Diz-se que Heráclito assim teria respondido aos estrangeiros vindos na intenção de observá-lo. Ao chegarem, viram-no aquecendo-se junto ao fogo. Ali permaneceram, de pé, (impressionados sobretudo porque) ele os encorajou a entrar, pronunciando as seguintes palavras: 'Mesmo aqui, os deuses também estão presentes'. (Aristóteles. De part. anim. , A5 645a 17ff).
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segunda-feira, fevereiro 21, 2011

3º Congresso Nacional da ANPTECRE

 

 

Web

 

2 a 4 de maio de 2011

Universidade Presbiteriana Mackenzie

Teologia e Ciências da Religião: Interfaces

Apresentação

Há mais de um século a religião deixou de ser objeto de estudos realizados apenas no âmbito de círculos religiosos e instituições eclesiásticas. Nas grandes universidades do mundo inteiro ela passou a ser tema de pesquisas e estudos sistemáticos realizados em ambientes científicos de cunho laico. Com isto os Estudos da Religião se tornaram mais respeitados no âmbito da comunidade científica e passaram a ser regidos segundo as normas acadêmicas vigentes nas demais áreas do conhecimento gerado em universidades e centros de pesquisa. Em contrapartida, porém, os estudos da Teologia tenderam, em especial em países latinos, a serem cultivados nas Igrejas, donde tiveram origem um certo um distanciamento histórico e desconfiança entre um e outro campo de saber.

Apesar de alguns percalços, deram-se, no entanto, algumas mudanças significativas. No Brasil, por exemplo, nos últimos decênios, verificou-se uma aproximação também institucional entre os dois campos, o que trouxe um maior respeito e atenção aos estudos da religião no seio da comunidade universitária. A fundação da própria ANPTECRE o comprova.

Nasceram daí possibilidades novas de diálogo entre as Teologias geradas em ambientes religiosos e as produzidas no âmbito das demais ciências que estudam o fenômeno religioso. Ao mesmo tempo, porém, essa situação levantou uma série de questões teóricas e metodológicas que exigem um debate mais aprofundado. Essas questões constituem um repto muito especial para os Programas de Teologia e de Ciências da Religião que hoje congregadas na ANPTECRE. Pode-se afirmar que atualmente, dentro e fora do Brasil, sopram ventos mais propícios a um intercâmbio autônomo e respeitoso entre o pensamento filosófico e científico e as Teologias.

A ANPTECRE vê neste campo de trabalho uma de suas tarefas prioritárias, uma vez que ela própria constitui um espaço que por si só propicia possibilidades de contatos diretos entre o pensamento teológico e o dos cientistas e filósofos da religião, o que cria condições e possibilidades para um debate bem mais acurado a respeito da complexa interação existente entre as várias ciências que se debruçam sobre as religiões em suas múltiplas facetas e mudanças. É essa complexa interface entre Teologia e Ciências da Religião que o III Congresso da ANPTECRE toma como seu tema central de estudo, visando levantar, mapear e aprofundar alguns dos aspectos que surgem no necessário debate entre as Teologias, cristãs e não cristãs, e as Ciências da Religião.

 

Maiores informações no site do Congresso, clicando na imagem acima.

terça-feira, setembro 21, 2010

Sinais de avanço: teologia gay em português

 

Fé Além do Ressentimento
Fragmentos católicos em voz gay

Um livro de James Alison

(É Realizações Editora) 

fe-alem-do-ressentimento

Apresentação

J. B. Libanio
abril de 2010

Há apresentações de livro formais, comerciais e editoriais. Há aquelas que nascem da amizade. Há aquelas que se forjam baseadas no valor da obra. Distancio-me da primeira espécie para me fixar nas duas seguintes.

Conheci Alison quando fez teologia na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia de Belo Horizonte, tendo-o como aluno. Recordo-me de que, certa vez, no final de uma exposição, que eu fizera, sobre a abertura fundamental do ser humano para a Transcendência, inspirado por K. Rahner, ele se voltou para mim e disse: “Pura poesia!”. Naquela hora falou o inglês empírico, mas sem ocultar certa pitada de poesia. Já naqueles idos percebia que ali jazia enorme potencial cultural, que se desabrochou em teologia tão criativa como aparece no livro. Vale dele naquele tempo o provérbio latino: ex digito gigans. Pelo dedo se conhece o gigante.

Neste livro encontrei um poeta. Não romântico, nem lírico, nem elegíaco, mas aquele que deixa aflorar do profundo do ser experiências existenciais densas e as retrata num discurso impregnado de beleza, liberdade e sem ressentimento ou acidez polêmica.

Ele consegue, como poucas obras, já no título apresentar as teses fundamentais desenvolvidas. Quatro blocos: fé, além do ressentimento, fragmentos católicos, voz gay. Todos coerentemente articulados, profundamente elaborados, formam conjunto valioso.

