Diz-se que Heráclito assim teria respondido aos estrangeiros vindos na intenção de observá-lo. Ao chegarem, viram-no aquecendo-se junto ao fogo. Ali permaneceram, de pé, (impressionados sobretudo porque) ele os encorajou a entrar, pronunciando as seguintes palavras: 'Mesmo aqui, os deuses também estão presentes'. (Aristóteles. De part. anim. , A5 645a 17ff).
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quinta-feira, maio 05, 2011

Ela é minha irmã: uma homenagem.

 

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Há alguns dias uma jovem cometeu suicídio ao saltar da janela de seu apartamento, no centro de Campina Grande (PB). Segundo informações, a moça sofria de um quadro grave de depressão e estava sob tratamento. Ainda de acordo com as informações a que tive acesso, tudo se passou em apenas um minuto de distração: a pessoa que estava com ela no momento apenas se virou para desligar o fogão aceso, e quando se voltou a jovem já estava pulando pela janela.

Esse fato me trouxe algumas memórias e muitas reflexões. Em 2007 eu mesmo me vi preso a um quadro depressivo moderado que, felizmente, foi revertido com o auxílio de medicação e terapia. E quando soube da notícia, imediatamente me solidarizei com a menina que não teve a mesma possibilidade.

Apenas quem já esteve em depressão pode compreender o sofrimento de alguém nessa situação. Isso porque, para quem está de fora parece inexplicável que uma pessoa que vive cercada de afeto da família e dos amigos, que não enfrenta grandes problemas objetivos, que foi bem educado, etc.; possa tornar-se vítima de dor tão intensa que justifique escolher a morte como saída.

Isso se dá porque, infelizmente, para muitos ainda, a depressão acontece por algo como uma "falha de caráter". Para muitos a pessoa em depressão é um fraco, alguém que não sabe apreciar as coisas boas da vida e se centra apenas em seu sofrimento egoísta. Muitos ainda desconhecem as causas orgânicas deste mal. E, mais, por não haverem - felizmente - vivido o mesmo quadro, embora se preocupem com aqueles que passam por isso, não podem compreender como pode ser real aquele sofrimento, aquela dor, que existe apenas para quem a sofre.

Desde que soube o que havia acontecido com essa jovem, de quem não sei nem mesmo o nome, passei a me sentir estreitamente ligado a ela. Não como algo místico, ou mediúnico, me entendam. Ligo-me a ela por um laço fraterno: o sofrimento nos tornou irmãos.

Como eu disse, sei como é ser tomado por uma dor que você mesmo é incapaz de explicar. Sei como tal sofrimento, que para os outros parece imaginário, para quem o padece torna-se a única realidade. Sei o que é desejar dormir e nunca mais acordar. Sei como a morte se apresenta como a única saída capaz de fazer cessar a dor.

Depois de refletir sobre todas essas coisas, pude perceber o quanto próximo estou dessa jovem mulher, o quanto passei a amá-la em seu sofrimento. Ela é minha irmã, a quem rendo, aqui, minha homenagem.

quinta-feira, março 10, 2011

Quem são os “gays reais”?

 

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No dia 09 de março passado, o portal Mix Brasil publicou reportagem de Hélio Filho, intitulada Insensato Coração: Personagem gay ganha mais espaço a partir de hoje. No artigo, o autor, após elogiar o crescimento do personagem homossexual Eduardo (Rodrigo Andradde – Foto) na trama da novela global “Insensato Coração”, manifesta a seguinte opinião: “Simpatia à primeira vista por um personagem que tem se mostrado bem longe de estereótipos imaginados e muito mais perto dos perfis de gays reais” (o negrito é meu).

Ao ler essa última afirmação fiquei me questionando – e questionei igualmente ao portal e ao autor do artigo – o que seriam esses tais “gays reais”. A expressão me soa como a internalização do preconceito que a sociedade hetero-normativa manifesta todos os dias contra as pessoas de orientação homoafetiva. Em outras palavras: querem normatizar a homossexualidade, arrastando-a para dentro dos moldes tradicionais da representação de gênero. E isso, num portal não apenas voltado para o público LBGTT, mas que historicamente tem assumido a bandeira de luta pela diversidade humana.

Minha indignação – que não é apenas minha, mas igualmente de meu companheiro e de alguns de nossos amigos – não é contra o personagem e o modo específico de viver a homossexualidade que ele representa; mas contra a ideia de que há um jeito correto ou “real” de vivê-la. E que este jeito seria aquele que foge ao “estereótipo” do gay afeminado, ou seja, o modelo do “gay real” seria aquele que mais se aproxima da “normalidade” do modelo de homem heterossexual.

Babaquice! – esta é a única palavra que me ocorre para descrever essa mentalidade. Não que eu queira ver representado da TV apenas um dos muitos modos possíveis – tantos quantos são os que vivem – a homossexualidade. Mas, me incomoda, e muito, que setores do movimento LGBTT estejam repetindo os erros da mentalidade majoritária que insiste em querer padronizar os seres humanos e sua relação com o mundo e com o outro.

O “gay real” é aquele que cotidianamente vive sob o estigma do preconceito e da discriminação, seja ele afeminado ou não. É aquele que, embora viva num Estado Laico de Direito, tem seus direitos elementares negados sistematicamente. O “gay real” é o gay que trabalha, estuda, vive a vida real e não uma novela.

domingo, fevereiro 27, 2011

Chico Xavier no Carnaval: o espiritismo e a cultura popular

 

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No último dia 15 o jornal O Globo noticiou que a Escola de Samba Unidos do Viradouro, do Rio de Janeiro, levará este ano, à Marquês de Sapucaí, um setor inteiro dedicado ao espiritismo. Segundo a reportagem de Rafael Galdo:

No enredo “Quem sou eu sem você” Jack [Vasconcelos, o carnavalesco] fará no último carro, uma homenagem a Chico Xavier. O médium será representado por uma escultura em que aparecerá psicografando, cercada por 60 componentes, alguns deles espíritas, que farão uma performance de mediunidade. (A reportagem pode ser lida integralmente aqui).

Ainda segundo o jornalista, a estética deste setor da Escola será inspirado pelo filme “Nosso Lar”, de Wagner Assis. Informa ainda que o ator Renato Prieto é quem faz a ponte entre a Escola e a Federação Espírita “[…] para evitar que qualquer preceito do espiritismo seja desrespeitado na apresentação da vermelha e branca”.

Nos últimos dias tenho tentado observar a reação do movimento espírita frente à notícia. Rapidamente a FEB (Federação Espírita Brasileira) emitiu “Nota de Esclarecimento” em 18 de fevereiro, na qual declara não ter tomado qualquer participação em entendimentos prévios com a Escola de Samba.

Também alguns bloggers espíritas têm se manifestado sobre a polêmica homenagem. Por esses dias, e por várias vias, chegou-me a reflexão feita por Jorge Hessen, conhecido escritor e colunista espírita que, para dizer o mínimo, mostra-se indignado de que o tema “espiritismo”, assim como a “[…] personalidade impoluta de Chico Xavier” sejam ligados à festa profana.

Em seu comentário, Hessen, afirma ser desconcertante o “comportamento light” demonstrado pela FEB em sua “Nota de Esclarecimento”, já que divulgar a Doutrina Espírita por essa via não preservaria seus valores éticos, mas sim a deturparia “[…] em suas bases, causando incalculáveis prejuízos morais, com grande responsabilidade vinculada”.

No mesmo artigo, intitulado “Chico Xavier na Sapucaí jamais poderá ser um enredo da razão”, Hessen mesmo afirmando não querer ser o “fiscal do espiritismo”, nem “[…] ditar regras de falsos purismos e extemporâneos sermões embebidos de ladainhas […]”, esclarece seu ponto de vista, à maneira de uma homilia moralizante que percorre desde as origens romanas e egípcias do carnaval, passando por dados estatísticos sobre traição durante os festejos e por citações do “espírito” Emmanuel, psicografadas pelo médium agravado na homenagem profana, para por fim, concluir que o “[…] o carnaval é uma ameaça ao bem-estar social […]”.

Respeitando, obviamente, o direito de crença do citado articulista, bem como seu direito de livre expressão e dos demais amigos e amigas espíritas que se colocam na mesma posição que ele; creio ser necessária uma reflexão, no melhor estilo “doutrinário”, sobre a “lei de causa e efeito”, e nos questionarmos: a quem cabe a responsabilidade da inserção do espiritismo na cultura popular brasileira, senão aos próprios espíritas?

Durante anos não apenas a FEB, mas o grosso do movimento espírita brasileiro, tem divulgado ativamente e incentivado a popularização da Doutrina Espírita e da imagem de Chico Xavier, de todas as maneiras possíveis. Seja nos livros a preços acessíveis, seja na assessoria para novelas, séries, “casos verdade”, e, mais recentemente nos filmes. Inegavelmente todas essas estratégias têm se mostrado bem sucedidas e, hoje, Chico Xavier (e por tabela, o espiritismo) fazem parte do patrimônio da cultura popular nacional.

O próprio Hessen, quando do lançamento do filme “Nosso Lar”, fez questão de louvar a obra em artigo intitulado “Nosso Lar” -  Uma monumental obra de arte cinematográfica, publicado em seu site. Neste artigo convida, ao final, o público espírita e não-espírita para

[…] experienciar (sic) um instante excelso na história do cinema brasileiro, o momento de transformação, a ocasião em que o cinema mundial deverá redefinir sua função na sociedade, deixando para o “nunca mais” e cerrando os pórticos de tudo o que ele próprio conhecia e praticava como segmento da sétima arte, atualmente tão pobremente explorado.

