualidade

 

Abaixo trechos do documentário “For the Bible tells me so” que tratam da polêmica relação entre as interpretações fundamentalistas da Bíblia e a homossexualidade.

 

 

 

domingo, junho 26, 2011

REVER: Nova fase, novo formato.

Divulgação

rever-capa

 

Caras leitoras e caros leitores da REVER

a redação da Revista de Estudos da Religião informa:

1) A nova REVER: 2 formatos "paralelos" num ritmo semestral

Depois de 10 anos como periódico eletrônico a Revista de Estudos da Religião entra uma nova fase da sua existência. Entre 2001 e 2010, nosso periódico foi publicado em um ritmo trimestral. A partir de 2011, a REVER passa a ser uma revista semestral sem prejuízo no que diz respeito ao número total de artigos publicados por ano. Ela incorpora também a demanda da revista “Religião & Cultura”, descontinuada no ano passado. Isso significa um aumento considerável do volume de uma edição semestral em comparação com as edições trimestrais.

Ao mesmo tempo, cada número da REVER é publicado em dois formatos. A versão digital dará continuidade à nossa política de garantir o acesso gratuito à revista.

Graças ao envolvimento da editora Paulinas em nosso projeto será possível adquirir a REVER em forma impressa. Em termos de conteúdo, ambas as versões são idênticas. A única diferença entre os dois formatos consta no fato de que cada versão possui um ISSN próprio (e-REVER: 1677-1222 // print-REVER: 2236-580X).

2) Novidades sobre a versão eletrônica da REVER

A partir de agora, o site antigo serve apenas como arquivo onde se encontram todos os números lançados entre 2001 e 2010. Para ter acesso ao arquivo clique em "arquivo" no site www.pucsp.br/rever

Os números a partir de 2011 encontram-se no novo site http://revistas.pucsp.br/index.php/rever (ou clique na imagem acima)

Caso tenha gravado um favorito, por favor a atualize.

3) Lançamento do nº 1/2011

Foi lançado o número atual. Título: Desigualdade de Gênero e Religião. A sessão temática foi organizada por Maria José Rosado e Paula Leonardi

4) Print-REVER

Para adquirir a versão impressa da REVER, entre em contato com sua livraria.

Em nome da redação

Afonso Maria Ligorio Soares & Frank Usarski

quinta-feira, setembro 30, 2010

Lobby cristão e casamento gay

 

contardo calligaris

 

“As igrejas gostariam de uma sociedade em que seja crime tudo o que, para elas, é pecado", escreve Contardo Calligaris (foto), psicanalista, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 30-09-2010.

Eis o artigo.

"Em maio passado, durante uma visita ao santuário de Fátima, o papa Bento XVI declarou que o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo estão entre os mais "insidiosos e perigosos desafios ao bem comum".

Atualmente, quase todas as igrejas cristãs (curiosamente alinhadas com as posições do papa) negociam seu apoio aos candidatos à presidência cobrando posições contra a descriminalização do aborto e contra o casamento gay.

Em 2000, segundo o censo, havia, no Brasil, 125 milhões de católicos, 26 milhões de evangélicos e 12 milhões de sem religião. É lógico que os principais candidatos inventem jeitos de ficar, quanto mais possível, em cima do muro - tentando satisfazer o lobby cristão, mas sem alienar totalmente as simpatias de laicos, agnósticos e livres pensadores (minoritários, mas bastante presentes entre os formadores de opinião).

Adoraria que as campanhas eleitorais fossem mais corajosas, menos preocupadas em não contrariar quem pensa diferente do candidato. Adoraria também que soubéssemos votar sem exigir que nosso candidato pense exatamente como nós. Mas não é esse meu tema de hoje.

Voltemos à declaração do papa, que junta aborto e casamento gay numa mesma condenação e, claro, tenta pressionar os poderes públicos, mundo afora. Para ele, o que é pecado para a igreja deve ser também crime para o Estado.

No fundo, com poucas exceções, as igrejas almejam um Estado confessional, ou seja, querem que o Estado seja regido por leis conformes às normas da religião que elas professam. De novo, as igrejas gostariam de uma sociedade em que seja crime tudo o que, para elas, é pecado: o sonho escondido de qualquer Roma é Teerã ou a Cabul do Talibã.

Há práticas sexuais que você julga escandalosas? Está difícil reprimir sua própria conduta? Nenhum problema, a polícia dos costumes vigiará para que ninguém se dedique ao sexo oral, ao sexo anal ou a transar com camisinha.

Para se defender contra esse pesadelo (que, ele sim, é um "insidioso e perigoso desafio ao bem comum"), em princípio, o Estado laico evita conceber e promulgar leis só porque elas satisfariam os preceitos de uma confissão qualquer. As leis do Estado laico tentam valer por sua racionalidade própria, sem a ajuda de deus algum e de igreja alguma.

Por exemplo, é proibido roubar e matar, mas essa proibição não é justificada pelo fato de que essas condutas são estigmatizadas nas tábuas dos dez mandamentos bíblicos. Para proibir furtos e assassinatos, não é preciso recorrer a Deus, basta notar que esses atos limitam brutalmente a liberdade do outro (o assaltado ou o assassinado).

Agora, imaginemos que você se oponha ao casamento gay invocando a santidade do matrimônio. Se você acha que o casamento é um sacramento divino que só pode ser selado entre um homem e uma mulher, você tem sorte, pois vive numa democracia laica e sua liberdade é total: você poderá não se casar nunca com uma pessoa do mesmo sexo. Ou seja, você poderá manter quanto quiser a santidade e a sacramentalidade de SEU casamento.

Acha pouca coisa? Pense bem: você poderia ser cidadão de uma teocracia gay, na qual o Estado lhe imporia de casar com alguém do mesmo sexo.

Argumento bizarro? Nem tanto: quem ambiciona impor sua moral privada como legislação pública deveria sempre pensar seriamente na hipótese de a legislação pública ser moldada por uma outra moral privada, diferente da dele.

Parêntese: Se você acha que essa história de casamento gay é sem relevância, visto que a união estável já é permitida etc., leia "Histórias de Amor num País sem Lei. A Homoafetividade Vista pelos Tribunais - Casos Reais", de Sylvia Amaral(editora Scortecci).

PS. Sobre a dobradinha sugerida pela declaração do papa: talvez, para o pontífice, aborto e casamento gay sejam unidos na mesma condenação por serem ambos consequências da fraqueza da carne (que, obstinadamente, quer gozar sem se reproduzir).

Mas, numa perspectiva laica, a questão do aborto e de sua descriminalização não tem como ser resolvida pelas mesmas considerações que acabo de fazer para o casamento gay. Ou seja, não há como dizer: se você for contra, não faça, mas deixe abortar quem for a favor. Vou voltar ao assunto, apresentando alguns dilemas que talvez nos ajudem a pensar.

(Fonte: IHU Notícias)

terça-feira, setembro 21, 2010

Sinais de avanço: teologia gay em português

 

Fé Além do Ressentimento
Fragmentos católicos em voz gay

Um livro de James Alison

(É Realizações Editora) 

fe-alem-do-ressentimento

Apresentação

J. B. Libanio
abril de 2010

Há apresentações de livro formais, comerciais e editoriais. Há aquelas que nascem da amizade. Há aquelas que se forjam baseadas no valor da obra. Distancio-me da primeira espécie para me fixar nas duas seguintes.

Conheci Alison quando fez teologia na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia de Belo Horizonte, tendo-o como aluno. Recordo-me de que, certa vez, no final de uma exposição, que eu fizera, sobre a abertura fundamental do ser humano para a Transcendência, inspirado por K. Rahner, ele se voltou para mim e disse: “Pura poesia!”. Naquela hora falou o inglês empírico, mas sem ocultar certa pitada de poesia. Já naqueles idos percebia que ali jazia enorme potencial cultural, que se desabrochou em teologia tão criativa como aparece no livro. Vale dele naquele tempo o provérbio latino: ex digito gigans. Pelo dedo se conhece o gigante.

Neste livro encontrei um poeta. Não romântico, nem lírico, nem elegíaco, mas aquele que deixa aflorar do profundo do ser experiências existenciais densas e as retrata num discurso impregnado de beleza, liberdade e sem ressentimento ou acidez polêmica.

Ele consegue, como poucas obras, já no título apresentar as teses fundamentais desenvolvidas. Quatro blocos: fé, além do ressentimento, fragmentos católicos, voz gay. Todos coerentemente articulados, profundamente elaborados, formam conjunto valioso.