É um livro que brota da fé. Alison trabalha com imensa originalidade textos e contextos bíblicos do Primeiro e do Segundo Testamento. Consegue, sem forçar a exegese, conduzir o leitor à profunda compreensão da passagem bíblica. Logo no primeiro capítulo, nos surpreende com releitura extremamente original e fecunda da cura do cego de nascimento. Escapa das interpretações comuns e conhecidas, introduzindo o leitor, com sutileza, em novo campo hermenêutico.

Recorre com frequência a João, a Paulo e a outros textos bíblicos para levar à reflexão. Entremeia com delicada fineza, leveza e sutileza elementos autobiográficos do processo de integração humana e espiritual de sua condição de homem gay com perspicaz leitura de textos bíblicos. Evita gerar no leitor extremos do sentimento de rejeição da condição gay ou de compaixão pela vítima ou de revolta contra o sistema social ou contra a máquina eclesiástica. Atravessam-lhe a obra transparência e honestidade do relato. Em qualquer situação existencial, gay ou não, o leitor se toca. A pessoa gay certamente encontra uma palavra de libertação, não pela via barata da contestação, mas por honesto processo reestruturante interno, baseado fundamentalmente na ação criativa e bondosa de Deus e apoiado por inúmeras passagens da Escritura feita em voz gay.

Alison, na introdução, refere-se à situação em que escreveu este livro, com dificuldade de acesso bibliográfico. Daí poucas citações. Honestamente, esse fator enriqueceu a obra. Não se trata de clássica obra acadêmica, mas de ensaio com toques geniais e originais. Esse tipo de escrito não necessita de carregar-se de outras autoridades. Vale por ele mesmo. Isso o autor passa com modéstia no livro.

Outro toque de genialidade está na postura básica de Alison. O livro desarma os batalhões que porventura viessem a formar-se em torno dele. Por ser tema delicado e de difícil manuseio no mundo eclesiástico, seria previsível que se travasse em volta do livro a batalha entre os que o atacariam como desrespeitoso das normas eclesiásticas e os que o defenderiam precisamente por isso. No entanto, Alison toma distância dessas duas posturas como situações a serem superadas por profunda conversão evangélica. Ambas cairiam na mesma armadilha. Não se trata de fazer das pessoas gays vítimas e cerrar fileiras ao seu lado contra o aparato eclesiástico, nem também de posicionar-se como defensor deste em nome da lei e da norma, sem alcançar o espírito íntimo do cristianismo.

Ambas as posturas refletem ressentimento. E a opção de base de Alison reside precisamente na superação do ressentimento. Já o pratica na própria maneira de conduzir o tema e na releitura de suas experiências de vida, não raro duras, pesadas e traumáticas. E ele o faz, não por uma simples terapia de autoconfiança e de relativização da posição do outro, mas por lento trabalho interior de reconstrução dos escombros da vida pela força da experiência de Deus, que cria e ama. Logo no início, faz tocante leitura de José, do Egito, vendido por seus irmãos e naturalmente posto em situação de ressentimento, e de como ele a superou por generosidade bem arquitetada para proteger os irmãos criminosos em relação a ele. Aparecem já as primeiras intuições sobre essa categoria básica do livro.

Ressentimento não se supera com luta, com batalhas contra ou em defesa de alguma posição julgada errada tanto pelos que rejeitam o mundo homossexual quanto pelos que o defendem. Não vai por aí. Mesmo o mais intransigente inquisidor se sente tocado e questionado pelo livro. Solapa-lhe a base inquisitorial.

Alison conhece profundamente o pensamento de René Girard. Mais.

Girard se lhe transformou num companheiro de caminhada pelos meandros da fé cristã. Fê-lo perceber como, entre nós, funciona uma lógica de culpar a vítima. Jesus fez explodir o ciclo vitimário. Alison, no caso tratado, evita que tanto a pessoa gay como o conjunto eclesiástico sejam vistos como vítimas de ataques opostos. A reflexão vai na linha da superação de tal lógica, nada evangélica. Pelo contrário, Jesus procura inserir a todos na fraternidade inclusiva, universal de filhos de Deus. Só nessa perspectiva se vence esse jogo perigoso. A essa fraternidade se opõe uma fraternidade excludente, fratricida, de Caim a respeito de Abel, que reivindica uma paternidade exclusiva e excludente. Esta se baseia no biológico, no cultural, enquanto a de Jesus, na gratuidade do dom de Deus que nos quer todos irmãos. Com efeito, existe uma natureza fratricida na cultura humana, que atua por meio de muitas instâncias particulares, de que a máquina eclesiástica não se faz exceção. Sob essa ótica, Alison analisa várias das discussões de Jesus com os judeus, como nos relatam João e outras passagens da Escritura, como a saga de Jacó e José, a história de Jonas etc. E ele vê como tarefa cristã começar a desmontar os efeitos da fraternidade violenta em nossa vida e na dos outros. Implica a capacidade de ir mais além de uma montanha de coisas que nos pareciam sagradas e paternas no nosso ambiente familiar, cultural, geográfico, político e religioso. A libertação vem da dupla experiência de sentir-se filho amado de Deus e de poder dizer “nós” numa comunidade de irmãos em Igreja, sinal de um Reino apenas imaginável.