Exageros à parte, já que nem o livro nem o filme podem ser genuinamente classificados como “obra de arte monumental”, é preciso perceber que ao adentrar o cinema, assim como a televisão, o espiritismo deixa de ser apenas uma doutrina de contornos bem definidos e praticada nos centros oficialmente constituídos, para se tornar um elemento de cultura popular. E, portanto, as referências a ele, bem como a seus personagens mais marcantes – e quem mais marcante no espiritismo brasileiro que Chico Xavier? – são absorvidos e apropriados pelos mecanismos de manifestação dessa mesma cultura.

Manifestar indignação, ou mesmo consternação, com o fato de que Chico Xavier e o espiritismo serão retratados na maior festa popular do Brasil, é sim a manifestação de um “purismo extemporâneo”. Um purismo não apenas de caráter moralizante, carola; mas, um purismo estético mal informado, que se pauta pela (falsa) constatação de que há manifestações culturais mais sublimes e outras menos puras.

Pessoalmente não sou muito ligado ao carnaval. Quando criança e adolescente até gostava de acompanhar, pela TV, os desfiles de escolas de samba e, principalmente, a apuração dos resultados. Mas, nunca gostei de estar no meio do barulho, da confusão. E minha ligação com o espiritismo é mediada não pela adesão, mas pelo interesse acadêmico, apenas. Contudo, compreendo e aplaudo a “Nota de Esclarecimento” da FEB que não lava as mãos, como afirma Hessen, mas demonstra um momento único de compreensão da liberdade de expressão garantida pela Constituição do Estado Brasileiro. Atitude bem diferente daquela tomada pela Igreja Católica Romana quando, em 1989, o carnavalesco Joãozinho Trinta e a Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis, tiveram um carro alegórico censurado por trazer uma representação do Cristo Redentor.

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Novo número da Revista “Estudos de Religião” da UMESP

 

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Estudos de Religião
Vol. 24, No 39 (2010): Estudos de Religião -  dezembro

Acaba de ser publicado o mais recente número da Revista “Estudos de Religião”. Estudos de Religião é uma publicação semestral editada pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo. Circulando desde 1985, ela tem por objetivo divulgar artigos científicos, relatos e resenhas sobre o fenômeno religioso, contemplando temas ligados a áreas inter-disciplinares como: Ciências Sociais e Religião; Literatura e Religião no Mundo Bíblico; Práxis Religiosa e Sociedade; e Teologia e História.

O número pode ser acessado integralmente no site da Revista. Para isso basta clicar na imagem acima.

sábado, janeiro 08, 2011

É, eu andei calado nos últimos tempos…

 

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Mas, às vezes, é preciso calar e pensar para que as coisas façam sentido. No final do ano passado eu fiquei muito cansado. A preparação para o exame de qualificação das partes já escritas da tese me deixou meio estressado e sem boas ideias para publicar.

Enfim, o exame passou, correu tudo bem, mas eu fiquei de ressaca. Depois vieram o aniversário e as festas de final de ano (que a cada vez curto menos). E, confesso, ainda não estou a plena potência. Contudo é preciso dar o ‘start’ para que as coisas voltem ao normal e a vida siga seu rumo novamente.

Esse início de 2011 será dedicado a rever o trabalho produzido – seguindo as dicas dadas pela banca do exame – e seguir adiante. Tenho apenas mais dois anos para terminar essa tese, e o tempo corre ligeiro. E há questões que precisam ser respondidas e algumas que, sequer, foram ainda levantadas.

Bem, espero poder contar com vocês neste ano novo!

Um grande abraço.

A.

sábado, outubro 02, 2010

Marina rasga o verbo sobre relação com LGBT

Às vésperas da eleição, Marina Silva fala sobre parada gay, união civil e muito mais, leia aqui

 

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Marina Silva: evangélica e simpatizante

Quando anunciou sua candidatura à presidenta, Marina Silva (PV) causou certo receio na comunidade gay brasileira, preocupada com um possível posicionamento a favor de religiosos extremistas e contra os direitos LGBT. Mas ao longo do tempo, conforme ia construindo seu discurso de campanha, ela foi se mostrando, mesmo que às vezes timidamente, a favor de pontos importantes para a população colorida e causando, desta vez, surpresa.

Depois de um episódio polêmico sobre segurar ou não a bandeira do movimento LGBT, as atenções da comunidade gay se voltaram ainda mais para Marina, e principalmente para suas declarações no que diz respeito a pontos como a adoção de crianças e a união civil. Em seu programa de governo, os LGBT aparecem contemplados com outras minorias como negros e mulheres, o que, segundo a própria Marina, não vai relegar a luta da diversidade sexual para segundo plano.

Em uma entrevista que vai direto aos pontos que te interessam, Junior questionou Marina sobre tudo o que você quer saber de uma candidata. A seguir, ela solta o verbo sem medo e garante que, se eleita, vai apoiar as uniões e adoções conforme o caso e as Paradas Gays e acha que um presidente não deve se meter em assuntos médicos como a cirurgia de readequação sexual.

A senhora já se posicionou a favor do reconhecimento de direitos por meio da união civil entre pessoas do mesmo sexo, mas porque não é a favor do casamento entre casais assim?

Por objeção de consciência. Mas, como tenho dito, minha posição contrária ao casamento não quer dizer que não seja favorável à garantia de uma série de direitos, que hoje são negados às pessoas do mesmo sexo que vivem um relacionamento estável. Sou favorável ao direito à herança, ao plano de saúde conjunto, ao acompanhamento em caso de deslocamento para outra cidade para cumprir função pública, ao acompanhamento em caso de internação, entre outros. Como presidente, trabalharei para que todas as pessoas tenham acesso a políticas públicas que assegurem condições de vida dignas, independente de credo, raça ou condição sexual.

 
Se for uma opinião pessoal, como não deixá-la interferir em uma possível futura administração do País?
Tenho a clareza de que o Estado laico, estabelecido pela Constituição Federal, deve sempre orientar as ações do Presidente da República de forma a garantir a justa mediação entre os diferentes interesses expressos pelos vários segmentos da sociedade e certificar que todos tenham garantido o respeito a seus direitos. O que é válido tanto para os direitos civis quanto para os direitos religiosos.

Qual sua opinião sobre a adoção por casais de mesmo sexo?
A prioridade em um processo de adoção é a criança. Em toda adoção, seja por casais homossexuais ou heterossexuais, é necessária uma profunda avaliação feita por especialistas a partir de uma série de critérios técnicos. Uma vez aprovado o processo de adoção pelas autoridades competentes, meu posicionamento é favorável ao que for considerado ser o melhor para a criança, que precisa de amor e acolhimento para sair da condição de desamparo a que está submetida.

A permissão dessa adoção está em seus planos? Por quê?
Já temos em nosso país a base institucional e a jurisprudência que dão suporte para avaliar tecnicamente cada caso de adoção, que envolve aspectos que consideram prioritariamente o bem-estar físico, emocional e psicológico da criança. O que precisamos fazer é zelar para que cada processo de adoção seja criterioso e seguro para todos os lados, tanto para a criança quanto para as pessoas que se dispõem ao amoroso gesto da adoção.

Se eleita, a senhora reconheceria a união civil entre pessoas do mesmo sexo, principalmente no tocante aos direitos civis?
Em minha opinião, o Estado deve reconhecer e respeitar os direitos de todas as pessoas e não agir diferente em relação aos diretos civis das pessoas do mesmo sexo que têm união estável. Eles devem ser respeitados, como já me referi anteriormente, no que concerne ao direito à herança, ao plano de saúde conjunto, ao acompanhamento em caso de doença, entre outros. São direitos que lhes são negados e que, com justa razão, lhes causam um grande sentimento de injustiça.

Acredita que perderia eleitorado fazendo isso, ou qualquer outra ação em prol dos LGBT?
A questão é mais importante do que perder ou ganhar votos. Sempre tenho marcado minha vida pública pela defesa coerente daquilo em que acredito independentemente da perda ou não de votos.

Como presidente, qual é a melhor forma de equilibrar interesses tão díspares quanto os dos mais religiosos e os homossexuais? Existe uma prioridade? Qual é ela?
A prioridade será sempre a defesa da Justiça e do respeito a todas as pessoas. Para mediar os diversos interesses entre os grupos divergentes, o Estado tem que criar espaços de debate qualificado das diferentes posições para que haja uma forma de convivência respeitosa entre os diferentes grupos de interesse. Ademais não vejo a fé cristã como tendo que ser necessariamente antagônica aos legítimos direitos das pessoas e grupos. Afinal de contas, valores como justiça, liberdade, respeito e amor ao próximo constituem toda a base dos ensinamentos de Jesus, que nos mostra que nada deve ser feito por força ou violência.

Em seu plano de governo, os LGBT são contemplados juntamente com outras minorias no que diz respeito à luta contra a discriminação. Se eleita, a luta LGBT terá o mesmo espaço em seu governo do que a luta de negros, mulheres e portadores de deficiência?
Nas diretrizes do meu programa de governo explicitamos: “Queremos a valorização da diversidade e o respeito aos direitos das minorias”. O respeito aos direitos constituídos de todos os cidadãos, sem discriminá-los por qualquer razão, é um valor inegociável em um Estado democrático e faz parte de meu compromisso pessoal de vida na luta pela democracia.