É um livro que brota da fé. Alison trabalha com imensa originalidade textos e contextos bíblicos do Primeiro e do Segundo Testamento. Consegue, sem forçar a exegese, conduzir o leitor à profunda compreensão da passagem bíblica. Logo no primeiro capítulo, nos surpreende com releitura extremamente original e fecunda da cura do cego de nascimento. Escapa das interpretações comuns e conhecidas, introduzindo o leitor, com sutileza, em novo campo hermenêutico.

Recorre com frequência a João, a Paulo e a outros textos bíblicos para levar à reflexão. Entremeia com delicada fineza, leveza e sutileza elementos autobiográficos do processo de integração humana e espiritual de sua condição de homem gay com perspicaz leitura de textos bíblicos. Evita gerar no leitor extremos do sentimento de rejeição da condição gay ou de compaixão pela vítima ou de revolta contra o sistema social ou contra a máquina eclesiástica. Atravessam-lhe a obra transparência e honestidade do relato. Em qualquer situação existencial, gay ou não, o leitor se toca. A pessoa gay certamente encontra uma palavra de libertação, não pela via barata da contestação, mas por honesto processo reestruturante interno, baseado fundamentalmente na ação criativa e bondosa de Deus e apoiado por inúmeras passagens da Escritura feita em voz gay.

Alison, na introdução, refere-se à situação em que escreveu este livro, com dificuldade de acesso bibliográfico. Daí poucas citações. Honestamente, esse fator enriqueceu a obra. Não se trata de clássica obra acadêmica, mas de ensaio com toques geniais e originais. Esse tipo de escrito não necessita de carregar-se de outras autoridades. Vale por ele mesmo. Isso o autor passa com modéstia no livro.

Outro toque de genialidade está na postura básica de Alison. O livro desarma os batalhões que porventura viessem a formar-se em torno dele. Por ser tema delicado e de difícil manuseio no mundo eclesiástico, seria previsível que se travasse em volta do livro a batalha entre os que o atacariam como desrespeitoso das normas eclesiásticas e os que o defenderiam precisamente por isso. No entanto, Alison toma distância dessas duas posturas como situações a serem superadas por profunda conversão evangélica. Ambas cairiam na mesma armadilha. Não se trata de fazer das pessoas gays vítimas e cerrar fileiras ao seu lado contra o aparato eclesiástico, nem também de posicionar-se como defensor deste em nome da lei e da norma, sem alcançar o espírito íntimo do cristianismo.

Ambas as posturas refletem ressentimento. E a opção de base de Alison reside precisamente na superação do ressentimento. Já o pratica na própria maneira de conduzir o tema e na releitura de suas experiências de vida, não raro duras, pesadas e traumáticas. E ele o faz, não por uma simples terapia de autoconfiança e de relativização da posição do outro, mas por lento trabalho interior de reconstrução dos escombros da vida pela força da experiência de Deus, que cria e ama. Logo no início, faz tocante leitura de José, do Egito, vendido por seus irmãos e naturalmente posto em situação de ressentimento, e de como ele a superou por generosidade bem arquitetada para proteger os irmãos criminosos em relação a ele. Aparecem já as primeiras intuições sobre essa categoria básica do livro.

Ressentimento não se supera com luta, com batalhas contra ou em defesa de alguma posição julgada errada tanto pelos que rejeitam o mundo homossexual quanto pelos que o defendem. Não vai por aí. Mesmo o mais intransigente inquisidor se sente tocado e questionado pelo livro. Solapa-lhe a base inquisitorial.

Alison conhece profundamente o pensamento de René Girard. Mais.

Girard se lhe transformou num companheiro de caminhada pelos meandros da fé cristã. Fê-lo perceber como, entre nós, funciona uma lógica de culpar a vítima. Jesus fez explodir o ciclo vitimário. Alison, no caso tratado, evita que tanto a pessoa gay como o conjunto eclesiástico sejam vistos como vítimas de ataques opostos. A reflexão vai na linha da superação de tal lógica, nada evangélica. Pelo contrário, Jesus procura inserir a todos na fraternidade inclusiva, universal de filhos de Deus. Só nessa perspectiva se vence esse jogo perigoso. A essa fraternidade se opõe uma fraternidade excludente, fratricida, de Caim a respeito de Abel, que reivindica uma paternidade exclusiva e excludente. Esta se baseia no biológico, no cultural, enquanto a de Jesus, na gratuidade do dom de Deus que nos quer todos irmãos. Com efeito, existe uma natureza fratricida na cultura humana, que atua por meio de muitas instâncias particulares, de que a máquina eclesiástica não se faz exceção. Sob essa ótica, Alison analisa várias das discussões de Jesus com os judeus, como nos relatam João e outras passagens da Escritura, como a saga de Jacó e José, a história de Jonas etc. E ele vê como tarefa cristã começar a desmontar os efeitos da fraternidade violenta em nossa vida e na dos outros. Implica a capacidade de ir mais além de uma montanha de coisas que nos pareciam sagradas e paternas no nosso ambiente familiar, cultural, geográfico, político e religioso. A libertação vem da dupla experiência de sentir-se filho amado de Deus e de poder dizer “nós” numa comunidade de irmãos em Igreja, sinal de um Reino apenas imaginável.

O discurso eclesiástico, que considera algum grupo de pessoa como “os outros”, separando-os do corpo eclesial, gera vítimas. Deus criador de todos, a quem ama incondicionalmente e que nos fala como a irmãos em seu Filho Jesus, refuga os mecanismos geradores da exclusão em nome da inclusão querida por ele. Alison chega a afirmar que “o que é pecado é a própria participação no mecanismo de exclusão, e não o defeito que provoca essa exclusão”. Nessa dinâmica se situa o livro.

O subtítulo fala de fragmentos católicos. Sinaliza a natureza das considerações expostas. Alison considera que corresponde à teologia do atual

milênio um caráter fragmentário. Os sistemas poderosos, bem construídos e fechados, cederão espaço a estudos a partir de óticas muito diferenciadas. Nenhuma delas conseguirá impor-se na sua exclusividade e totalidade, mas contribuirá com parcela de uma contínua busca do projeto salvador de Deus.

O adjetivo “católico” não pareceu a Alison algo evidente. Duvida se lhe cabe a categoria de “católico romano” ou simplesmente de cristão. Teologicamente falando, parece correto afirmar que todo elemento cristão tem cidadania no mundo católico, se não por convicção da instituição eclesiástica, ao menos por força da vontade de Jesus. Quem está com Jesus não deveria sentir-se fora da casa católica. No entanto, sabemos que o termo “católico” se restringe, não raramente, ao universo institucional, que não consegue fidelidade absoluta ao evangélico e por isso pode pecar pelos dois lados. Ora afirmar como evangélico o que não é, ora rejeitar como não evangélico o que é. Por isso, reflexão como esta de Alison ajuda a purificar o termo “católico” do peso institucional para lhe dar a leveza evangélica.

No discurso, essa afirmação goza de unanimidade. Quando o Concílio Vaticano II afirma a realidade da Igreja como santa e pecadora, no fundo, está dizendo o mesmo. Como santa, cabe-lhe perceber a realidade evangélica. Como pecadora, falha na dupla percepção aludida. Com a pluralidade de discursos teológicos, supera-se o quadro rígido que impõe única regra e medida da verdade e busca-se a fraternidade dos irmãos. A verdadeira natureza de Deus se descobre não por meio da verticalidade de uma paternidade que se impõe, mas pela horizontalidade de uma fraternidade que se vive. Essa ideia volta sob muitos aspectos como fundamental da leitura cristã de Deus.

“Em voz gay” oferece a maior originalidade e coragem da obra. Quando a teologia da libertação levantou a pretensão de produzir uma teologia diferente da teologia europeia, até então considerada “a teologia”, houve mal-estar, que perdura até hoje, em círculos acadêmicos e eclesiásticos. Alison ousa mais. Escolhe a voz gay para ler textos e passagens bíblicas, para analisar situações concretas. Enfrenta a posição moral tradicional da ordem da criação, que exclui todo comportamento que a contrarie como heterodoxo em nome de outra compreensão de Deus e da criação em Cristo.

Ele o faz sem ressentimento, sem radicalismo. Impressiona a lucidez das reflexões. Questionam a todos, inclusive os próprios defensores ardorosos e reivindicadores da causa gay contra certa moral e práxis eclesiástica tradicional. O livro não entra por esse caminho. Ele trabalha a dinâmica eucarística da fé católica que evolui de uma concepção corporativa excludente dos estranhos, passando por um momento de ressentimento antifarisaico em relação aos sujeitos da exclusão, até sua superação, e a da distinção entre nós e os outros numa igualdade de coração em força do amor recriador de Deus manifestado em Jesus.