O discurso eclesiástico, que considera algum grupo de pessoa como “os outros”, separando-os do corpo eclesial, gera vítimas. Deus criador de todos, a quem ama incondicionalmente e que nos fala como a irmãos em seu Filho Jesus, refuga os mecanismos geradores da exclusão em nome da inclusão querida por ele. Alison chega a afirmar que “o que é pecado é a própria participação no mecanismo de exclusão, e não o defeito que provoca essa exclusão”. Nessa dinâmica se situa o livro.

O subtítulo fala de fragmentos católicos. Sinaliza a natureza das considerações expostas. Alison considera que corresponde à teologia do atual

milênio um caráter fragmentário. Os sistemas poderosos, bem construídos e fechados, cederão espaço a estudos a partir de óticas muito diferenciadas. Nenhuma delas conseguirá impor-se na sua exclusividade e totalidade, mas contribuirá com parcela de uma contínua busca do projeto salvador de Deus.

O adjetivo “católico” não pareceu a Alison algo evidente. Duvida se lhe cabe a categoria de “católico romano” ou simplesmente de cristão. Teologicamente falando, parece correto afirmar que todo elemento cristão tem cidadania no mundo católico, se não por convicção da instituição eclesiástica, ao menos por força da vontade de Jesus. Quem está com Jesus não deveria sentir-se fora da casa católica. No entanto, sabemos que o termo “católico” se restringe, não raramente, ao universo institucional, que não consegue fidelidade absoluta ao evangélico e por isso pode pecar pelos dois lados. Ora afirmar como evangélico o que não é, ora rejeitar como não evangélico o que é. Por isso, reflexão como esta de Alison ajuda a purificar o termo “católico” do peso institucional para lhe dar a leveza evangélica.

No discurso, essa afirmação goza de unanimidade. Quando o Concílio Vaticano II afirma a realidade da Igreja como santa e pecadora, no fundo, está dizendo o mesmo. Como santa, cabe-lhe perceber a realidade evangélica. Como pecadora, falha na dupla percepção aludida. Com a pluralidade de discursos teológicos, supera-se o quadro rígido que impõe única regra e medida da verdade e busca-se a fraternidade dos irmãos. A verdadeira natureza de Deus se descobre não por meio da verticalidade de uma paternidade que se impõe, mas pela horizontalidade de uma fraternidade que se vive. Essa ideia volta sob muitos aspectos como fundamental da leitura cristã de Deus.

“Em voz gay” oferece a maior originalidade e coragem da obra. Quando a teologia da libertação levantou a pretensão de produzir uma teologia diferente da teologia europeia, até então considerada “a teologia”, houve mal-estar, que perdura até hoje, em círculos acadêmicos e eclesiásticos. Alison ousa mais. Escolhe a voz gay para ler textos e passagens bíblicas, para analisar situações concretas. Enfrenta a posição moral tradicional da ordem da criação, que exclui todo comportamento que a contrarie como heterodoxo em nome de outra compreensão de Deus e da criação em Cristo.

Ele o faz sem ressentimento, sem radicalismo. Impressiona a lucidez das reflexões. Questionam a todos, inclusive os próprios defensores ardorosos e reivindicadores da causa gay contra certa moral e práxis eclesiástica tradicional. O livro não entra por esse caminho. Ele trabalha a dinâmica eucarística da fé católica que evolui de uma concepção corporativa excludente dos estranhos, passando por um momento de ressentimento antifarisaico em relação aos sujeitos da exclusão, até sua superação, e a da distinção entre nós e os outros numa igualdade de coração em força do amor recriador de Deus manifestado em Jesus.

Em relação às pessoas gays, oferece-lhes o reencontro com uma dignidade que, em última análise, lhes vem de Deus e que ninguém tem o direito de negar. Teme que a vida da maioria das pessoas gays esteja inundada de vergonha e orgulho. A vergonha leva-as a fugir de si mesmas antes do tempo, e o orgulho obriga-as a exibir-se antes do tempo. Quando se está em luta consigo mesmo e com os demais, projeta-se essa violência sobre os outros. Aos opositores, Alison mostra-lhes a pouca percepção de exigências profundas da Escritura. Não os combate. Analisa os pressupostos, os mundos subterrâneos, inconfessados e não falados, para lançar luzes oriundas da própria Palavra de Deus.

No decorrer do livro, o leitor detecta como muitas atitudes e escritos eclesiásticos não respondem a gestos, palavras e atitudes de Jesus. Alison o mostra por fidelidade à mensagem evangélica e não em nome de algum confronto. Um dos pontos fundamentais dessa obra consistiu em pensar teologicamente em voz gay, sem ressentimento nem proselitismo, mas de maneira serena, fina e profunda. Se há algo duro, não vem do discurso, mas da própria objetividade da realidade.