Qual sua opinião sobre as Paradas Gays? Seu governo continuaria financiando tais eventos como faz o atual?
Não tenho conhecimento sobre o atual sistema de financiamento das Paradas Gays. Mas minha opinião é que as atividades que envolvem manifestação pública de ideias dos movimentos sociais devem ser autônomas e não devem depender do Estado. Até onde tenho conhecimento, legalmente o que o Estado pode autorizar para as manifestações é o uso de local público, cumprir sua obrigação de garantir segurança pública e assistência à saúde em caso de ocorrências médicas durante as manifestações. Acho importante que ocorra repasse de recursos públicos para iniciativas em parceria com instituições da sociedade, que prestem serviços de acordo com as normas legais, em suplementação às ações do Estado.

A senhora concorda com o financiamento público de cirurgias de readequação sexual como é feito no Brasil? Se eleita, irá mantê-lo?
Tal como no caso da adoção há uma prioridade aqui: o bem-estar e a saúde do ser humano. Se há um laudo médico dizendo que é fundamental fazer a cirurgia, não cabe a um presidente interferir nesse assunto.

O governo atual desenvolve várias iniciativas pró-LGBT como financiamento de cirurgias, Paradas e principalmente por meio do Programa Brasil Sem Homofobia, que culminou na criação da Coordenação Nacional LGBT no ano passado. São boas iniciativas? Devem ser mantidas? Serão ampliadas caso a senhora seja eleita?
Como disse anteriormente, as manifestações de ideias e visões de mundo dos movimentos sociais devem estar desatreladas do Estado. As instituições que se dedicam a cuidar dos interesses dos segmentos da sociedade, que estiverem fazendo seu trabalho em conformidade com os princípios da boa gestão pública, serão mantidos.

O PT é conhecido por ser inclusivo e a senhora fazia parte do partido. Teve alguma experiência com a população LGBT neste período? Como foi?
Desde o inicio de minha militância política, tenho me dedicado prioritariamente às lutas socioambientais. Infelizmente, no caso desta agenda, o PT não conseguiu ser suficientemente inclusivo. Ainda que, por minha atitude de apoio à defesa dos direitos humanos, tenha contribuído indiretamente, nunca tive uma experiência de participação política específica nessa agenda.


*A reportagem também entrou em contato com as assessorias dos candidatos José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT), mas não obteve resposta.
*Entrevista cedida pela revista Junior e publicada na íntegra.

(Fonte: Mix Brasil)

quinta-feira, setembro 30, 2010

Lobby cristão e casamento gay

 

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“As igrejas gostariam de uma sociedade em que seja crime tudo o que, para elas, é pecado", escreve Contardo Calligaris (foto), psicanalista, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 30-09-2010.

Eis o artigo.

"Em maio passado, durante uma visita ao santuário de Fátima, o papa Bento XVI declarou que o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo estão entre os mais "insidiosos e perigosos desafios ao bem comum".

Atualmente, quase todas as igrejas cristãs (curiosamente alinhadas com as posições do papa) negociam seu apoio aos candidatos à presidência cobrando posições contra a descriminalização do aborto e contra o casamento gay.

Em 2000, segundo o censo, havia, no Brasil, 125 milhões de católicos, 26 milhões de evangélicos e 12 milhões de sem religião. É lógico que os principais candidatos inventem jeitos de ficar, quanto mais possível, em cima do muro - tentando satisfazer o lobby cristão, mas sem alienar totalmente as simpatias de laicos, agnósticos e livres pensadores (minoritários, mas bastante presentes entre os formadores de opinião).

Adoraria que as campanhas eleitorais fossem mais corajosas, menos preocupadas em não contrariar quem pensa diferente do candidato. Adoraria também que soubéssemos votar sem exigir que nosso candidato pense exatamente como nós. Mas não é esse meu tema de hoje.

Voltemos à declaração do papa, que junta aborto e casamento gay numa mesma condenação e, claro, tenta pressionar os poderes públicos, mundo afora. Para ele, o que é pecado para a igreja deve ser também crime para o Estado.

No fundo, com poucas exceções, as igrejas almejam um Estado confessional, ou seja, querem que o Estado seja regido por leis conformes às normas da religião que elas professam. De novo, as igrejas gostariam de uma sociedade em que seja crime tudo o que, para elas, é pecado: o sonho escondido de qualquer Roma é Teerã ou a Cabul do Talibã.

Há práticas sexuais que você julga escandalosas? Está difícil reprimir sua própria conduta? Nenhum problema, a polícia dos costumes vigiará para que ninguém se dedique ao sexo oral, ao sexo anal ou a transar com camisinha.

Para se defender contra esse pesadelo (que, ele sim, é um "insidioso e perigoso desafio ao bem comum"), em princípio, o Estado laico evita conceber e promulgar leis só porque elas satisfariam os preceitos de uma confissão qualquer. As leis do Estado laico tentam valer por sua racionalidade própria, sem a ajuda de deus algum e de igreja alguma.

Por exemplo, é proibido roubar e matar, mas essa proibição não é justificada pelo fato de que essas condutas são estigmatizadas nas tábuas dos dez mandamentos bíblicos. Para proibir furtos e assassinatos, não é preciso recorrer a Deus, basta notar que esses atos limitam brutalmente a liberdade do outro (o assaltado ou o assassinado).

Agora, imaginemos que você se oponha ao casamento gay invocando a santidade do matrimônio. Se você acha que o casamento é um sacramento divino que só pode ser selado entre um homem e uma mulher, você tem sorte, pois vive numa democracia laica e sua liberdade é total: você poderá não se casar nunca com uma pessoa do mesmo sexo. Ou seja, você poderá manter quanto quiser a santidade e a sacramentalidade de SEU casamento.

Acha pouca coisa? Pense bem: você poderia ser cidadão de uma teocracia gay, na qual o Estado lhe imporia de casar com alguém do mesmo sexo.

Argumento bizarro? Nem tanto: quem ambiciona impor sua moral privada como legislação pública deveria sempre pensar seriamente na hipótese de a legislação pública ser moldada por uma outra moral privada, diferente da dele.

Parêntese: Se você acha que essa história de casamento gay é sem relevância, visto que a união estável já é permitida etc., leia "Histórias de Amor num País sem Lei. A Homoafetividade Vista pelos Tribunais - Casos Reais", de Sylvia Amaral(editora Scortecci).

PS. Sobre a dobradinha sugerida pela declaração do papa: talvez, para o pontífice, aborto e casamento gay sejam unidos na mesma condenação por serem ambos consequências da fraqueza da carne (que, obstinadamente, quer gozar sem se reproduzir).

Mas, numa perspectiva laica, a questão do aborto e de sua descriminalização não tem como ser resolvida pelas mesmas considerações que acabo de fazer para o casamento gay. Ou seja, não há como dizer: se você for contra, não faça, mas deixe abortar quem for a favor. Vou voltar ao assunto, apresentando alguns dilemas que talvez nos ajudem a pensar.

(Fonte: IHU Notícias)

sexta-feira, julho 30, 2010

De deus, do inferno e do amor que tudo salva

Como bem disse Martha Medeiros: “A religião deveria servir apenas para promover o amor e a paz de espírito”. No entanto, muitas vezes, ela serve também para criar uma imagem pervertida de um deus ansioso por castigar seus “filhos” e “filhas” desobedientes.

O texto abaixo mostra como Dennis Linn modificou sua imagem de Deus e pode compreender “o fundamento de uma sadia espiritualidade cristã”.

Em minha opinião, se há um deus – e não estou certo disso – ele deveria ser assim. Pois um deus que não sabe o que é amor, nem vale a pena conhecê-lo.

Abraço:

Augusto Araujo

 

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Como mudou minha imagem de Deus

Denis Linn *

Certo dia Hilda me procurou em prantos. Seu filho tentara suicídio pela quarta vez. Contou-me que ele andava envolvido com prostituição, tráfico de drogas e assassinato. E encerrou a lista dos “grandes pecados” de seu filho questionando:

- O que me deixa mais preocupada é que meu filho diz que não quer nada com Deus. O que vai acontecer a meu filho se ele se suicidar antes de se arrepender e de se reconciliar com Deus?

Como naquela ocasião a minha imagem de Deus era a do tio George, o Bom Velhinho, pensei comigo mesmo: “Deus certamente vai mandar seu filho para o inferno”. Mas não quis dizer isso a Hilda. Fiquei contente que meus tantos anos de teologia me tivessem ensinado como é que se faz quando não se sabe responder a uma questão teológica difícil: devolva a pergunta.

- O que é que você pensa a respeito?

- Bom – respondeu Hilda – , acredito que, quando morremos, somos levados diante do trono do juízo de Deus. Se você viveu uma vida má, Deus manda você para o inferno. – E concluiu pesarosa: – Como meu filho levou uma vida extremamente má, se ele vier a morrer sem arrependimento, Deus certamente o mandará para o inferno.

Muito embora estivesse inclinado a concordar com ela, não quis dizer-lhe: “Muito bem, Hilda! Seu filho provavelmente vai mesmo para o inferno”. Agradeci novamente minha formação teológica, que me havia ensinado uma segunda tática: quando você não sabe como resolver um problema teológico, deixe que Deus o resolva. E então disse a Hilda:

- Feche os olhos. Imagine que você está sentada ao lado do trono do juízo de Deus. Imagine também que seu filho veio a morrer com todos os seus graves pecados e sem que tivesse se arrependido. Ele acaba de chegar diante do trono do juízo de Deus. Aperte minha mão assim que você formar essa imagem.