Em relação às pessoas gays, oferece-lhes o reencontro com uma dignidade que, em última análise, lhes vem de Deus e que ninguém tem o direito de negar. Teme que a vida da maioria das pessoas gays esteja inundada de vergonha e orgulho. A vergonha leva-as a fugir de si mesmas antes do tempo, e o orgulho obriga-as a exibir-se antes do tempo. Quando se está em luta consigo mesmo e com os demais, projeta-se essa violência sobre os outros. Aos opositores, Alison mostra-lhes a pouca percepção de exigências profundas da Escritura. Não os combate. Analisa os pressupostos, os mundos subterrâneos, inconfessados e não falados, para lançar luzes oriundas da própria Palavra de Deus.

No decorrer do livro, o leitor detecta como muitas atitudes e escritos eclesiásticos não respondem a gestos, palavras e atitudes de Jesus. Alison o mostra por fidelidade à mensagem evangélica e não em nome de algum confronto. Um dos pontos fundamentais dessa obra consistiu em pensar teologicamente em voz gay, sem ressentimento nem proselitismo, mas de maneira serena, fina e profunda. Se há algo duro, não vem do discurso, mas da própria objetividade da realidade.

É um livro inaugural. Leva-nos todos a pensar. Tira-nos do clima ainda reinante em muitos lugares de polêmica e de combate quando se trata dessa questão de homossexualidade. Não o faz por nenhum laxismo moral, mas com a fineza de quem mostra traços evangélicos iluminadores. O leitor tem o direito de discordar, naturalmente, da posição pessoal do autor, mas dificilmente deixará de reconhecer a possibilidade hermenêutica da voz escolhida e sua capacidade de, a partir dela, trazer pontos importantes da compreensão da mensagem evangélica.

Na antítese de tal mensagem está a violência física e simbólica. Esta tem atravessado a polêmica sobre a sexualidade de ambas as partes. Os que acusam criam as vítimas, executam-nas física ou simbolicamente, e os que se associam a elas ou elas mesmas o fazem em linha oposta. Alison persegue precisamente uma reflexão que supere essa violência e possibilite um lugar de encontro em vez de rivalidade. Textos escriturísticos que, à primeira vista, pareceriam secundar tal violência, relê-os noutra perspectiva, mostrando inesperado sentido não explorado. Tece uma imagem de Deus fora do reino da violência, da reivindicação, da vingança, do “toma lá dá cá”, da rivalidade, do “olho por olho”. Um Deus situado nesse universo seria mesquinho. Muito próximo de nós, mas pouco Deus. Pelo contrário, Ele é aquele que preconiza a gratuidade e aspira à vida integrada dos seres humanos, e não excluída, vitimada, separada.

Nesta introdução expus algumas poucas ideias-chave de Alison, deixando ao leitor a oportunidade de avançar nelas e enriquecer-se com a leitura do livro. Não o compreenderá quem já se posicionou rígida e ortodoxamente num dos dois campos de batalha, tanto na vitimização das pessoas gays quanto na defesa ressentida de tanta discriminação. Não teria entendido o livro alguém que o interpretasse como uma defesa de qualquer prática sexual ou da relativização do crime de pedofilia que tem agitado tanto a imprensa mundial. Está em questão a dignidade das relações humanas de amor, possíveis no duplo mundo heterossexual e gay, como o contrário também. O livro faz jus ao título: “fé além do ressentimento”. O mínimo que se pode dizer desta obra é que foi escrita por alguém de trabalhada e profunda maturidade humana unida à experiência de fé livre e sempre aberta a caminhar. A todo o texto preside a convicção vivida de que o amor de Deus excede a todo desenho humano e não há diferença que esteja fora do longo e amoroso olhar de Deus.

 

O Autor

JamesAlison

James Alison

James Alison (Londres, 1959) é teólogo católico, sacerdote e escritor. Estudou em Oxford e é doutor pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte. É considerado um dos principais expositores da vertente teológica inspirada no pensador francês, crítico literário e teórico do desejo René Girard, e é atualmente um “Fellow” da Imitatio, fundação que apoia a divulgação do pensamento de Girard (www.imitatio.org).

Além de ser acima de tudo um teólogo sistemático, James Alison é, há mais de quinze anos, um dos raros padres e teólogos católicos assumidamente gays. Seu trabalho é respeitado internacionalmente pelo caminho rigoroso e matizado que vem abrindo nesse campo minado da vida eclesiástica. Dos sete livros que publicou, vários já foram traduzidos para o espanhol, italiano, francês, holandês e russo, e este é o primeiro a sair em língua portuguesa.

Seus próximos projetos, além das viagens por todo o mundo para conferências, palestras e retiros, incluem a divulgação em texto e DVD de um curso, de doze sessões, de introdução adulta à fé cristã, que ele vem ministrando em vários países nos últimos anos, e o incentivo a uma pastoral gay no centro da cidade de São Paulo, onde ele reside. Textos seus em vários idiomas podem ser encontrados no site www.jamesalison.co.uk.

sábado, agosto 28, 2010

Igreja valdense-metodista italiana a um passo de ''abençoar as uniões gays''

 

igreja valdense-metodista italiana

 

Abençoar ou não os casais gays que pedem que sua união seja reconhecida na Igreja? A pergunta agita e divide os 180 delegados do Sínodo Valdense-Metodista, a assembleia anual que inicia neste domingo em Valle Pellice, naItália, e que dita a linha dessa minoria evangélica.

A reportagem é de Vera Schiavazzi, publicada no portal do jornal La Repubblica, 22-08-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em muitos casos, e publicamente em Trapani, em julho passado, os casais homossexuais já receberam uma espécie de "benção" (ato muito diferente do sacramento matrimonial católico) do pastor. Agora, porém, a questão foi oficialmente remetida ao Sínodo. E – fato sem precedentes – um abaixo-assinado contrário a essa possibilidade foi publicado em anúncio pago na revista Riforma: o primeiro signatário é Lucio Malan, valdense e senador do Pdl [partido Popolo della Libertà].

Foi a pastora Maria Bonafede, há cinco anos moderadora dos valdenses e dos metodistas italianos, que propôs que o Sínodo dissesse uma palavra de esclarecimento. "Não se trata do casamento, um fato que para nós tem um valor eminentemente civil e não representa um sacramento – explica –, mas sim do pedido que nos chega de muitos fiéis comprometidos nas nossas igrejas, alguns dos quais são parte ativa principalmente nas grandes cidades. Essas pessoas nos pedem que reconheçamos seu compromisso de amor recíproco invocando a benção de Deus, e é disso que devemos discutir serenamente".

O parecer oposto é de Malan e dos signatários do abaixo-assinado, segundo os quais as bençãos seriam "contrárias ao ordenamento das nossas Igrejas". Das páginas da Riforma, antes e depois da publicação do abaixo-assinado que se dirige ao Sínodo, o próprio Malan polemizou tanto com o diretor da revista, o pastor Luca Negro, quanto com PaoloRicca, pastor e teólogo de grande notoriedade no mundo valdense, "culpado" por ter definido como pais um casal de homens durante um batismo, em Roma, de dois gêmeos adotados graças à lei californiana.

Os argumentos do senador da centro-direita e da parte mais "conservadora" das Igrejas são os tradicionais: a proibição bíblica, contida sobretudo no Levítico, de se ter relações com pessoas do mesmo sexo e a "divisão" que a decisão de abençoar os casais gays poderia provocar entre os fiéis.

"É verdade que se trata de um assunto delicado e controverso – responde a moderadora – mas o abaixo-assinado é de uma pequena minoria, e acho que nas Igrejas já existe uma ampla atitude de acolhida aos casais homossexuais. O que conta é que se dê início a um percurso claro e compartilhado a partir do Sínodo". E Paolo Ricca acrescenta: "Devemos nos perguntar se o que a Bíblia diz sobre esse tema não sofre de condicionamentos históricos e culturais que podem relativizar o seu valor, e como apresentar esse discurso em uma ética cristã que gira em torno do único mandamento do amor".

Os tempos, enfim, parecem maduros para que a minoria valdense e metodista – a mais antiga e provavelmente a mais conhecida do panorama evangélico italiano, também em suas relações internacionais – também dê esse passo, depois de ter se pronunciado sem divisões em favor do divórcio e da lei sobre o aborto. "A benção não é o casamento, nem tem valor de sacramento – lembra Giorgio Bouchard, pastor e outra figura de referência –, mas não pode ser banalizada: é um momento solene no qual se invoca a Deus para se ressaltar uma opção de vida".

(Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – IHU)

sexta-feira, agosto 13, 2010

Nazistas obrigavam gays a transarem com prostitutas

 

Homofobia
História e Crítica de um Preconceito

Um livro de Daniel Borrillo

homofobia

 

Com a intenção de "tratar" a homossexualidade e recuperar a capacidade de reprodução de homossexuais, integrantes da polícia nazista obrigavam gays a transarem com prostitutas durante a Segunda Guerra. Se a conversão não dava certo, essas vítimas em eram castradas a fim de que não mais sentissem prazer.

Este cenário é retratado em "Homofobia - História e Crítica de um Preconceito", do jurista ítalo-argentino Daniel Borrillo, lançado pela editora Autêntica. A obra procura traduzir o significado e as origens do ódio aos homossexuais.

Por meio de um discurso maciço, explica o livro, a discriminação dirigida a gays constrói uma supremacia heterossexual. A ideia é explicada a partir da constante desvalorização da homossexualidade - alvo de piadas e encarada como pecado.

Professor de Direito na França, Borrillo investiga e analisa as ramificações da homofobia nos vários campos da atividade humana. Longe de cair em um vitimismo barato, "Homofobia - História e Crítica de um Preconceito"aborda a perseguição da igreja católica e explica o holocausto gay.

Apesar da veia acadêmica, a linguagem é acessível e de fácil compreensão. Leia trecho.

*

O ministro Hans Frank julgava a homossexualidade uma atitude "contrária à perpetuação da espécie" (BOISSON, 1988, p.51). Desde 1930, as experimentações médicas para "curar" a homossexualidade não cessam de se multiplicar: enquanto ariano, o homossexual deveria ser recuperado para a função reprodutiva. Com esse objetivo, o Dr Varnet submeteu 180 indivíduos a um tratamento hormonal e, em troca do fornecimento de deportados-cobaias de que ele dispunha com toda a liberdade, o cientista teve que ceder a patente do "tratamento" que, supostamente, eliminava o "desejo anormal" (BURLEIGH; WIPPERMANN, 1991, p.195-196). A fim de recuperar "produtores de crianças", os gays e as lésbicas ariano(a)s foram submetidos,igualmente, a "estágios de reabilitação". Em uma crônica terrificante, um sobrevivente de campo de concentração, Heinz Heger (1981), relata como ele próprio e os outros deportados homossexuais eram obrigados, pelos integrantes da SS (Schutztaffel - organização altamente disciplinada, encarregada da proteção pessoal de Hitler), a copular com prostitutas. Todavia, esses procedimentos terapêuticos não produziram os resultados pretendidos, e a consequência dessa constatação de fracasso foi tão brutal quanto a solução proposta: diante da impossibilidade de curar os homossexuais, foi necessário castrá-los para privá-los, daí em diante, de qualquer prazer. Um projeto de lei que preconizava a castração dos homossexuais já havia sido apresentado em 1930 por aquele que, mais tarde, seria o ministro do Interior do 3º Reich, o deputado Wilhelm Fiek (MOSSE, 1985, p.158).

O horror era inimaginável, em particular, para aqueles que haviam conhecido a Berlim de outrora, cosmopolita e gay. No final do século XIX, duas revistas homófilas eram exibidas nos quiosques da cidade: Der Eigne e Sapho und Sócrates. Além disso, em 1987, o médico Magnus Hirschfeld e o editor Max Spohr criaram a primeira organização em favor dos direitos gays: o Comitê Científico-Humanitário (Wisssenschaftlich-humanitäires Komitee, WhK). Alguns anos depois, em 1919, Hirschfeld fundou o Instituto para a Ciência Sexual (Institut für Sexualwissenschaft), quem em pouco tempo, abrigará a maior biblioteca sobre a questão gay. Em 6 de maio de 1933, o Instituto foi atacado de forma brutal: 12.000 publicações e 35.000 fotografias relativas à homossexualidade foram queimadas. Nesse momento, seu diretor encontrava-se no exterior e não conseguiu voltar para a Alemanha; destituído de sua nacionalidade, M. Hirschfeld morreu no exílio, dois anos depois. Nesse mesmo ano, Hitler elimina, em circunstâncias misteriosas, Röhm e outros líderes da AS (Sturmabteilung, milícia paramilitar nazista). De acordo com uma tese, foi a partir do assassinato de Röhm que começou a perseguição dos homossexuais pelo nazismo; até então, havia reinado um clima de tolerância.

(Fonte: Livraria da Folha)

quinta-feira, julho 29, 2010

A fé de uns e de outros

 

MARTHA MEDEIROS

Religião deveria servir apenas para promover o amor e a paz de espírito.

 

260187

 

Apoio que as pessoas se manifestem publicamente contra a violência urbana, contra os altos impostos que não são revertidos em benefícios sociais, contra a corrupção, contra a injustiça, contra o descaso com o meio ambiente, enfim, contra tudo o que prejudica o desenvolvimento da sociedade e o bem-estar pessoal de cada um. No entanto, tenho dificuldade de entender a mobilização, geralmente furiosa, contra escolhas particulares que não afetam em nada a vida de ninguém, a não ser aos diretamente envolvidos, caso da legalização do casamento gay, que acaba de ser aprovado na Argentina.

Se dois homens ou duas mulheres desejam viver amparados por todos os direitos civis que um casal hétero dispõe, em que isso atrapalha a minha vida ou a sua? Estarão eles matando, roubando, praticando algum crime? No caso de poderem adotar crianças, seria mais saudável elas serem criadas em orfanatos do que num lar afetivo? Ou será que se está temendo que a legalização seja um estímulo para os indecisos? Ora, a homossexualidade faz parte da natureza humana, não é um passatempo, um modismo. É um fato: algumas pessoas se sentem atraídas – e se apaixonam – por parceiros do mesmo sexo. Acontece desde que o mundo é mundo. E se por acaso um filho ou neto nosso tiver essa mesma inclinação, é preferível que ele cresça numa sociedade que não o estigmatize. Ou é lenda que queremos o melhor para nossos filhos?

No entanto, o que a mim parece lógico, não passa de um pântano para grande parcela da sociedade, principalmente para os católicos praticantes. Entendo e respeito o incômodo que sentem com a situação, que é contrária às diretrizes do Senhor, mas na minha santa inocência, ainda acredito que religião deveria servir apenas para promover o amor e a paz de espírito. Se for para promover a culpa e decretar que quem é diferente deve arder no fogo do inferno, então que conforto é esse que a religião promete? Não quero a vida eterna ao custo de subjugar quem nunca me fez mal. Prefiro vida com prazo delimitado, porém vivida em harmonia.

Sei que sou uma desastrada em tocar num assunto que deixa meio mundo alterado. Daqui a cinco minutos minha caixa de e-mails estará lotada de agressões, mas me concedam o direito ao idealismo, que estou tentando transmitir com a maior doçura possível: não há nada que faça com que a homossexualidade desapareça como um passe de mágica, ela é inerente a diversos seres humanos e um dia será aceita sem tanto conflito. Só por cima do seu cadáver? Será por cima do cadáver de todos nós, tenha certeza. Claro que ninguém precisa ser conivente com o que lhe choca, mas é mais produtivo batalhar pela erradicação do que torna nossa vida ruim, do que se sentir ameaçado por um preconceito, que é algo tão abstrato.

Pode rir, mas às vezes acho que acredito mais em Deus do que muito cristão.

(Fonte: Zero Hora)

quarta-feira, julho 28, 2010

Luteranos dos EUA acolhem pastores gays

 

 

Com uma imposição de mãos, a Igreja Evangélica Luterana na América (ELCA), nos Estados Unidos, no último domingo, recebeu em seu rebanho sete pastores abertamente gays, que haviam sido barrados, até recentemente, do ministério da Igreja.

A reportagem é de Laurie Goodstein, publicada no jornal The New York Times, 25-07-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
A cerimônia na Igreja Luterana St. Mark, em San Francisco, foi a primeira de várias cerimônias planejadas desde que a denominação obteve uma ampla margem de votos em sua convenção do ano passado para permitir que ministros gays não celibatários em relacionamentos comprometidos sirvam a Igreja.

"Hoje, a Igreja está falando com uma voz clara", disse o Rev. Jeff R. Johnson, um dos sete pastores gays que participaram da cerimônia. "Todas as pessoas são bem-vindas aqui, todas as pessoas são convidadas a ajudar a conduzir esta Igreja, e todas as pessoas são amadas incondicionalmente por Deus".