É um livro inaugural. Leva-nos todos a pensar. Tira-nos do clima ainda reinante em muitos lugares de polêmica e de combate quando se trata dessa questão de homossexualidade. Não o faz por nenhum laxismo moral, mas com a fineza de quem mostra traços evangélicos iluminadores. O leitor tem o direito de discordar, naturalmente, da posição pessoal do autor, mas dificilmente deixará de reconhecer a possibilidade hermenêutica da voz escolhida e sua capacidade de, a partir dela, trazer pontos importantes da compreensão da mensagem evangélica.

Na antítese de tal mensagem está a violência física e simbólica. Esta tem atravessado a polêmica sobre a sexualidade de ambas as partes. Os que acusam criam as vítimas, executam-nas física ou simbolicamente, e os que se associam a elas ou elas mesmas o fazem em linha oposta. Alison persegue precisamente uma reflexão que supere essa violência e possibilite um lugar de encontro em vez de rivalidade. Textos escriturísticos que, à primeira vista, pareceriam secundar tal violência, relê-os noutra perspectiva, mostrando inesperado sentido não explorado. Tece uma imagem de Deus fora do reino da violência, da reivindicação, da vingança, do “toma lá dá cá”, da rivalidade, do “olho por olho”. Um Deus situado nesse universo seria mesquinho. Muito próximo de nós, mas pouco Deus. Pelo contrário, Ele é aquele que preconiza a gratuidade e aspira à vida integrada dos seres humanos, e não excluída, vitimada, separada.

Nesta introdução expus algumas poucas ideias-chave de Alison, deixando ao leitor a oportunidade de avançar nelas e enriquecer-se com a leitura do livro. Não o compreenderá quem já se posicionou rígida e ortodoxamente num dos dois campos de batalha, tanto na vitimização das pessoas gays quanto na defesa ressentida de tanta discriminação. Não teria entendido o livro alguém que o interpretasse como uma defesa de qualquer prática sexual ou da relativização do crime de pedofilia que tem agitado tanto a imprensa mundial. Está em questão a dignidade das relações humanas de amor, possíveis no duplo mundo heterossexual e gay, como o contrário também. O livro faz jus ao título: “fé além do ressentimento”. O mínimo que se pode dizer desta obra é que foi escrita por alguém de trabalhada e profunda maturidade humana unida à experiência de fé livre e sempre aberta a caminhar. A todo o texto preside a convicção vivida de que o amor de Deus excede a todo desenho humano e não há diferença que esteja fora do longo e amoroso olhar de Deus.

 

O Autor

JamesAlison

James Alison

James Alison (Londres, 1959) é teólogo católico, sacerdote e escritor. Estudou em Oxford e é doutor pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte. É considerado um dos principais expositores da vertente teológica inspirada no pensador francês, crítico literário e teórico do desejo René Girard, e é atualmente um “Fellow” da Imitatio, fundação que apoia a divulgação do pensamento de Girard (www.imitatio.org).

Além de ser acima de tudo um teólogo sistemático, James Alison é, há mais de quinze anos, um dos raros padres e teólogos católicos assumidamente gays. Seu trabalho é respeitado internacionalmente pelo caminho rigoroso e matizado que vem abrindo nesse campo minado da vida eclesiástica. Dos sete livros que publicou, vários já foram traduzidos para o espanhol, italiano, francês, holandês e russo, e este é o primeiro a sair em língua portuguesa.

Seus próximos projetos, além das viagens por todo o mundo para conferências, palestras e retiros, incluem a divulgação em texto e DVD de um curso, de doze sessões, de introdução adulta à fé cristã, que ele vem ministrando em vários países nos últimos anos, e o incentivo a uma pastoral gay no centro da cidade de São Paulo, onde ele reside. Textos seus em vários idiomas podem ser encontrados no site www.jamesalison.co.uk.

segunda-feira, setembro 06, 2010

Revista IHU On-Line – 342 põe em discussão a Filosofia Escolástica e seu diálogo com a Modernidade

 

Escolástica. Uma filosofia em diálogo com a modernidade é o tema de capa da edição 342 da IHU On-Line. Contribuem para o debate João Madeira, Paula Oliveira e Silva, Jorge Alejandro Tellkamp, Alessandro Ghisalberti, Alfredo Culleton, Francisco Suarez, Giuseppe Tosi, Alfredo Storck, Luís Alberto De Boni, José Luís Herreros, Santiago Orrego, Ludger Honnefelder, Jacob Schmutz, Jaqueline Hamesse e Angel Poncela González.

 

capa revista ihu escolástica

Editorial

A realização do 17º Colóquio Anual Direito e Natureza na primeira e na segunda escolástica, da Sociedade Internacional para Estudos da Filosofia Medieval (SIEPM), inspira a edição desta semana da IHU On-Line a debater essa importante corrente filosófica da Idade Média.