Poucos minutos depois, Hilda apertou minha mão. E passou a me descrever toda a cena do julgamento. Eu então lhe perguntei:

- Hilda, como é que seu filho está se sentindo?

Hilda respondeu:

- Meu filho está se sentindo muito sozinho e vazio.

Perguntei a Hilda o que ela gostaria de fazer. Ela disse:

- Quero atirar meus braços em volta de meu filho. – E ergueu os braços e se pôs a chorar, ao mesmo tempo que se imaginava estreitando fortemente seu filho nos braços.

Finalmente, quando cessou o choro, pedi-lhe que fitasse os olhos de Deus, buscando saber o que é que Deus queria fazer. Deus desceu de seu trono e, do mesmo modo como Hilda havia feito, abraçou o filho de Hilda. E os três – Hilda, seu filho e Deus – choraram juntos e se abraçaram um ao outro.

[…]

Fiquei atônito. O que Hilda havia me ensinado durante aqueles minutos é o fundamento de uma sadia espiritualidade cristã: Deus nos ama no mínimo tanto quanto a pessoa que mais nos ama.

___________________________________

* Denis Linn é autor, juntamente com Sheila e Matthew Linn, é autor do livro Curando nossa imagem de Deus, publicado no Brasil pela Verus Editora (2002, p. 17-19), de onde retirei o texto acima.

quinta-feira, julho 29, 2010

A fé de uns e de outros

 

MARTHA MEDEIROS

Religião deveria servir apenas para promover o amor e a paz de espírito.

 

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Apoio que as pessoas se manifestem publicamente contra a violência urbana, contra os altos impostos que não são revertidos em benefícios sociais, contra a corrupção, contra a injustiça, contra o descaso com o meio ambiente, enfim, contra tudo o que prejudica o desenvolvimento da sociedade e o bem-estar pessoal de cada um. No entanto, tenho dificuldade de entender a mobilização, geralmente furiosa, contra escolhas particulares que não afetam em nada a vida de ninguém, a não ser aos diretamente envolvidos, caso da legalização do casamento gay, que acaba de ser aprovado na Argentina.

Se dois homens ou duas mulheres desejam viver amparados por todos os direitos civis que um casal hétero dispõe, em que isso atrapalha a minha vida ou a sua? Estarão eles matando, roubando, praticando algum crime? No caso de poderem adotar crianças, seria mais saudável elas serem criadas em orfanatos do que num lar afetivo? Ou será que se está temendo que a legalização seja um estímulo para os indecisos? Ora, a homossexualidade faz parte da natureza humana, não é um passatempo, um modismo. É um fato: algumas pessoas se sentem atraídas – e se apaixonam – por parceiros do mesmo sexo. Acontece desde que o mundo é mundo. E se por acaso um filho ou neto nosso tiver essa mesma inclinação, é preferível que ele cresça numa sociedade que não o estigmatize. Ou é lenda que queremos o melhor para nossos filhos?

No entanto, o que a mim parece lógico, não passa de um pântano para grande parcela da sociedade, principalmente para os católicos praticantes. Entendo e respeito o incômodo que sentem com a situação, que é contrária às diretrizes do Senhor, mas na minha santa inocência, ainda acredito que religião deveria servir apenas para promover o amor e a paz de espírito. Se for para promover a culpa e decretar que quem é diferente deve arder no fogo do inferno, então que conforto é esse que a religião promete? Não quero a vida eterna ao custo de subjugar quem nunca me fez mal. Prefiro vida com prazo delimitado, porém vivida em harmonia.

Sei que sou uma desastrada em tocar num assunto que deixa meio mundo alterado. Daqui a cinco minutos minha caixa de e-mails estará lotada de agressões, mas me concedam o direito ao idealismo, que estou tentando transmitir com a maior doçura possível: não há nada que faça com que a homossexualidade desapareça como um passe de mágica, ela é inerente a diversos seres humanos e um dia será aceita sem tanto conflito. Só por cima do seu cadáver? Será por cima do cadáver de todos nós, tenha certeza. Claro que ninguém precisa ser conivente com o que lhe choca, mas é mais produtivo batalhar pela erradicação do que torna nossa vida ruim, do que se sentir ameaçado por um preconceito, que é algo tão abstrato.

Pode rir, mas às vezes acho que acredito mais em Deus do que muito cristão.

(Fonte: Zero Hora)

As travas, os banheiros e os nossos preconceitos

 

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Por Mirgon Kayser*

 

 

 

Afinal, o que define um homem e uma mulher? Se alguém recitar o mantra reducionista de que "homens tem pênis, mulheres tem vagina", estará ignorando outros tantos fatores de peso igual ou mesmo superior a esse.

As pessoas possuem personalidade. A personalidade molda quem a pessoa é, incluindo a sua sexualidade e, também, o seu gênero. Essa é a formatação da sua identidade interior.

As pessoas possuem identidade visual, reflexo de toda a construção da sua personalidade, incluindo aí, os reflexos oriundos das características de gênero assumidas pelo indivíduo. Dessa forma, mesmo diante de toda a gama de variantes visuais possíveis de serem imaginadas, sempre identificamos os indivíduos como sendo masculinos ou femininos. Depois abrimos outras identificações tribais, geracionais, etc...

Portanto, nós identificamos o masculino e o feminino sempre, e o fazemos partindo do conjunto de características visuais e espirituais do indivíduo. Não identificamos o gênero a partir de órgãos genitais.

Como uma pessoa que vive como uma mulher, pensa como uma mulher, comporta-se como uma mulher, veste-se com uma mulher - e em muitos casos adquire corpos de mulher, através de hormônios e cirurgias - pode ser debilmente classificada como sendo um homem?

Esse conjunto de características não pode, nas complexas relações humanas, estar subordinado aos órgãos genitais. E mesmo essa subordinação é relativa e escalonada, pois com o advento das cirurgias de mudança de sexo, em tese, pelo menos essa transsexual deveria ser reconhecida como uma mulher, e no entanto, não é. Na falta do argumento do órgão, nosso preconceito pauta o que? A conformação física original do indivíduo?

Se assim fosse, não chamaríamos borboletas por borboletas, e sim, por crisálidas. Lógico que a analogia com o processo das borboletas não é absoluta, mas não fica distante. É possível encarar a adolescência, etapa final do processo de construção da auto-identidade, como a fase da crisálida, o momento em que os jovens tomam consciência do que são de fato, nos mais variados campos da individualidade. Organizam sua vida adulta, sua fase borboleta, em todos campos, incluindo profissional, sexual, etc... No caso dos meninos, nessa fase de “crisálida”, muitos descobrem-se como sendo femininos e não masculinos. Aqui não falo de sexualidade, falo de gênero mesmo. Descobrem também sua sexualidade e o gênero pelo qual sentem-se atraídos, mas me refiro a descoberta de seu próprio gênero.

A sexualidade é uma outra questão que não cabe discutir aqui. Apenas ressalto que são discussões diferentes, uma vez que um homem pode ser homossexual sem que isso signifique descontentamento em relação à sua condição masculina, o mesmo acontece com as mulheres. Temos aí o exemplo da menina gay que participou do BBB, a Morango. Ela é gay, mas não questiona sua feminilidade, pelo contrário.

Agora entro na questão central do título desse artigo, ou seja, a hipocrisia e o preconceito contra as travestis e transexuais, materializados na utilização de banheiros.

Essa questão de banheiros parece ser bem simples, existe o banheiro masculino e o banheiro feminino. Mas como em tudo, a humanidade consegue tornar tudo complexo. Que banheiros gays, lésbicas e travas devem utilizar?

A resposta me parece óbvia: gays, o masculino e lésbicas, o feminino, uma vez que suas identidades de gênero são, respectivamente, masculina e feminina.

As travas, evidentemente, tem que usar o banheiro feminino, uma vez que suas identidades de gênero são femininas. As travas são e devem ser reconhecidas como mulheres na concepção de gênero, portanto, o banheiro é sim, o feminino.

Lamentavelmente, as travas sofrem todo tipo de discriminação e violência moral. Comumente, as travas são obrigadas a utilizar o banheiro masculino, ferindo gravemente sua própria dignidade, num lamentável atentado contra seus direitos humanos.

A poucos anos, em Nova Iguaçu, no RJ, houve uma tentativa completamente atrapalhada e desnorteada de solucionar o problema através de “banheiros alternativos”, onde os estabelecimentos comerciais deveriam adaptar-se para ter um terceiro banheiro, designado para gays, lésbicas e travas.

Apesar de possivelmente bem-intencionada, a proposta era a tragédia total, uma vez que segregava algo que encaixa-se ao natural nos conceitos feminino ou masculino, como se fosse uma “terceira coisa”, gerando um processo que lembraria muito a África do Sul do Apartheid. Para além disso, a proposta do banheiro misturava a questão de gênero com a sexualidade do individuo como se fossem tudo a mesma coisa.

Soluções miraculosas não existem. Aliás, o caminho é somente um: derrotar a hipocrisia através do parlamento, com a definição legal de que as travas devem utilizar o banheiro que corresponde à sua identidade de gênero, portanto, o feminino.

Parece só um detalhe bobo, mas é nos detalhes que o preconceito se fortalece ou é derrotado.

*Blogueiro e militante social. Secretário de Comunicação da 1° Zonal do PT/Porto Alegre. Texto publicado com autorização do autor.

domingo, julho 25, 2010

Por uma única pessoa plural - Sociedade Inclusiva - Quem Cabe no Seu TODOS?