A Igreja Evangélica Luterana na América, conhecida como ELCA, com 4,6 milhões de membros, é hoje a maior Igreja protestante dos Estados Unidos que permite ministros homossexuais não celibatários a servir nas fileiras do seu clero – uma questão que tem provocado divisões dolorosas para ela, assim como para muitas outras denominações.

Desde que a Igreja votou, no ano passado, pela permissão de que membros do clero gay não celibatário pudessem servir a Igreja, 185 congregações usaram as duas votações consecutivas exigidas para sair da denominação, disse Melissa Ramirez Cooper, porta-voz da Igreja, citando um número que ela afirma ser atualizado mensalmente. Há 10.396 congregações em todo o país.

A Igreja Episcopal e a Igreja Unida de Cristo também permitem ministros gays. E a Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana dos EUA votou, em sua convenção no início deste mês, pela sua aprovação, apesar de que a votação irá se tornar lei da Igreja só se for ratificada por uma maioria de 173 presbíteros regionais da Igreja. Duas denominações luteranas menores, a Lutheran Church Missouri Synod e a Wisconsin Evangelical Lutheran Synod, não ordenam ministros que tenham relacionamentos homossexuais.

Os sete ministros  acolhidos na cerimônia de domingo já tinham sido ordenados e estavam servindo em igrejas ou ministérios da Bay Area de San Francisco, mas não haviam sido oficialmente reconhecidos na lista do clero.

"O efeito deles serem trazidos ao nosso plantel é que agora eles farão parte do nosso banco de dados nacional de pastores que estão disponíveis para o serviço em qualquer uma de nossas 10.500 igrejas", disse o bispo Mark W. Holmerud, que lidera o Sínodo de Sierra Pacific, que inclui San Francisco. Ele observou que, embora algumas congregações sejam abertas para considerar a contratação de ministros abertamente gays, outras não são – e cada congregação é livre para escolher.

 

Os luteranos evangélicos marcaram o rito especial de domingo como um "rito de reconciliação" para marcar a inclusão formal dos ministros homossexuais que foram ordenados em "ritos extraordinários", que não haviam sido reconhecidos pela Igreja, por terem sido conduzidos por um grupo chamado Ministérios Luteranos Extraordinários. Mais três pastores gays serão acolhidos em cerimônias em setembro e outubro, duas na área de St. Paul-Minneapolis e uma em Chicago, disse Cooper.

Amalia Vagts, diretora-executiva dos Ministérios Extraordinários Luteranos, disse: "Foi uma viagem longa e difícil para muitas pessoas, e parece que este é um novo começo na história da ELCA".
Ela disse que, somando todos, havia 46 ministros abertamente homossexuais que haviam sido previamente excluídos da lista do clero da Igreja e que agora passariam a ser aceitos.

A mudança foi possível depois que a Churchwide Assembly, o principal órgão legislativo dos luteranos evangélicos, votou em sua reunião de 2009 pela permissão da ordenação de pastores gays não celibatários que estão em relações monogâmicas. A denominação indicou uma força-tarefa para estudar a questão em 2001 e passou os outros oito anos em debate. No final, a proposta de permitir membros abertamente homossexuais ao clero ganhou apenas dois terços dos votos, o mínimo exigido para sua aprovação.

Alguns dos que se opuseram à decisão estão prestes a sair. O Rev. Mark Chávez, diretor da Lutheran CORE, uma coalizão de Igrejas luteranas teologicamente conservadoras, disse que seu grupo deve formar uma nova denominação, a North American Lutheran Church, em agosto.

Ele disse que da cerimônia do domingo "é apenas mais um passo firme tomado pela ELCA para mover a denominação para mais e mais longe da maioria das Igrejas luteranas ao redor do mundo e de toda a Igreja cristã, infelizmente".

Antes da cerimônia, um dos pastores gays, a Rev. Megan M. Rohrer, disse que tinha sido uma longa jornada desde sua casa em South Dakota – onde seus companheiros luteranos consideravam a sua sexualidade como um demônio a ser exorcizado – para finalmente ser acolhida como uma ministra da Igreja Luterana.

"É um convite", disse ela sobre a cerimônia, "para se unir a nós nos bancos da igreja todos os domingos, onde nenhum destes pastores vai se importar se você concorda conosco ou se você pensa que as nossas famílias são apropriadas. Vamos lhe dar a comunhão, vamos rezar com você e vamos visitá-lo no hospital".

(Fonte: IHU - Instituto Humanitas Unisinos)

sábado, julho 17, 2010

Juíza se nega a casar gays mesmo que ‘custe sua própria vida’

 

Uma juíza de paz argentina afirmou nesta sexta-feira que jamais realizará o casamento de casais homossexuais, um dia depois de o Senado aprovar uma lei que autoriza essas uniões.

“Que me acusem do que quiser. Deus me diz uma coisa e eu vou obedecer, mesmo que custe meu posto, e mesmo que me custe a vida, porque primeiro está o que Deus me diz”, afirmou Marta Covella, juíza de paz da cidade de General Pico.

“Fui criada lendo a Bíblia e sei o que Deus pensa. Deus ama a todos, mas não aprova as coisas ruins que as pessoas fazem. E uma relação entre homossexuais é uma coisa ruim diante dos olhos de Deus”, assinalou ainda.

(Fonte: Bule Voador)

 

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Algumas palavras sobre este fato

Há muito tenho comentado neste blog sobre a pretensão que fundamentalistas têm em conhecer a mente de Deus apenas com base em sua leitura radical da Bíblia.

Diante disso apenas me lembro de uma experiência que gostaria de compartilhar com vocês. Quando decidi que era o momento de falar abertamente a meus pais sobre o fato de eu ser homossexual, fiquei preocupado de que nossa relação ficasse abalada a tal ponto que eles preferissem que eu me mantivesse distante deles. Felizmente eles são muito melhores que eu. E não apenas superaram o choque inicial, como não permitiram que nossa relação sofresse qualquer dano. E mais, acolheram meu companheiro como a filho.

Essa generosidade e esse amor incondicional, abriram meus olhos para compreender muito melhor o que significa amar alguém. Hoje sinto engulhos toda vez que leio ou escuto quem diz que Deus ama os homossexuais – e a todos os demais “pecadores” – mas só pode fazer algo de bom a eles – por exemplo, não permitir sua ida inevitável para o inferno por toda a eternidade – se os mesmos se converterem e agirem não como eles pensam ser o melhor para si, mas de acordo com um conjunto de livros com preceitos contraditórios e, muitas vezes, imorais para os padrões civilizados.

Quando penso no amor incondicional demonstrado por meus pais e penso nesse deus amargurado que querem me enfiar goela abaixo, não posso deixar de pensar que não preciso dele. Se há um deus – e, falando honestamente, não posso afirmá-lo ou negá-lo – e se ele é amor, como me dizem; não há a possibilidade de que ele me ame menos do que as pessoas que mais me amam no mundo. Caso contrário, esse deus, supondo que exista, é completamente dispensável para mim, e viver no inferno parece ser uma alternativa mais atraente.

Uma divindade que, para ser propiciada, precisa que eu negue minha natureza, não merece minha atenção. Contudo, se ele pode me acolher e me respeitar, me amar e desejar que eu esteja sempre com ele, aí sim posso concebê-lo e amá-lo.

Ao contrário, a imagem de um deus que, ao menor desagrado, permite passivamente que aqueles a quem diz amar vivam em sofrimento eterno, não condiz com o epíteto “amor”. E, aqueles que o adoram, em nome desse deus impiedoso e cruel, tornam-se igualmente impiedosos e cruéis. Amargos reflexos, à imagem e semelhança do deus a que adoram.

Augusto Araujo.

Em Barbacena, Minas Gerais.

segunda-feira, maio 24, 2010

Padres argentinos saem em defesa do casamento gay

 

Grupo de doze sacerdotes divulga texto pedindo legalização da união gay na Argentina.

imgCrop.php Padre Nicolas Alessio e seu grupo defendem união gay

 

Um grupo de padres católicos na Argentina publicou um documento defendendo o casamento gay. Na última semana, os doze sacerdotes de Córdoba que integram o Grupo Sacerdotal Enrique Angelelli contrariaram os posicionamentos oficiais da Santa Sé e deram opiniões muito mais tolerantes acerca do projeto de reforma do Código Civil argentino, que vem sendo discutido pelo parlamento do país e que inclui o reconhecimento legal de uniões entre pessoas do mesmo sexo.