Entrevistamos vários dos conferencistas do evento. Na opinião do filósofo João Madeira, da UFMS, existe uma relação entre alguns postulados da escolástica e os direitos humanos. Paula Oliveira e Silva, da Universidade do Porto, analisa as ligações entre o ius gentium, o direito das gentes, e a Segunda Escolástica. O conceito de domínio na escolástica espanhola é o tema de Jorge Alejandro Tellkamp, que leciona na Universidade Nacional Autônoma do México. Alessandro Ghisalberti, professor de História da Filosofia Medieval na Faculdade de Letras e Filosofia da  Universidade Católica del Sacro Cuore de Milão, examina a influência de Ockham na Segunda Escolástica, e percebe reflexos desse pensador na filosofia moral de Kant. Alfredo Culleton, professor do PPG em Filosofia da Unisinos e organizador do evento, menciona que a filosofia do jesuíta Francisco Suarez foi a base dos atuais direitos humanos. O filósofo Giuseppe Tosi, professor de filosofia na Universidade Federal da Paraíba, debate o legado de Bartolomeu de Las Casas, que considera o primeiro teólogo e filósofo da libertação. O professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Alfredo Storck, fala sobre o ser humano repensado pela escolástica. Para Luís Alberto De Boni, os “velhos escolásticos” continuam presentes.

Também contribuem na discussão do tema central desta edição os pesquisadores José Luís Herreros, Santiago Orrego, Ludger Honnefelder, Jacob Schmutz, professor de filosofia na Universidade Paris-Sorbonne (Paris-IV) e diretor dos estudos de filosofia e sociologia na nova Universidade Paris-Sorbonne Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, a pesquisadora Jaqueline Hamesse, e o filósofo espanhol Angel Poncela González.

A Revista pode ser acessada, na íntegra, através do link: IHU On-Line.

sexta-feira, agosto 27, 2010

Muere el filósofo y escritor Raimon Panikkar a los 91 años

 

Raimon_Panikkar_copyright_Ilvio_Gallo

El Periódico

Defendió siempre el diálogo entre personas y religiones.

El filósofo y escritor Raimon Panikkar ha fallecido este jueves a las 17.30 horas en su casa de Tavertet (Osona) a los 91 años, según ha confirmado la Fundación Vivarium, que él dirigía.

De padre indio y madre catalana y católica, Panikkar nació en Barcelona en 1918 y fue ordenado sacerdote en 1946.

A lo largo de su vida publicó más de 80 libros en los que defendió siempre el diálogo entre personas y religiones. Las diferentes religiones de sus padres, así como el hecho de haber vivido también en Roma, Estados Unidos y la India, favorecieron su mensaje tolerante y su defensa de la paz y el consenso.

Cristiano, hindú, budista

Hermano del también filósofo Salvador Panikker, Raimon siempre fue un enamorado de la India y nunca perdió el contacto con el país asiático desde que en 1955 lo visitase por primera vez. “Me fui cristiano, me descubrí hindú y vuelvo budista, sin haber dejado de ser cristiano”, solía decir el filósofo en una aplicación práctica de su defensa de la convivencia entre religiones.

En 1966 fue nombrado profesor de la Harvard Divinity School, pasando 20 años a caballo entre los Estados Unidos y la India. Entre 1971 y 1978 impartió clases de estudios religiosos en la Universidad de California, que más tarde creó un galardón con su nombre con el que cada año se premia al mejor estudiante en filosofía de las religiones.

En 1987 vuelve a Catalunya y se instala en Tavertet, donde ha permanecido hasta su muerte.

Premios, títulos y galardones

La labor de Panikkar fue reconocida, entre otros, con el Premio Español de Literatura en 1961, con la Creu de Sant Jordi de la Generalitat en 1999 y con la Medalla de Oro al Mérito Cultural de la ciudad de Barcelona el pasado año 2009.

Su trabajo fue galardonado también en el extranjero: el año 2000 recibió el título de Chevalier des Arts et des Letres de manos del Gobierno francés, y en 2001 fue el Gobierno italiano quien le otorgó la Medalla de la Presidencia de la Republica Italiana.

(Fonte: Redes Cristianas)

sábado, agosto 21, 2010

Sair da religião?

 

la sortie

 

A Boa Nova deve ser anunciada a todos. Alguns padres operários explicam como a Igreja, tornando-se uma religião no decurso dos séculos, se apropriou, desnaturando-a, da mensagem de Jesus Cristo, tornando-a, por isso, inútil àqueles que buscam Deus em verdade.

A reportagem é de Bernard Rivière, publicada na revista Témoignage Chrétien, 13-08-2010. A tradução é de Benno Dischinger.

“La sortie de la religion, est-ce une chance?" [A saída da religião é uma chance?], de Michel Gigand, Michel Lefort, Jean-Marie Peynard, José Reis e Claude Simon (Ed. L’Harmattan, 193 p.), é um livro fruto da participação de muitas mãos, das quais seria demasiado longo elencar todos os autores. Citaremos, no entanto, alguns, sobretudo e fundamentalmente aqueles de uma “mão” formada por cinco padres operários do Calvados, que são base do projeto do livro. Encontramos freqüentes citações de teólogos: do jesuíta Joseph Moingt, do pastor Dietrich Bonhoeffer(morto em campo de concentração em 1945), de Hans Küng...; de pensadores e filósofos: Marcel Gauchet, Mary Balmary, Jacques Duquesne...; de bispos, padres e leigos em grande número...