 

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Rabino Nilton Bonder *

(Fonte: Amai-vos)

 

 

 

Não existe uma pessoa plural que inclua a todos. A primeira pessoa do plural - nós -- poderia ter essa característica inclusiva, não fosse pela percepção de uma da segunda pessoa do plural - vós -- que invariavelmente constrói uma terceira pessoa -- eles. No entanto, a lógica importada da individualidade, onde um "eu" depende de um "tu" e produz um "ele", não é a única possível para o coletivo. O "nós" que não inclui todos não é uma necessidade existencial como o "eu" que não engloba o "tu". Portanto, é teoricamente possível sonhar com uma primeira pessoa do plural que inclua todas as pessoas - um "nós" que é também "vós" e "eles".

Tão simples como mudar o conceito "plural" de nossa civilização é o desafio que Claudia Werneck propõe em seu livro Sociedade Inclusiva. Seu poder maior é nos fazer refletir sobre o conceito de "Todos". Quem incluiríamos em nosso "todos"? Não o "todos" do discurso e da moral, mas o "todos" de pele, um "todos" que nos venha natural. Não o "todos de mentirinha", como explica a autora, que é um "todos" da curiosidade e da diplomacia, mas um "todos" que é fato e crença.

Sua preocupação primeira é desmascarar, com a gentileza que lhe é um dom, a diversidade de significados da palavra "todos". Não só os indivíduos falam de "todos" que compreendem as mais diferentes noções, como as próprias instituições fazem uso de distintos "todos". Sociedade Inclusiva propõe o enxergar radical de que se "todos" não incluir "tudo" então não é "todos".

O livro se assemelha a um grande diálogo entre o ser humano e sua consciência. Levanta perguntas e responde, confronta lucidez e interesses, aponta saídas e reconhece limites. A primeira sensação é de que vamos nos defrontar com um texto de crítica e reprovação.

No entanto, o texto é, acima de tudo, humano. Ao mesmo tempo em que expõe a crueldade de nossas exclusões, tem o grande mérito de se manter voltado mais ao grito e ao fazer conhecer do que ao julgamento. Por isso sua leitura é convidativa. O leitor se enxerga prisioneiro de seus "todos" parciais mas não sai de cada capítulo com um sermão e sim com um convite à ação e ao desafio do comprometimento. De carrascos executando as exclusões de todo o dia, Claudia Werneck faz do leitor um potencial parceiro na tarefa de incluir. Seu segredo, sua mensagem maior, é que um "todos" que inclua todos, não seja uma utopia, mas percebido como a única possível estratégia.

O beneficiário maior da inclusão não é o incluído, como pensaríamos, mas quem quer que amplie o seu "todos". O custo de um "todos" composto de tão poucos é a razão da dívida que a sociedade está pagando. Seu custo é menos alegria e menos bem estar para todos-tudo. Há porém um ar de novidade nas denúncias de Claudia. Esta novidade não está nas informações prestadas, mas em sua abordagem doce e afirmativa, misto de desabafo e maturidade: "Dá para ser feliz num país com tanta exclusão?". Quando imaginaríamos na angustia da pergunta sua própria resposta, a autora surpreende: "Dá!".

Dá para ser feliz em meio a qualquer situação desde que se busque no momento, no agora, a incondicionalidade da inclusão.

A verdade é que quando nos damos conta da dimensão da dívida social, seja no plano nacional ou mundial, nos tornamos prisioneiros da esterilidade de acusações, de denúncias e até mesmo de reflexões. A originalidade de Sociedade Inclusiva é não ser uma teoria sobre o humano mas, acima de tudo, uma tentativa de proposta, de estratégia.

O impensável e o inconcebível têm mais serventia como uma estratégia do que como uma utopia. Incluir não é o sonho, mas incluir é o método para alcançar um "todos" que seja pessoa única do plural. Por isso identificar o menos incluído de todos nos "todos", se faz importante como estratégia e como ação na busca de um "todos" incondicional. E a autora aponta no "deficiente físico" um "outro" que é singular, que é chave, pois é um "outro" de todos. Não importa quem sejam os seus "todos", o "deficiente" é o excluído "coringa". Ele é o excluído até dos excluídos. Categoria daquele que é definido por suas deficiências e não de suas suficiências, não há "todos" que os incluam a não ser o "todos-tudo". São, portanto, nosso grande patrimônio. Num mundo onde o sonho é produzir o ser humano perfeito fazendo uso da engenharia genética, o "deficiente" é messiânico. É ele que pode nos ensinar a suportar a diversidade e os limites; é ele que pode nos afastar do "todos-eu" e nos aproximar do "todos-tudo".

Sociedade Inclusiva não fala de escolas inclusivas, de trabalho inclusivo, de medicina inclusiva, de cidadania inclusiva ou de natureza inclusiva como um sonho. Fala de tudo isso como uma estratégia. Uma escola inclusiva, por exemplo, não é uma meta a ser alcançada no futuro. Mas é hoje, no desafio do presente, um instrumento do futuro. A diversidade na escola não é um entrave à educação mas seu mais importante instrumento.

A homogeneidade é empobrecedora como regra: intelectualmente ela emburrece, espiritualmente ela corrompe, emocionalmente ela aliena e fisicamente ela esteriliza.

Nossa dívida para com nosso "todos" já tão minguado, se contabiliza na pobreza e na falta de sentido que caracterizam nosso mundo de exclusão. Um mundo sem surpresa, um mundo de controle e, sem dúvida, um mundo de menos vida e menos humano. O ato de fazer entrar outros em nosso "todos" é um ato libertador e, em si, a única tarefa da sociedade, da educação e da religião.

O filósofo Martin Buber construiu sua obra mostrando que a questão do "singular" está nas relações "eu-tu" e relações "eu-isto". Quando não há um "eu" de verdade e o reconhecimento de um "tu" de verdade, e vice-versa, não há diálogo e encontro. Sociedade Inclusiva, traz esta questão para o "plural". No entanto, no plural, um "nós" que seja verdadeiro, inclui o "vós" e o "eles". É possível no plural, ao contrário do singular, uma primeira pessoa absoluta que venha a produzir encontro e sentido.

A sensação de estar lendo um livro de "auto-ajuda" quando seu conteúdo é de Ação Social é, com certeza, mais do que um estilo em Sociedade Inclusiva. Parece conter em sua forma um importante ensinamento: a solidariedade e a cidadania, através da síntese da inclusão, são as formas mais profundas e duradouras de "auto-ajuda". Incluir o outro, nos inclui ainda mais. Permite que façamos parte de um "todos" que vale a pena, um "todos" que não é um vazio numérico - um singular fingindo-se de plural. Porque há apenas duas formas matemáticas do plural virar singular: ou na plenitude de D'us ou no vazio do egoísmo.

Quem cabe em seu "todos"?

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*Nilton Bonder, nasceu em Porto Alegre, em 27/12/57. Ordenou-se Rabino, pelo Jewish Theological Seminary, N.Y, em 1987. Escreveu 14 livros vários deles best-sellers no mercado editorial brasileiro e estrangeiro. (http://www.cjb.org.br/)

sábado, julho 24, 2010

Ecos do 23º Congresso Internacional da SOTER

 

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Entre os dias 12 e 15 de julho de 2010 reuniu-se na Pontifícia Universidade Católica (PUC Minas), em Belo Horizonte, o 23º Congresso Internacional da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (SOTER). Na ocasião celebrou-se os 25 anos da entidade que reúne teólogos (as) e cientistas da religião atuantes em Universidades, Igrejas e Escolas Confessionais do Brasil. Os 370 congressistas discutimos, durante os três dias do evento, o tema “Religiões e Paz Mundial”.

Antônio Carlos Ribeiro, da Ciberteologia: Revista de Teologia e Cultura, fez a cobertura parcial do Congresso numa série de artigos. No primeiro deles, intitulado Teólogos e cientistas analisam religiões e paz mundial, descreve a sessão de abertura com o pronunciamento dos ex-presidentes da SOTER. Em Reconciliação para superar a violência, analisa a conferência da comunicóloga Magali do Nascimento Cunha, da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), que falou sobre “Religião e violência: conflitos e contribuições à paz, refletindo sobre o conflito religioso e a violência”. A seguir, em Cristianismo: religião de referência ou uma entre as demais?, o autor descreve a mesa de debates “Teologia Pluralista e Teologia da Revelação”, que  reuniu os teólogos Andrés Torres Queiruga, da Universidade Santiago de Compostela, na Galícia, Espanha; o teólogo Faustino Teixeira, do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião, da Universidade Federal de Juiz de Fora; e o teólogo José Maria Vigil, da Associação de Teólogos e Teólogas do Terceiro Mundo (ASETT), de El Salvador. Por fim, no artigo Teólogo galego aborda modernidade e diálogo das religiões, relata a conferência de encerramento do Congresso proferida pelo teólogo galego Andrés Torres Queiruga, com o tema “Diálogo das Religiões e Desafio para a Renovação Teológica”.

Contudo, houve ainda outros momentos marcantes como a vídeo-conferência “Não terás outros deuses além de mim” (é o monoteísmo uma fonte de violência), da teóloga Maria Clara Luchetti Bingemer. E a participação do professor e babalorixá Erisvaldo Santos que, a partir do contexto das religiões de matriz afro-brasileira, questionou a legitimidade de um Congresso convocado por religiões de matriz judaico-cristã (com seu histórico de dominação hegemônica calcada em violência) falar sobre religiões e paz mundial.