No texto, que você confere na íntegra logo abaixo, os padres usam passagens bíblicas para afirmar que Jesus Cristo nunca condenou a homossexualidade.

É óbvio que a iniciativa gerou reações por parte dos setores conservadores da Igreja Católica. O bispado de Córdoba se apressou em declarar que a opinião dos doze padres "não representa de forma alguma o sentimento da Igreja Católica". Em nota, as autoridades religiosas pediram que senadores se oponham ao projeto "para o bem do país e de suas futuras gerações".

Leia o texto divulgado pelos padres defensores da união gay: aqui.

(Fonte: Mix Brasil)

quinta-feira, maio 20, 2010

Santos Gays?!

 

santosgaysA história da sexualidade humana é tão antiga quanto o homem. Todos os registros de culturas antigas mostram-nos como a humanidade tratava a questão homossexual. Em todos os casos, a homossexualidade não era apenas tolerada, mas socialmente aceitável. Mas, de repente, chegaram os inventores do castigo, da culpa castrante e do pecado, e o que em princípio era costume, tornou-se algo contra a lei de Deus, ficou rotulado como monstruoso e uma longa série de adjetivos.

Conhecer a história permite-nos saber que mesmo em uma das mais homofóbicas organizações que existem hoje em dia, a Igreja Católica, nem sempre foi assim. No passado, a Igreja cristã abençoava os casais homossexuais no que era então chamado "ritos de geminação". Na Igreja Ortodoxa do Ocidente, foram encontradas provas de que esses casamentos eram comemorados tanto pelos papas ortodoxos como por padres católicos.

No início do cristianismo, a igreja teve que aceitar essas relações, para não perder adeptos. Estas relações não eram apenas toleradas, mas também há exemplos de tais parcerias entre os santos cristãos.

São Sergio e São Baco (? - 297)

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Sergio de Resapha e Baco de Barbalissus, nobres romanos e militares no exército do imperador Cesar Maximiano, viviam em Coele, Síria, perto de Comana em Cappadocia (província romana), no início do século 4 dC.

Sergio foi comandante (primicerius) da escola de recrutas Arabissus, composta de bárbaros, chamada de Schola Gentilium (Escola dos Pagãos), e Bacchus era seu subalterno (secundarius), seu auxiliar direto.

Manuscritos gregos revelaram que foram abertamente homossexuais e que eram ‘erastai’ (amantes). Estes manuscritos estão em várias bibliotecas européias e indicam a atitude inicial do cristianismo em direção a homossexualidade, de forma diferente do que eles pregam hoje.

Seus nomes são invocados em cerimônias de união entre casais do mesmo sexo, casamento aceito e respeitado por direito divino e humano na Europa cristã na época em que viviam.

Convertidos ao cristianismo, Sergio e Baco não estavam presentes quando o imperador foi fazer um sacrifício a Zeus e Júpiter. Quando chamados por Maximiano que, para testar a sua lealdade, ordenou-lhes a participação nos ritos pagãos de sacrifício, Sergio e Baco se recusaram e assumiram sua fé cristã. A punição foi terrível.

Foram despidos e vestidos com roupas femininas e exibidos pelas ruas da aldeia. Flagelados com chicotadas, Bacco logo morreu (01/10/297), Sergio foi levado para Resapha (Síria) e suportou intensos sofrimentos, caminhando quilômetros com os sapatos forrados com pregos afiados e finalmente foi decapitado (07/10/297). Ambos foram enterrados nos arredores da cidade de Resapah.


Na Idade Média

Os dois foram suscitados em cerimônias para abençoar casais homossexuais.


Na Síria

Após a canonização, o Imperador Justiniano construiu, em honra de Sergio, igrejas em Constantinopla e Acre. A primeira foi transformada em mesquita e tem em seu interior raros exemplares da arte bizantina. Sergio foi nomeado patrono da Síria.


Em Roma

Existe uma igreja, construída no século VII, consagrada a Sergio e Baco. Os dois santos são representados pela arte cristã como soldados com roupas do exército e empunhando palmas de flores.


Na Igreja ortodoxa

No Monte Sinai, no Mosteiro Ortodoxo de Santa Catarina, mandado construir pela Imperatriz Helena de Bizâncio, são encontrados ícones de São Sergio e São Baco representados lado a lado, segurando, juntos, uma cruz. Em 2000, o Papa João Paulo II visitou o local.

Este ícone (a palavra vem do grego eikón e significa imagem, são sinônimo de arte sacra bizantina e estão em todas as Igrejas Ortodoxas) é do sétimo século, e está agora no museu de arte oriental e ocidental, em Kiev. É interessante ver como Cristo aparece na posição tradicional dos romanos ‘Pronubus’ *, por trás de Sergio e Baco.

O fato é que São Sérgio e São Baco, mártires da Igreja, viraram ícones do movimento gay, inspirando artistas. Suas imagens servem à defesa da união civil entre pessoas do mesmo sexo, cujas cerimônias são seladas com a leitura da oração dos dois santos. Eles têm até um dia, os jovens amantes são venerados na liturgia bizantina em 7 de outubro.

(Fonte: Igrejas da Comunidade Metropolitana – ICM)

 

________________

* Pronubus, em língua portuguesa prônubo, segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa significa “relativo a noivo, noiva ou a núpcias; nupcial”, e ainda, “que arranja casamento para outrem; casamenteiro” (como por exemplo, na mitologia romana, a deusa Juno).

terça-feira, maio 18, 2010

Diocese Anglicana de Los Angeles tem duas novas bispas

 

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Sete anos após a sagração do Rev. Gene Robinson (foto acima) como bispo da Diocese de New Hampshire, agora foi a vez de uma reverenda homoafetiva ser sagrada bispa. A Diocese de Los Angeles no último final de semana ordenou formalmente a reverenda Mary Glasspool ao episcopado. Glasspool é a bispa de número 1045 na Igreja Episcopal dos Estados Unidos. Em 2003, quando de sua sagração, Gene Robinson utilizou um colete à prova de balas por baixo das vestes sacerdotais, pois recebeu ameaças de morte por parte de grupos fundamentalistas cristãos. Dessa vez, porém, a cerimônia foi celebrada em clima de grande alegria e contou apenas com a pequena interrupção de dois manifestantes dentre as três mil pessoas que se reuniram para orar por Mary Glasspool e Diane Bruce, as novas bispas auxiliares da Diocese de Los Angeles, que conta com 147 congregações, 44 escolas e 20 instituições, reunindo em sua área aproximadamente 70 mil episcopais.

A Liturgia contou com o apoio e participação de cerca de 30 bispos, incluindo o Revmo. Rev. Martin Barahona de El Salvador, o bispo aposentado de Uganda Christopher Senyonjo, a bispa Barbara Haris (que em 1988 se tornou a primeira bispa da Comunhão Anglicana) e do Revmo Bispo Gene Robinson, da Diocese de New Hampshire. Participaram ainda os bispos Frederick H. Borsch (aposentado), Lawrence Provenzano (Long Island), Mark Hollingsworth Jr (Ohio) e três bispos da Diocese de Maryland, onde a Reverenda Mary Glasspool trabalhou por oito anos.

Também estiveram presentes bispos da Igreja Evangélica Luterana da América, Dean Nelson (Sínodo do sudoeste da California) e Murray D. Finck (Sínodo do Pacífico), além de pastores da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos, da Igreja Metodista e da Igreja Unida de Cristo.

A bispa Diane Bruce é casada com Stephen Bruce, o casal tem dois filhos adultos.

A bispa Mary Glasspool é filha de um clérigo da Igreja Episcopal e vive há duas décadas com sua parceira Becki Sanders, que também é formada em teologia e em serviço social. Elas se conheceram em Boston (Massachussets), quando Mary ainda era seminarista.

(Bispa Diane Bruce à esquerda e bispa Mary Glasspool, à direita)

A liturgia foi marcada por elementos da rica diversidade cultural de Los Angeles, e contou com a participação de um baterista coreano, de gaiteiros da Universidade da California, uma banda de louvor chinês (Paróquia St. Thomas) e uma banda mariachi, além de um coral de 125 vozes da Diocese representando 147 congregações que entoou cânticos de louvor da Nigéria, Itália e de outros países. A celebração durou, ao todo, 3 horas e foi realizada na Arena Long Beach.