Juntamente com suas palavras, suas experiências pessoais, suas convicções, suas expectativas, unidas pela fé em Jesus Cristo solidamente ligada ao coração, querem comunicar aos leitores e, além destes, aos que crêem, que “a essência da mensagem evangélica é que a humanidade se realize plenamente”. Não por força de longas disputas teológicas nem de discursos de cátedra, mas através do olhar de amor que tentaram dirigir aos seus companheiros de trabalho, estes padres tomaram consciência, uma consciência de fé viva, de que “passou-se o tempo em que se podia dizer tudo aos homens com palavras teológicas e piedosas... Estamos caminhando para uma época totalmente sem religião” (1).


Apropriação


Desde o segundo século da nossa era nascem as primeiríssimas e esporádicas comunidades de discípulos de Jesus, com freqüência secretamente, sem nenhuma intenção oculta de criar uma religião, na lembrança da amizade de Jesus que alguns afirmam ter ressuscitado. A mensagem evangélica lentamente se propaga entre os “testemunhos” que naturalmente procuram, de maneira espontânea, transmitir a mensagem da Boa Nova. Pouco a pouco – era inevitável? – certa organização, em geral passageira, tomará forma a partir do século IV, com o impulso de Constantino e de Teodósio. E foi nos séculos seguintes que rapidamente tomará predomínio o aspecto institucional, sufocando por vezes e com demasiada freqüência, a espontaneidade de uma fé que em geral apenas quer difundir-se.


No Noroeste


Alguns padres do Calvados perceberam em sua vida de todos os dias, durante seu serviço como padres e trabalhadores, que a mensagem de Jesus nos séculos XX e XXI se tornara inaudível. Os primeiros capítulos do livro apresentam múltiplos testemunhos dados por eles mesmos e por seus companheiros operários que exemplificam a deriva da Igreja que se tornou, de humilde e a serviço da Boa Nova, uma instituição humana que é chamada “religião”. Joseph Moingt resume assim a evolução: “O seguimento desta história – que não manteve as promessas das origens – pode ser resumido dizendo que pouco a pouco, na Igreja, a forma da religião encobriu a do anúncio, em vez do contrário! O anúncio é apelo à liberdade, a religião é a constrição de uma determinada via de salvação. Desta conversão da Igreja em simples religião, que transformava o convite à salvação em injunção ameaçadora, se derivou o fato de que ela não tem mais uma linguagem religiosa, tecida de mandamentos, de mistério e de simbolismos sagrados” (2). Desta convicção nasce, então, uma longa, simples e apaixonante descoberta daquilo que pode ser ainda hoje o anúncio da Boa Nova.


A prática


Ser “praticante” consiste em contribuir ao êxito e ao crescimento da humanidade e não em executar atos rituais de uma religião. “Ser cristão, dizia Bonhoeffer, significa tornar-se radicalmente humano e convidar também outros a se tornarem tais”. Assim convida a reintegrar o homem ferido, nu, prisioneiro e enfermo na sociedade dos homens. “O que fizerdes ao mais pequenino, o fazeis a mim” (Mateus 25, 31-46). A salvação assume, nesta perspectiva, outro sentido. A libertação do jugo da religião é um dos aspectos trazidos por Jesus. É o Reino que é preciso testemunhar e a Igreja só tem sentido se o que ela faz e diz estiver a serviço da vida e da felicidade dos homens, abrindo-os, assim, ao verdadeiro projeto de Deus.

E, se os autores, como uma espécie de resumo da obra, afirmam, sob risco de chocar: “Deus se fez presente numa humanidade a humanizar, isso obriga a pensar num Deus em devir, Deus empenhado na história dos homens. Deus não será totalmente Deus enquanto a humanidade não estiver realmente de pé, autenticamente humana”. E terminam – ou quase – seu ensaio com um parágrafo importante: “A salvação (o êxito da humanidade) se joga hoje, no cotidiano da vida”.

Estas conclusões, baseadas na experiência de homens de fé empenhados no mundo operário, se dirigem também a todos aqueles que querem viver intensamente sua fé, seja qual for o contexto em que vivem: “Sim, nós cremos que não haja outro lugar para encontrar Deus a não ser a humanidade”. “O cristianismo é a religião da saída da religião”, escreve com certo humorismo, mas seriamente, Marcel Gauchet. (3).

É um livro muito fácil de ler que convida cada um a interrogar-se sobre a própria fé: “Creio em Ti, Deus em devir, Deus movimento, Deus presente, mas ao mesmo tempo futuro. Deus que nos liberte e também nos ajude a desembaraçar-nos do pó das nossas certezas” (Claude Simon).

_________________________

Notas:
1 -
MOINGT, Joseph, Dieu qui vient à l’homme [Deus que vem ao homem], Le Cerf, 2002
2 - BONHOEFFER, Dietrich, Résistance et soumission, Lettres et notes de captivité [Resistência e submissão, Cartas e notas do cativeiro], Les Éditions Labor et fides.
3 - La condition historique [A condição histórica], Stock 2003.