Minha participação foi modesta, como a da maioria dos 370 congressistas. Como havia anunciado aqui, apresentei a comunicação “O Espiritismo segundo Allan Kardec: um médium para a tradição cristã”, no GT – A Bíblia e suas leituras. Em meu trabalho tentei apresentar um Kardec leitor e intérprete da Bíblia e da tradição cristã que, no afã de legitimar o espiritismo (doutrina e movimento) e configurar sua identidade, o apresenta como um espaço de mediação desta tradição para o século XIX. Em breve o texto das comunicações apresentadas durante o Congresso estará disponível no formato de e-book, no site da Revista Ciberteologia. Assim que isso acontecer, anunciarei aqui o link para o meu trabalho.

domingo, julho 18, 2010

Allan Kardec: o autor da doutrina dos espíritos? *

 

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Da comparação e da fusão de todas as respostas, coordenadas, classificadas, e muitas vezes retocadas no silêncio da meditação, foi que elaborei a primeira edição de O Livro dos Espíritos, entregue à publicidade em 18 de abril de 1857. (Allan Kardec) [1]

Quem quer que tenha tido em mãos um livro de história da filosofia deve ter notado que logo nos primeiros capítulos são apresentadas as doutrinas filosóficas dos chamados filósofos “pré-socráticos” ou “fisiólogos”. O que, talvez, poucos saibam é que não existe, a rigor, a doutrina filosófica de Tales de Mileto, ou de Heráclito de Éfeso, por exemplo. De fato, a maioria dos textos que dispomos desses pensadores é insuficiente para se afirmar a existência de tal doutrina. O que se tem são fragmentos (frases, pedaços de frases, às vezes, uma única palavra) citados ou parafraseados por outros autores e filósofos. Uma lista tão variada que inclui pensadores como o grego Aristóteles e o cristão e pai da Igreja Clemente de Alexandria; e tão extensa que cobre o período desde o século IV a.C. até o século VI d. C.

Assim, se tomarmos Heráclito como exemplo, é preciso que se diga que não há o livro "Sobre a natureza", a ele atribuído [2]. Nem sabemos ao certo se ele escreveu mesmo um livro; ou, em caso afirmativo, se era esse mesmo seu título. Aquilo que nos manuais de história da filosofia é apresentado como a doutrina de Heráclito é tão somente uma interpretação arbitrária dos fragmentos encontrados e catalogados [3]. No século XX, o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) demonstrou que, dependendo da ordem em que os fragmentos são considerados ou organizados, ou dos pressupostos filosóficos assumidos na leitura desses fragmentos, diferentes interpretações se estabelecem. E, dessa forma, as interpretações serão sempre arbitrárias, uma vez que nem a obra original nós temos para comparar e verificar a validade delas [4].

Agora, se, num exercício de analogia, olharmos de maneira isenta para o modus operandi de Allan Kardec (1804-1869) veremos que se passa algo muito semelhante ao que acontece com os historiadores da filosofia no caso acima. Kardec, ao publicar suas obras sempre insistiu que a doutrina não era sua, mas dos Espíritos. No entanto, a confiar ainda nos relatos de Kardec, como se dá esse procedimento de “codificação” da doutrina dos Espíritos? Ele tem fragmentos de ensinos que vêm de fontes diversas e tem de arbitrariamente "codificá-los", ordená-los. E o faz. Nós não podemos verificar se essa interpretação é a mais adequada porque não temos acesso às fontes kardecianas (especificamente não temos acesso ao conteúdo bruto das comunicações por ele interpretadas). Esse impedimento metodológico de verificação tem me impedido de caracterizar o espiritismo como uma ciência.

Em outras palavras: penso que afirmar a existência da "doutrina de Heráclito" nas interpretações dos fragmentos a ele atribuídos, e afirmar que existe uma doutrina dos espíritos na interpretação das comunicações recebidas por Kardec, possui o mesmo grau de incerteza. Ora, como afirma o próprio Kardec na frase citada acima: “Da comparação e da fusão de todas as respostas, coordenadas, classificadas, e muitas vezes retocadas no silêncio da meditação, foi que elaborei a primeira edição de O Livro dos Espíritos, entregue à publicidade em 18 de abril de 1857”. O original diz: "C'est de la comparaison et de la fusion de toutes ces réponses coordonnées, classées et maintes fois remaniées dans le silence de la méditation, que je formai la première édition du Livre des Esprits qui parut le 18 avril 1857" (o grifo é meu).

Aqui gostaria de fazer um breve comentário sobre a escolha do uso do verbo “retocar” para traduzir o francês “remanier”. Não que esta tradução esteja equivocada, em minha opinião ela apenas enfraquece o sentido original do termo francês. A etimologia do verbo “remanier” remete a “manier” que tem o sentido primeiro de “manipular”, tocar com as mãos. Daí que o Dictionnaire de l’Académie Française (6eme Édition, 1835), defina o verbo “remanier” como: manipular novamente, reparar, modificar, refazer. Ou, ainda, segundo o Dictionnaire Poche Larousse (2008): mudar a composição, modificar. No contexto dessa pequena observação, uma tradução mais precisa talvez fosse: "Da comparação e da fusão de todas estas respostas coordenadas, classificadas e muitas vezes reparadas (modificadas, refeitas) no silêncio da meditação, que eu formei a primeira edição do Livro dos Espíritos, o qual apareceu a 18 de abril de 1857".

Uma última analogia, talvez esclareça melhor meu posicionamento. Embora o trabalho de pesquisa que venho realizando, e que culminará na publicação de minha tese de doutoramento, se baseie todo na leitura e interpretação da obra de Allan Kardec, e neste trabalho não se encontre nada que Kardec não tenha dito e pensado, há que se concordar que se trata de meu trabalho e não de Kardec. Penso que não importa se as fontes de uma pesquisa sejam os Espíritos ou um pensador “de carne e osso”; se alguém compila, classifica, modifica, edita, interpreta suas fontes, ele é o autor.


[1] KARDEC, Allan. A minha iniciação no espiritismo. In: ______. Obras Póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2009. P. 353. (Trad.: Evandro Noleto Bezerra). O texto original em francês é: "C'est de la comparaison et de la fusion de toutes ces réponses coordonnées, classées et maintes fois remaniées dans le silence de la méditation, que je formai la première édition du Livre des Esprits qui parut le 18 avril 1857". (Cf.: KARDEC, Allan. Ma première initiation au espiritisme. In: ______. Oeuvres Posthumes. Union Spirite Française et Francophone. s/d. p. 128).

[2] O título Péri Physeos (em grego) é um título genérico atribuído a grande parte das supostas obras dos pensadores gregos originários.

[3] No início do século XX, o helenista alemão Hermann Alexander Diels (1848-1922) publicou a obra Os fragmentos dos pré-socráticos, na qual colecionou os fragmentos dos chamados pré-socráticos e os classificou, após tê-los retirado das obras onde se encontravam citados ou parafraseados. Posteriormente, Walther Kranz (1884-1960) acrescentou um comentário interpretativo aos fragmentos catalogados por Diels. Esta obra tornou-se, desde então, referência para todos os trabalhos críticos e interpretativos da filosofia antiga. A classificação DIELS-KRANZ, tornou-se normativa para todas as referências aos fragmentos.

[4] Ver: HEIDEGGER, Martin. Heráclito. A origem do pensamento ocidental. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1998. (Trad.: Márcia Sá Cavalcante Schuback). Para outra interpretação, ver: BERGE, Damião. O Lógos Heraclítico. Introdução ao estudo dos fragmentos. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1969.

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* Este artigo foi originalmente publicado em Opinião, Órgão do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre (CCEPA). Agradeço a Néventon Vargas e a Milton Medran a especial gentileza em publicá-lo e, assim, dar a conhecer ao público espírita as reflexões de um não-espírita estudioso da obra de Allan Kardec. Desde que iniciei minhas pesquisas, tem sido inegável o auxílio – sob a forma de uma interlocução honesta e isenta de prevenções – destes dois amigos, bem como a instituição que representam, a Confederação Espírita Pan-americana (CEPA).

Da nossa imagem de deus e da esquizofrenia religiosa

 

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Hoje, logo após escrever o post anterior, lembrei-me do livro que primeiro me fez refletir sobre essas coisas - “Curando nossa imagem de Deus” – e da história narrada em seu primeiro capítulo: a história de “Tio George, o Bom Velhinho”. Gosto muito dessa narrativa alegórica, pois quando a li pela primeira vez tive um verdadeiro despertar de compreensão. Como encontrei, aqui na casa de meus pais, o referido livro, transcrevo para vocês esta pequena parábola. Espero que apreciem.

Abraços:

Augusto Araujo

Em Barbacena, Minhas Gerais.

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Tio George, o Bom Velhinho

“Eu […] cresci com uma imagem de Deus que se assemelha ao tio George, o Bom Velhinho, tal como descrito por Gerard Hughes:

‘Deus era pessoa da família, muito admirado por papai e mamãe, que o descreviam como alguém muito amoroso, grande amigo da família, muito poderoso e interessado em todos nós. Até que um certo dia nós fomos visitar o ‘tio George, o Bom Velhinho’. Ele vive numa formidável mansão, é barbudo, carrancudo e ameaçador. Não pudemos compartilhar da admiração declarada de nossos pais por essa joia da família. Ao final da visita, tio George dirigiu-se a nós:

   - Escutem, meus queridos – começou ele mirando-nos severamente – quero ver vocês aqui uma vez por semana. Se vocês deixarem de vir, vou mostrar o que lhes vai acontecer.