A procissão começou com uma dança litúrgica conduzida por um dragão chinês e o bater de tambores. A Bispa Presidente Katharine Jefferts Schori iniciou a liturgia com a Proclamação da Páscoa: “Aleluia, Cristo ressuscitou”, seguida pela Coleta pela Pureza. No momento do Kyrie, uma voz gritou “Arrependei-vos” do pecado da homossexualidade”. Foi a única manifestação de oposição.

As duas candidatas foram apresentadas por grupos diferentes de clérigos. A Comissão Permanente Diocesana atestou que as candidatas foram devidamente eleitas pela convenção diocesana e que são pessoas experientes e plenamente qualificadas na fé e no caráter para exercer a função de bispas para a honra de Deus e a edificação da Igreja, e que suas vidas davam testemunho de exemplo salutar para o rebanho de Cristo. A eleição de ambas também foi aprovada por maioria na Câmara dos Bispos da Igreja Episcopal dos Estados Unidos e pela maioria das dioceses.

A Bispa Presidente perguntou se havia alguém poderia apresentar qualquer razão pela qual a sagração não pudesse ser realizada. Após um período de silêncio e, sem que houvesse qualquer manifestação contrária, a bispa perguntou à congregação presente se era seu desejo que Diane e Mary fossem ordenadas bispas.

“Esse é o nosso desejo”, foi a resposta.

Ela perguntou novamente se a comunidade apoiaria Diane e Maria como bispas, e toda congregação respondeu positivamente.

Seguiu-se a Liturgia da Palavra, apresentada em vários idiomas – inglês, coreano, espanhol e tagalog (dialeto filipino).

A aclamação ao Evangelho foi feita através de um canto africano acompanhado pela batida de um tambor.

Na homilia, o bispo Bruno declarou: “É importante entender que essas mulheres foram chamadas pela comunidade de Deus. Eles foram chamadas pelo povo de Deus para ocupar um lugar que outras mulheres não tiveram ainda na Diocese de Los Angeles. Elas são chamados a ser apóstolas da Igreja; elas são chamadas a exercer o ministério de Jesus neste lugar, de tal forma que o mundo seja transformado”

O bispo Bruno lembrou ainda: “Em Cristo não há judeu nem grego, nem escravo nem livre. Não há nem homem nem mulher, gay ou hetero. Na Igreja Episcopal não há excluídos”.

A Bispa Presidente lembrou às novas colegas que elas são chamadas a guardar a fé, a unidade e a disciplina da igreja, para celebrar os sacramentos, para ordenar diáconos e padres e pastores fiéis e ser exemplos salutares para o rebanho de Cristo.

As duas mulheres então silenciosamente ajoelharam-se diante da Bispa Presidente e o hino Veni Sancte Spiritus foi entoado como em latim.

No momento em que a voz da bispa presidente iniciou a oração de consagração, todos os bispos presentes circularam as duas mulheres impondo-lhes as mãos.

Para ler, em inglês, um testemunho da bispa Mary Glasspool, acesse o link:

http://bishopssuffragansearch.ladiocese.org/Candidates/glasspool.html

O testemunho da bispa Diane Bruce também pode ser lido no link:

http://bishopssuffragansearch.ladiocese.org/Candidates/bruce.html

Damos graças a Deus pelo testemunho da Diocese Episcopal de Los Angeles e pelas vidas das Bispas Diane Bruce e Mary Glasspool.

(Fonte: Capela da Inclusão)

domingo, maio 16, 2010

O fruto podre do fundamentalismo

 

A Folha Online noticiou dia 12/05 que o líder evangélico Silas Malafaia em Audiência Pública para discutir o projeto que institui o "Estatuto das Famílias", na Câmara dos Deputados, comparou a união estável entre pessoas de mesmo gênero à zoofilia e à necrofilia.

A reportagem é de Johanna Nublat, da sucursal de Brasília do jornal paulista. E pode ser lida na íntegra através do link Pastor critica união homoafetiva em discussão sobre o "Estatuto das Famílias".

As declarações do referido líder da Igreja Assembleia de Deus podem ser conferidas no vídeo abaixo.

 

 

Extremamente criticado – inclusive dentro de sua própria denominação religiosa – por suas atuais tendências teológicas (teologia da prosperidade) e pela aquisição de um jato particular avaliado em 20 milhões de reais, Silas Malafaia é a voz e o rosto do fundamentalismo evangélico-pentecostal brasileiro. Uma voz, diga-se, que se faz ouvir pelo tom exagerado e exasperado de quem crê poder convencer pela virulência com que grita e não pela validade de seus argumentos.

A infelicidade da atual declaração de Malafaia não surpreende por sua fonte, mas pela ignorância que cultiva e dissemina. E pela irresponsabilidade de quem, conscientemente ou não, incentiva a violência e o preconceito.

sábado, maio 15, 2010

Indo além do fundamentalismo

 

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Após haver publicado o texto de Paul Tillich com o título Teologia e Fundamentalismo, recebi a notícia abaixo com grande alegria e esperança. A Igreja Episcopal (Anglicana) dos Estados Unidos – mais especificamente a Diocese de Los Angeles – traz um exemplo de como a religião pode ser um espaço de saudável convivência e respeito entre os diferentes.

Aliás, a Igreja Anglicana, dentre as Igrejas Cristãs Históricas, tem se mostrado em várias partes do mundo a que melhor compreende o significado do conceito de inclusividade.

Segue abaixo o artigo traduzido integralmente por mim do inglês (desde já perdoem-me as imperfeições, meu inglês é sofrível). Clicando na imagem abaixo, bem como nos links em destaque, vocês poderão ter acesso não apenas ao artigo em sua forma original, mas também obterão maiores informações sobre o Movimento “Integrity”.

Abraço a todas e todos!

 

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Do blog Walking with Integrity [1]

 

O Movimento “Integrity” comemora hoje com a Diocese de Los Angeles (USA) e com toda a igreja as ordenações das Bispas Diane Jardine Bruce e Mary Douglas Glasspool. Este dia histórico é mais um importante passo em direção à plena inclusão de todos os batizados no trabalho e no testemunho da Igreja Episcopal (Anglicana), e o Movimento “Integrity” teve a honra de participar dele.

“Assim como celebramos hoje essas ordenações, celebramos igualmente o trabalho duro e o persistente ativismo de ‘Integrity’ nos últimos 35 anos”, afirmou David Norgard presidente do Movimento. “Hoje aqui em Long Beach estamos  não apenas colhendo os frutos do trabalho daqueles que nos precederam, mas estamos plantando as sementes para a inclusão plena em toda a Igreja”.

Estiveram também presentes neste festivo culto de ordenação os ex-presidentes de “Integrity”: Bruce Garner (Atlanta), Byham Kim (Newark) e Susan Russell (Los Angeles). “Como filha desta diocese não poderia estar mais orgulhosa de que Los Angeles tenha respondido ao convite para ser um farol à frente, e não apenas uma luz traseira, na plena inclusão”, disse Russell. “Hoje a primeira Bispa Primaz na história da Comunhão Anglicana ordenou as duas primeiras bispas na história da Diocese de Los Angeles… e o fato de uma delas ser lésbica não é um problema, mas uma oportunidade para melhor encarnar a totalidade do amor abundante e inclusivo de Deus”.

Hoje é dia de festa! E, amanhã, “Integrity” voltará a trabalhar pelo dia em que o gênero, orientação sexual, identidade e raça de um bispo da Igreja de Deus não seja mais um problema. Para ninguém. E pelo tempo em que todos os sacramentos estejam disponíveis para todos os batizados. Para todos.

Para mais informações contactar:

Louise Brooks, Diretora de Comunicação
Integrity E.U.A.
626-993-4605
lebrooks@earthlink.net

 


[1] Integrity: Movimento Anglicano que trabalha, desde 1974, para a plena inclusão de todos os batizados - principalmente lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros - em todos os sacramentos.

quarta-feira, maio 05, 2010

A sociedade é pedófila, diz arcebispo católico de Porto Alegre (RS)

 

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Dadeus Grings (foto), arcebispo católico-romano de Porto Alegre (RS), em entrevista coletiva dada por ocasião da abertura da 48ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) afirmou que a sociedade é pedófila e que os casos de pedofilia na Igreja Católica-Romana representam apenas 0,2% dos casos de abusos sexuais contra crianças.

O arcebispo também associou homossexualidade e pedofilia, desta vez no campo dos direitos civis. Afirmou Dadeus Grings:

Quando a sexualidade é banalizada, é claro que isso vai acontecer. O homossexualismo (sic) é um caso. Antigamente não se falava em homossexual. E era discriminado. Quando começa (a dizer) que eles têm direitos, direitos de se manifestar publicamente, daqui a pouco vão achar os direitos dos pedófilos.