(Fonte: IHU - Instituto Humanitas Unisinos)

quinta-feira, agosto 05, 2010

De deus, do inferno e do amor que tudo salva - II

 

“Minha filha está morta devido à mentira que a Igreja me ensinou…”.

 

sexta-feira, julho 30, 2010

De deus, do inferno e do amor que tudo salva

Como bem disse Martha Medeiros: “A religião deveria servir apenas para promover o amor e a paz de espírito”. No entanto, muitas vezes, ela serve também para criar uma imagem pervertida de um deus ansioso por castigar seus “filhos” e “filhas” desobedientes.

O texto abaixo mostra como Dennis Linn modificou sua imagem de Deus e pode compreender “o fundamento de uma sadia espiritualidade cristã”.

Em minha opinião, se há um deus – e não estou certo disso – ele deveria ser assim. Pois um deus que não sabe o que é amor, nem vale a pena conhecê-lo.

Abraço:

Augusto Araujo

 

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Como mudou minha imagem de Deus

Denis Linn *

Certo dia Hilda me procurou em prantos. Seu filho tentara suicídio pela quarta vez. Contou-me que ele andava envolvido com prostituição, tráfico de drogas e assassinato. E encerrou a lista dos “grandes pecados” de seu filho questionando:

- O que me deixa mais preocupada é que meu filho diz que não quer nada com Deus. O que vai acontecer a meu filho se ele se suicidar antes de se arrepender e de se reconciliar com Deus?

Como naquela ocasião a minha imagem de Deus era a do tio George, o Bom Velhinho, pensei comigo mesmo: “Deus certamente vai mandar seu filho para o inferno”. Mas não quis dizer isso a Hilda. Fiquei contente que meus tantos anos de teologia me tivessem ensinado como é que se faz quando não se sabe responder a uma questão teológica difícil: devolva a pergunta.

- O que é que você pensa a respeito?

- Bom – respondeu Hilda – , acredito que, quando morremos, somos levados diante do trono do juízo de Deus. Se você viveu uma vida má, Deus manda você para o inferno. – E concluiu pesarosa: – Como meu filho levou uma vida extremamente má, se ele vier a morrer sem arrependimento, Deus certamente o mandará para o inferno.

Muito embora estivesse inclinado a concordar com ela, não quis dizer-lhe: “Muito bem, Hilda! Seu filho provavelmente vai mesmo para o inferno”. Agradeci novamente minha formação teológica, que me havia ensinado uma segunda tática: quando você não sabe como resolver um problema teológico, deixe que Deus o resolva. E então disse a Hilda:

- Feche os olhos. Imagine que você está sentada ao lado do trono do juízo de Deus. Imagine também que seu filho veio a morrer com todos os seus graves pecados e sem que tivesse se arrependido. Ele acaba de chegar diante do trono do juízo de Deus. Aperte minha mão assim que você formar essa imagem.

Poucos minutos depois, Hilda apertou minha mão. E passou a me descrever toda a cena do julgamento. Eu então lhe perguntei:

- Hilda, como é que seu filho está se sentindo?

Hilda respondeu:

- Meu filho está se sentindo muito sozinho e vazio.

Perguntei a Hilda o que ela gostaria de fazer. Ela disse:

- Quero atirar meus braços em volta de meu filho. – E ergueu os braços e se pôs a chorar, ao mesmo tempo que se imaginava estreitando fortemente seu filho nos braços.

Finalmente, quando cessou o choro, pedi-lhe que fitasse os olhos de Deus, buscando saber o que é que Deus queria fazer. Deus desceu de seu trono e, do mesmo modo como Hilda havia feito, abraçou o filho de Hilda. E os três – Hilda, seu filho e Deus – choraram juntos e se abraçaram um ao outro.

[…]

Fiquei atônito. O que Hilda havia me ensinado durante aqueles minutos é o fundamento de uma sadia espiritualidade cristã: Deus nos ama no mínimo tanto quanto a pessoa que mais nos ama.

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* Denis Linn é autor, juntamente com Sheila e Matthew Linn, é autor do livro Curando nossa imagem de Deus, publicado no Brasil pela Verus Editora (2002, p. 17-19), de onde retirei o texto acima.

quarta-feira, julho 28, 2010

Luteranos dos EUA acolhem pastores gays

 

 

Com uma imposição de mãos, a Igreja Evangélica Luterana na América (ELCA), nos Estados Unidos, no último domingo, recebeu em seu rebanho sete pastores abertamente gays, que haviam sido barrados, até recentemente, do ministério da Igreja.

A reportagem é de Laurie Goodstein, publicada no jornal The New York Times, 25-07-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
A cerimônia na Igreja Luterana St. Mark, em San Francisco, foi a primeira de várias cerimônias planejadas desde que a denominação obteve uma ampla margem de votos em sua convenção do ano passado para permitir que ministros gays não celibatários em relacionamentos comprometidos sirvam a Igreja.

"Hoje, a Igreja está falando com uma voz clara", disse o Rev. Jeff R. Johnson, um dos sete pastores gays que participaram da cerimônia. "Todas as pessoas são bem-vindas aqui, todas as pessoas são convidadas a ajudar a conduzir esta Igreja, e todas as pessoas são amadas incondicionalmente por Deus".