E então nos levou para baixo, até os porões da mansão. Era escuro, ia-se tornando cada vez mais quente à medida que descíamos, e começamos a ouvir barulhos que não pareciam ser deste mundo. As portas do porão eram de aço. Tio George abriu uma delas:

   -  Agora deem uma olhada por aí, queridos – disse ele.

O que se apresentou a nós era uma visão de pesadelo, com fileiras de fornalhas ardentes atiçadas por pequenos demônios, que lançavam às chamas aqueles homens, mulheres e crianças que falhavam em suas vistas ao tio George ou que não agiam do modo que ele desejava.

   - E se vocês não vierem me visitar, queridos, é para aí que com certeza vocês irão – disse tio George.

Em seguida, levou-nos de volta escada acima, ao encontro de nossos pais. Na volta para casa, enquanto agarrávamos fortemente as mãos de papai e mamãe, ela se inclinou sobre nós e perguntou:

   - E agora, vocês não vão amar tio George de todo o coração, de toda a alma, de todo o entendimento e com todas as suas forças?

E nós, abominando o monstro, respondemos:

   - Sim, vamos – porque responder qualquer outra coisa significaria entrar na fila para a fornalha.

Já desde a mais tenra idade, a esquizofrenia religiosa se havia instalado, e nós continuamos a dizer ao tio George o quanto o amávamos, quão bom ele era, que nós queríamos fazer apenas aquilo que lhe agradava. Agíamos conforme seus desejos e sequer ousávamos admitir, ainda que só para nós, que nós o odiávamos’.”

(LINN, Matthew; et al. Curando nossa imagem de Deus. Campinas: Verus Editora, 2002. p. 13-14).

sábado, julho 17, 2010

Juíza se nega a casar gays mesmo que ‘custe sua própria vida’

 

Uma juíza de paz argentina afirmou nesta sexta-feira que jamais realizará o casamento de casais homossexuais, um dia depois de o Senado aprovar uma lei que autoriza essas uniões.

“Que me acusem do que quiser. Deus me diz uma coisa e eu vou obedecer, mesmo que custe meu posto, e mesmo que me custe a vida, porque primeiro está o que Deus me diz”, afirmou Marta Covella, juíza de paz da cidade de General Pico.

“Fui criada lendo a Bíblia e sei o que Deus pensa. Deus ama a todos, mas não aprova as coisas ruins que as pessoas fazem. E uma relação entre homossexuais é uma coisa ruim diante dos olhos de Deus”, assinalou ainda.

(Fonte: Bule Voador)

 

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Algumas palavras sobre este fato

Há muito tenho comentado neste blog sobre a pretensão que fundamentalistas têm em conhecer a mente de Deus apenas com base em sua leitura radical da Bíblia.

Diante disso apenas me lembro de uma experiência que gostaria de compartilhar com vocês. Quando decidi que era o momento de falar abertamente a meus pais sobre o fato de eu ser homossexual, fiquei preocupado de que nossa relação ficasse abalada a tal ponto que eles preferissem que eu me mantivesse distante deles. Felizmente eles são muito melhores que eu. E não apenas superaram o choque inicial, como não permitiram que nossa relação sofresse qualquer dano. E mais, acolheram meu companheiro como a filho.

Essa generosidade e esse amor incondicional, abriram meus olhos para compreender muito melhor o que significa amar alguém. Hoje sinto engulhos toda vez que leio ou escuto quem diz que Deus ama os homossexuais – e a todos os demais “pecadores” – mas só pode fazer algo de bom a eles – por exemplo, não permitir sua ida inevitável para o inferno por toda a eternidade – se os mesmos se converterem e agirem não como eles pensam ser o melhor para si, mas de acordo com um conjunto de livros com preceitos contraditórios e, muitas vezes, imorais para os padrões civilizados.

Quando penso no amor incondicional demonstrado por meus pais e penso nesse deus amargurado que querem me enfiar goela abaixo, não posso deixar de pensar que não preciso dele. Se há um deus – e, falando honestamente, não posso afirmá-lo ou negá-lo – e se ele é amor, como me dizem; não há a possibilidade de que ele me ame menos do que as pessoas que mais me amam no mundo. Caso contrário, esse deus, supondo que exista, é completamente dispensável para mim, e viver no inferno parece ser uma alternativa mais atraente.

Uma divindade que, para ser propiciada, precisa que eu negue minha natureza, não merece minha atenção. Contudo, se ele pode me acolher e me respeitar, me amar e desejar que eu esteja sempre com ele, aí sim posso concebê-lo e amá-lo.

Ao contrário, a imagem de um deus que, ao menor desagrado, permite passivamente que aqueles a quem diz amar vivam em sofrimento eterno, não condiz com o epíteto “amor”. E, aqueles que o adoram, em nome desse deus impiedoso e cruel, tornam-se igualmente impiedosos e cruéis. Amargos reflexos, à imagem e semelhança do deus a que adoram.

Augusto Araujo.

Em Barbacena, Minas Gerais.

domingo, maio 16, 2010

O fruto podre do fundamentalismo

 

A Folha Online noticiou dia 12/05 que o líder evangélico Silas Malafaia em Audiência Pública para discutir o projeto que institui o "Estatuto das Famílias", na Câmara dos Deputados, comparou a união estável entre pessoas de mesmo gênero à zoofilia e à necrofilia.

A reportagem é de Johanna Nublat, da sucursal de Brasília do jornal paulista. E pode ser lida na íntegra através do link Pastor critica união homoafetiva em discussão sobre o "Estatuto das Famílias".

As declarações do referido líder da Igreja Assembleia de Deus podem ser conferidas no vídeo abaixo.

 

 

Extremamente criticado – inclusive dentro de sua própria denominação religiosa – por suas atuais tendências teológicas (teologia da prosperidade) e pela aquisição de um jato particular avaliado em 20 milhões de reais, Silas Malafaia é a voz e o rosto do fundamentalismo evangélico-pentecostal brasileiro. Uma voz, diga-se, que se faz ouvir pelo tom exagerado e exasperado de quem crê poder convencer pela virulência com que grita e não pela validade de seus argumentos.

A infelicidade da atual declaração de Malafaia não surpreende por sua fonte, mas pela ignorância que cultiva e dissemina. E pela irresponsabilidade de quem, conscientemente ou não, incentiva a violência e o preconceito.

sábado, maio 15, 2010

Teologia e Fundamentalismo

 

Um texto de Paul Tillich [1]

A teologia, como função da igreja cristã, deve servir às necessidades desta igreja. Um sistema teológico deve satisfazer duas necessidades básicas: a afirmação da verdade da mensagem cristã e a interpretação desta verdade para cada nova geração. A teologia oscila entre dois pólos: a verdade eterna de seu fundamento e a situação temporal em que essa verdade eterna deve ser recebida. Não são muitos os sistemas teológicos que souberam combinar perfeitamente essas duas exigências. A maioria deles ou sacrificam elementos da verdade ou não são capazes de falar ao momento atual. Alguns padecem de ambos os defeitos. Temerosos de perder a verdade eterna, identificam-na com algum trabalho teológico anterior, com conceitos e soluções tradicionais, e tentam impô-los a uma situação nova e diferente. Confundem a verdade eterna com uma expressão temporal desta verdade. Isso se torna evidente na ortodoxia teológica europeia, conhecida nos Estados Unidos como fundamentalismo. Quando o fundamentalismo se combina com uma tendência anti-teológica, como ocorre, por exemplo, em sua forma biblicista-evangelical, a verdade teológica de ontem é defendida como uma mensagem imutável contra a verdade teológica de hoje e de amanhã. O fundamentalismo deixa de entrar em contato com a situação presente, não porque fale desde além de qualquer situação, mas porque fala desde uma situação do passado. Eleva algo finito e transitório a uma validez infinita e eterna. Nesse sentido, o fundamentalismo possui traços demoníacos. Ele destrói a humilde honestidade da busca pela verdade, cria em seus seguidores pensativos uma crise de consciência e os torna fanáticos, porque são forçados a suprimir elementos da verdade dos quais têm consciência, mesmo que vaga.

 


[1] TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. São Leopoldo: Sinodal, 2005. p. 21. (Trad.: Getúlio Bertelli e Geraldo Korndörfer).

quarta-feira, maio 05, 2010

Sincrético é o Outro?

sincretismo (2)

Comentário ao texto de Gabriele Weiss [1]

Há algum tempo desejo publicar este comentário. A correria da vida, minha mente que transita por múltiplos lugares, e um pouco de preguiça inconfessa adiaram até agora a finalização do mesmo. Talvez, ainda, certo receio de melindrar alguns bons amigos que fiz no desenvolvimento de minha atual pesquisa, e que, embora professem um espiritismo laico e livre pensador, ainda se assustam ao ler que Kardec criou uma religião moderna e sincrética.

Para mim, o texto de Gabriele Weiss é provocador no sentido de que questiona a crença implícita toda vez que falamos de sincretismo: sincrético é sempre o Outro. Um crença problemática porque o sincretismo é algo que contraria nossa noção de pureza, contrastando-a ao híbrido, ao misturado, ao miscigenado. E tem sido uma prática comum, não apenas em certas correntes do Movimento Espírita Brasileiro, mas também nas pesquisas acadêmicas sobre espiritismo no Brasil, contrapor o modelo brasileiro ao modelo “original” francês. Assim, o primeiro seria sincrético – como toda a cultura nacional – e o segundo é um espiritismo “puro”, “ortodoxo” e, no dizer de alguns, “não religioso” porque racionalista e anti-clerical.