E falando sobre a origem das tendências homossexuais, reiterou o velho mote de que a homossexualidade é inata em apenas uma pequena porcentagem dos gays. Para ele a homossexualidade seria, então, um desvio de comportamento oriundo de má orientação no campo da sexualidade. E pergunta: “[…] como vamos educar nossas crianças para o uso da sexualidade que seja humano e condizente?”.

Assim, mais uma vez, uma liderança católico-romana tenta desviar a a atenção dos problemas de imoralidade e criminalidade em sua instituição, associando-os à luta de cidadãos e cidadãs de orientação homoafetiva por seus direitos civis. Comparar o exercício livre, saudável e consensual da sexualidade (em qualquer de suas tonalidades afetivas), com a violência sexual (seja contra crianças ou mulheres, no caso de estupro) é ignorância ou má fé. Ou quem sabe uma conjugação de ambas?

A notícia completa pode ser lida no site do jornal O Globo.

segunda-feira, maio 03, 2010

CNBB critica decisão do Superior Tribunal de Justiça por reconhecer adoção de crianças por casal lésbico.

 

casal_tn A fisioterapeuta Lídia Guteres e a psicóloga Luciana Reis Maidana, casal beneficiado pela decisão do STJ

Redação MundoMais

BRASÍLIA – A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou uma nota com críticas à decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que reconheceu o direito de adoção e registro de nascimento de duas crianças ao casal formado pela fisioterapeuta Lídia Guteres e pela psicóloga Luciana Reis Maidana, da cidade de Bagé, no Rio Grande do Sul.

“Nem sempre o que é legal é moral e ético”, disse o assessor da Comissão para Vida e Família da CNBB Luiz Antônio Bento. Segundo Bento, a adoção por casais homossexuais fere o direito da criança de crescer numa referência familiar composta por um pai e uma mãe. No entanto, Bento não explicou se as crianças têm referências familiares nos orfanatos.

Já o diretor-executivo da Federação Espírita Brasileira (FED),Geraldo Campetti, é contrário ao pensamento da Igreja Católica. Para ele, a adoção de crianças por casais homossexuais não causam efeitos negativos. "O mais importante em termos de educação e família é o amor. Com ele, não se entra na questão da sexualidade", disse Campetti.

Por sua vez, o presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), Toni Reis, salienta que esta crítica da CNBB é uma incitação ao preconceito. Segundo ele, casais formados por homem e mulher representam 50% da formação familiar brasileira. Ademais, as crianças são criadas por avós, tios, tias, mães e pais solteiros, entre outras configurações. “Então, tem problema?”, questiona Reis.

(Fonte: Redação MundoMais).

quinta-feira, abril 15, 2010

Anglicanismo e Diversidade Sexual II

 

Como sabem tenho interesse na, nem sempre fácil, relação entre Homossexualidade e Religião. Tenho falado reiteradamente sobre o tema, procurando trazer à tona o preconceito religioso contra a livre orientação de gênero e sexualidade. Além disso, procuro esclarecer como este preconceito é contraditório mesmo dentro dos quadros mais elementares do discurso religioso. Um discurso quase sempre pautado em valores como amor, fraternidade, liberdade, etc.

No entanto, algumas vezes, encontramos grupos religiosos que se interessam de maneira genuína e inclusiva pela questão da diversidade sexual. O vídeo abaixo demonstra o feliz trabalho que vem sendo realizado por uma Paróquia Anglicana na cidade de São Paulo: o Coral da Diversidade.

Parabéns ao Rev. Arthur Cavalcante e à comunidade da Paróquia Santíssima Trindade!

Espero que gostem!

(Fonte: Capela da Inclusão)

Anglicanismo e Diversidade Sexual

 

Bispo Martín Barahona: Domingo de Ramos e a Diversidade Sexual

Historicamente marginalizadas nos Estados Unidos, as comunidades latina e de homossexuais receberam, no domingo, 28, a visita do bispo primaz da Igreja Anglicana da Região da América Central (Iarca), Martín Barahona.

ALC
terça-feira, 30 de março de 2010

“Somos duplamente marginalizados: somos gays e não temos documentos, mas somos uma comunidade unida”, disse Elena, um travesti que frequenta bar em São Francisco. “Deus os ama, não condena vocês, porque para Ele não existe exclusão”, proclamou o primaz, instando a comunidade gay a permanecer firme na fé e aprofundar sua espiritualidade.

Barahona, que também é bispo da Igreja Anglicana de El Salvador, oficiou o Domingo de Ramos numa das principais ruas de São Francisco. Depois, foi de bar em bar naquela via pública para entregar aos seus frequentadores ramos abençoados, que, no mundo cristão, recordam a entrada triunfante de Jesus em Jerusalém.

O bispo salvadorenho celebrou ofício religioso em paróquia cuja membresia é constituída, em sua maioria, por gays e lésbicas. A Igreja Episcopal dos Estados Unidos tem-se mostrado aberta à diversidade sexual.

(Fonte: Capela da Inclusão)

quinta-feira, abril 08, 2010

Homossexualidade e Religião no cinema

 

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Aaron, um respeitável açougueiro na ultra-ortodoxa comunidade Judaica de Jerusalém, é casado com Rivka e pai dedicado de quatro filhos. Um dia, ele encontra Ezri, um belo estudante de vinte e dois anos, e logo se apaixona. Começa, então a negligenciar sua vida familiar e comunitária, varridas por seu amor e desejo por Ezri. Enquanto isso, paralelamente a essa relação, uma lojista vizinha persiste em encontrar um homem de sua própria escolha, apesar de ter sido prometida por seu pai para outro. Eventualmente, a culpa, o tormento e a pressão gerados pela comunidade vão atingir os amantes condenados, levando-os a tomar decisões radicais ...

 

No Brasil o filme estreou no dia 02/04/2010 em salas do Rio, São Paulo e Brasília. E permanece sem previsão de exibição no restante do país.

(Fonte: Peccadillo Pictures)

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Amamos o pecador, mas odiamos o pecado.


Este post poderia ter o subtítulo: “Relembrando a Santa Inquisição”. Mas, a frase que lhe dá título serve bem para ilustrarmos como raciocinam os fundamentalistas religiosos de plantão. Eu a tenho ouvido / lido quase diariamente em minhas discussões sobre a dignidade e os direitos da população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros), como se fosse um argumento irrefutável – ao lado da liberdade de crença e culto, que já analisamos anteriormente – para a não aprovação do PLC 122/2006 que criminaliza a homofobia.

A questão toda se resume nisso: amamos o pecador, mas como está em pecado ele não tem direito a estabelecer uma parceria civil, não tem direito a adotar, não tem direito a ser protegido pelo estado (em caso de sofrer qualquer tipo de violência por sua orientação de gênero), não tem direito a plano de saúde compartilhado ou à herança. De fato, o pecador não tem direito de existir! Foi assim que pensaram os “santos inquisidores”, tão mal compreendidos historicamente! Afinal, eles amavam o pecador, odiavam apenas o pecado. E, assim, agindo segundo a mais alta caridade cristã, condenavam outros seres humanos à morte na fogueira, não sem antes uma boa tortura, para amaciar o moral e ser liberto pela verdade. A escolha da fogueira era mais um golpe de sua imensa misericórdia e amor pelo pecador. A morte era lenta, assim havia a chance de, diante da dor, o pecador se arrepender e ter sua alma imortal salva no último instante.

Esse é o mesmo quadro que vislumbramos hoje. As bancadas religiosas amam tanto os pecadores homossexuais que desejam, do fundo de seus corações misericordiosos, que estes cidadãos e cidadãs sofram cada vez mais preconceito, discriminação e violência. Quem sabe assim eles não se arrependam de suas vidas pecaminosas e se salvem. Quem sabe assim a pseudo-psicóloga Rosângela Justino tenha de volta seu registro no Conselho Nacional de Psicologia, e seu ganha-pão, com o aumento de indivíduos arrependidos. Se alguns gays e lésbicas morrerem no meio do processo, tudo bem, são baixas de guerra: a guerra contra o pecado.

O que me assusta em meio a toda essa discussão é a facilidade com que lidamos com seres humanos a partir de categorias tão equivocadas como a de “pecadores”. Mas, é mais fácil. Uma categoria não pensa, não sente, não ama, não sofre… Uma categoria é apenas isso, uma categoria. Esquecemos tão prontamente que o que está em discussão com essa lei são direitos individuais das pessoas que tudo toma caráter meramente ideológico.