Um exemplo: tenho encontrado muitas defesas da “pureza doutrinária” do espiritismo em contraste com o “sincretismo afro-católico” (Deolindo Amorim); uma pureza cuja “pedra de toque” (Herculano Pires) seria a obra de Allan Kardec. Mas, me pergunto, e quando o outro olha para nós? O que vê? Quem sabe apenas “Um sincretismo religioso com extraordinárias características primitivas”… Certo, o texto de Weiss, aqui em questão, é apenas um exercício imaginativo. Mas ele nos desloca para o olhar do outro sobre nós, e demonstra claramente, por meio desse exercício de empatia: sincréticos somos todos. Pois, como afirma o antropólogo Pierre Sanchis:

Não se trata mais, pois – pelo menos diretamente – , de identificar o sincretismo com uma forma de confusão ou mistura de “naturezas” substantivas […], mas de afirmar a tendencial universalidade de um processo, polimorfo e causador em múltiplas e imprevistas dimensões, que consiste na percepção – ou na construção – coletiva de homologias de relações entre o universo próprio e o universo do Outro em contato conosco, percepção que contribui para desencadear transformações no universo próprio, sejam elas em direção ao reforço ou ao enfraquecimento dos paralelismos e/ou semelhanças. Uma forma de constante redefinição da identidade social. [2]

Se, até o momento, como afirma Sérgio Ferretti:

Em nossa sociedade, […], o sincretismo é uma categoria discutida principalmente em relação às religiões afro-brasileiras, campo em que tem sido considerado, por alguns, como mais evidente. Hoje, também, já se estuda o sincretismo no Brasil, em relação às religiões evangélicas e neopentecostais. [3]

Pois, que me perdoem meus amigos adeptos do espiritismo laico e livre pensador, bem como aqueles dentre eles que se definem como defensores da “pureza doutrinária”, mas creio ter chegado o momento em que a doutrina e o movimento espíritas, segundo Allan Kardec, devem ser pensados sob o signo do sincretismo. Mas, para tanto, será preciso redefinir o sincretismo como:

[…] um universal dos grupos humanos quando em contato com outros: a tendência a utilizar relações apreendidas no mundo do outro para ressemantizar seu próprio universo. Ou ainda, o modo pelo qual as sociedades humanas (sociedades, subsociedades, grupos sociais; culturas, subculturas) são levadas a entrar num processo de redefinição de sua própria identidade, quando confrontados com o sistema simbólico de outra sociedade, seja ela de nível classificatório homólogo ao seu ou não. [4]

Ou então, como se poderia explicar que Kardec tenha se apropriado de elementos caros à tradição cristã (notoriamente ao cristianismo católico-romano) e os re-significando à luz da nova doutrina? Como compreenderíamos que Kardec pense o espiritismo em continuidade com duas “revelações” anteriores – a Mosaica e a Cristã – e proponha que o espiritismo seja a “terceira revelação”? Ou como explicar que o mesmo Kardec, na Conclusão de sua obra magna afirme tão categoricamente que embora se encontre por toda parte – já que seria tão antigo quanto a Criação – o espiritismo se encontre “[…] principalmente na religião católica e aí com mais autoridade do que em todas as outras [religiões], pois no catolicismo se encontra o princípio de tudo quanto existe no Espiritismo […]” [5].

 


[1] Este texto, recentemente publicado aqui no “Mansões” com o título "Um sincretismo religioso com extraordinárias características primitivas", eu o li a primeira vez numa das disciplinas do doutorado em Ciência da Religião, por indicação do professor Robert Daibert Júnior. Era uma disciplina obrigatória com o sugestivo nome “Religiões do Brasil”. E confesso, foi ali, com esse professor, e com textos como esse, que adquiri uma melhor compreensão acerca do problema do sincretismo.

[2] SANCHIS, Pierre. As tramas sincréticas da história. 1995 p. 3-4.

[3] FERRETTI, Sérgio F. Notas sobre o sincretismo religioso no Brasil – modelos, limitações, possibilidades. TEMPO, Rio de Janeiro, n. 11, pp. 13-26. Jul 2001.

[4] SANCHIS, p. 3.

[5] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. FEB: Rio de Janeiro, 2007. p. 632. (Trad.: Evandro Noleto Bezerra).

A sociedade é pedófila, diz arcebispo católico de Porto Alegre (RS)

 

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Dadeus Grings (foto), arcebispo católico-romano de Porto Alegre (RS), em entrevista coletiva dada por ocasião da abertura da 48ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) afirmou que a sociedade é pedófila e que os casos de pedofilia na Igreja Católica-Romana representam apenas 0,2% dos casos de abusos sexuais contra crianças.

O arcebispo também associou homossexualidade e pedofilia, desta vez no campo dos direitos civis. Afirmou Dadeus Grings:

Quando a sexualidade é banalizada, é claro que isso vai acontecer. O homossexualismo (sic) é um caso. Antigamente não se falava em homossexual. E era discriminado. Quando começa (a dizer) que eles têm direitos, direitos de se manifestar publicamente, daqui a pouco vão achar os direitos dos pedófilos.

E falando sobre a origem das tendências homossexuais, reiterou o velho mote de que a homossexualidade é inata em apenas uma pequena porcentagem dos gays. Para ele a homossexualidade seria, então, um desvio de comportamento oriundo de má orientação no campo da sexualidade. E pergunta: “[…] como vamos educar nossas crianças para o uso da sexualidade que seja humano e condizente?”.

Assim, mais uma vez, uma liderança católico-romana tenta desviar a a atenção dos problemas de imoralidade e criminalidade em sua instituição, associando-os à luta de cidadãos e cidadãs de orientação homoafetiva por seus direitos civis. Comparar o exercício livre, saudável e consensual da sexualidade (em qualquer de suas tonalidades afetivas), com a violência sexual (seja contra crianças ou mulheres, no caso de estupro) é ignorância ou má fé. Ou quem sabe uma conjugação de ambas?

A notícia completa pode ser lida no site do jornal O Globo.

quinta-feira, abril 15, 2010

Um pequeno esclarecimento

 

Recentemente recebi um pedido de esclarecimento sobre o título de meu projeto de pesquisa para o doutorado: O Espiritismo, “esta loucura do século XIX”: Ciência, Filosofia e Religião nos escritos de Allan Kardec.

Minha querida amiga Verioni, que há muito não vejo (infelizmente), pediu-me que esclarecesse o uso que faço do termo “loucura” no título do projeto. Achei justa a demanda, já que pode parecer aos desavisados que há um juízo de minha parte. O que não corresponde à verdade.

Bem, em primeiro lugar é preciso que se diga que o título é provisório, ao menos na sua primeira parte (que gosto de chamar de título-fantasia). O núcleo da pesquisa é a consideração dos conceitos de ciência, filosofia e religião na obra de Allan Kardec. É uma pesquisa sobre os modos como Kardec interpreta cada um desses conceitos em relação à doutrina por ele criada e sistematizada: a doutrina espírita. Trata-se, portanto, de uma pesquisa que visa debater o tema da identidade do espiritismo na obra de seu fundador.

Sobre o problemático uso da expressão “loucura do século XIX”, eu já havia discutido com meu orientador – Prof. Dr. Volney Berkenbrock – a possibilidade de fazer a devida alteração, já que ele também havia sofrido um certo estranhamento ao ler o projeto. Embora, para mim, este uso seja justificável pelo fato de que trata-se de uma expressão do próprio Allan Kardec, motivo pelo qual  vem grafada entre aspas em meu título.

Contudo, ainda não encontrei uma alternativa para a substituição desejada e desejável. Enquanto isso, publico aqui um trecho de meu projeto de pesquisa, à guisa de justificativa:

[…] cabe uma necessária palavra acerca de porque o Espiritismo é chamado no título desta proposta de a loucura do século XIX. Tal assertiva é oriunda de um trecho da obra A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo no qual, Kardec comparando o Espiritismo ao Materialismo do século XIX, afirma serem ambos como "[...] dois viajantes que caminham juntos, partindo de um mesmo ponto; chegados a certa distância, diz um: ‘Não posso ir mais longe’. O outro prossegue e descobre um novo mundo. O primeiro, movido por sua incapacidade de seguir adiante, invariavelmente tachará o segundo de insano tal como aqueles que, permanecendo na Europa, acusavam de insanidade a Cristóvão Colombo que, em seu pioneirismo, saiu em busca de um novo mundo.

“Pois bem! o Espiritismo, esta loucura do século dezenove, segundo os que se obstinam em permanecer na margem terrena, nos patenteia todo um mundo, mundo bem mais importante para o homem, do que a América, porquanto nem todos os homens vão à América, ao passo que todos, sem exceção de nenhum, vão ao dos Espíritos, fazendo incessantes travessias de um para o outro”.[1]

Assim, tentamos preservar o sentido irônico da frase, grafando-a entre aspas em nosso título. No entanto, com a compreensão ampliada de que a loucura do Espiritismo se estabelece não somente pela ousadia de seguir adiante onde o Materialismo científico do século XIX estancou. Mas ainda, pelo fato de ousar fazer isto propondo uma síntese complexa de três conceitos, por si já complexos, no conceito único de Espiritismo. Além disto, reflete a idéia de que tal síntese proposta por Allan Kardec se radica inteiramente no século XIX e é uma resposta aos processos históricos que lhe são próprios.

Espero, com isso, poder dirimir qualquer mal-entendido que possa surgir em torno de minha escolha para o título deste trabalho.

Abraços!


[1] KARDEC, Allan. A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2007, pp. 234-235.