A Igreja Evangélica Luterana na América, conhecida como ELCA, com 4,6 milhões de membros, é hoje a maior Igreja protestante dos Estados Unidos que permite ministros homossexuais não celibatários a servir nas fileiras do seu clero – uma questão que tem provocado divisões dolorosas para ela, assim como para muitas outras denominações.

Desde que a Igreja votou, no ano passado, pela permissão de que membros do clero gay não celibatário pudessem servir a Igreja, 185 congregações usaram as duas votações consecutivas exigidas para sair da denominação, disse Melissa Ramirez Cooper, porta-voz da Igreja, citando um número que ela afirma ser atualizado mensalmente. Há 10.396 congregações em todo o país.

A Igreja Episcopal e a Igreja Unida de Cristo também permitem ministros gays. E a Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana dos EUA votou, em sua convenção no início deste mês, pela sua aprovação, apesar de que a votação irá se tornar lei da Igreja só se for ratificada por uma maioria de 173 presbíteros regionais da Igreja. Duas denominações luteranas menores, a Lutheran Church Missouri Synod e a Wisconsin Evangelical Lutheran Synod, não ordenam ministros que tenham relacionamentos homossexuais.

Os sete ministros  acolhidos na cerimônia de domingo já tinham sido ordenados e estavam servindo em igrejas ou ministérios da Bay Area de San Francisco, mas não haviam sido oficialmente reconhecidos na lista do clero.

"O efeito deles serem trazidos ao nosso plantel é que agora eles farão parte do nosso banco de dados nacional de pastores que estão disponíveis para o serviço em qualquer uma de nossas 10.500 igrejas", disse o bispo Mark W. Holmerud, que lidera o Sínodo de Sierra Pacific, que inclui San Francisco. Ele observou que, embora algumas congregações sejam abertas para considerar a contratação de ministros abertamente gays, outras não são – e cada congregação é livre para escolher.

 

Os luteranos evangélicos marcaram o rito especial de domingo como um "rito de reconciliação" para marcar a inclusão formal dos ministros homossexuais que foram ordenados em "ritos extraordinários", que não haviam sido reconhecidos pela Igreja, por terem sido conduzidos por um grupo chamado Ministérios Luteranos Extraordinários. Mais três pastores gays serão acolhidos em cerimônias em setembro e outubro, duas na área de St. Paul-Minneapolis e uma em Chicago, disse Cooper.

Amalia Vagts, diretora-executiva dos Ministérios Extraordinários Luteranos, disse: "Foi uma viagem longa e difícil para muitas pessoas, e parece que este é um novo começo na história da ELCA".
Ela disse que, somando todos, havia 46 ministros abertamente homossexuais que haviam sido previamente excluídos da lista do clero da Igreja e que agora passariam a ser aceitos.

A mudança foi possível depois que a Churchwide Assembly, o principal órgão legislativo dos luteranos evangélicos, votou em sua reunião de 2009 pela permissão da ordenação de pastores gays não celibatários que estão em relações monogâmicas. A denominação indicou uma força-tarefa para estudar a questão em 2001 e passou os outros oito anos em debate. No final, a proposta de permitir membros abertamente homossexuais ao clero ganhou apenas dois terços dos votos, o mínimo exigido para sua aprovação.

Alguns dos que se opuseram à decisão estão prestes a sair. O Rev. Mark Chávez, diretor da Lutheran CORE, uma coalizão de Igrejas luteranas teologicamente conservadoras, disse que seu grupo deve formar uma nova denominação, a North American Lutheran Church, em agosto.

Ele disse que da cerimônia do domingo "é apenas mais um passo firme tomado pela ELCA para mover a denominação para mais e mais longe da maioria das Igrejas luteranas ao redor do mundo e de toda a Igreja cristã, infelizmente".

Antes da cerimônia, um dos pastores gays, a Rev. Megan M. Rohrer, disse que tinha sido uma longa jornada desde sua casa em South Dakota – onde seus companheiros luteranos consideravam a sua sexualidade como um demônio a ser exorcizado – para finalmente ser acolhida como uma ministra da Igreja Luterana.

"É um convite", disse ela sobre a cerimônia, "para se unir a nós nos bancos da igreja todos os domingos, onde nenhum destes pastores vai se importar se você concorda conosco ou se você pensa que as nossas famílias são apropriadas. Vamos lhe dar a comunhão, vamos rezar com você e vamos visitá-lo no hospital".

(Fonte: IHU - Instituto Humanitas Unisinos)

domingo, julho 25, 2010

Por uma única pessoa plural - Sociedade Inclusiva - Quem Cabe no Seu TODOS?

 

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Rabino Nilton Bonder *

(Fonte: Amai-vos)

 

 

 

Não existe uma pessoa plural que inclua a todos. A primeira pessoa do plural - nós -- poderia ter essa característica inclusiva, não fosse pela percepção de uma da segunda pessoa do plural - vós -- que invariavelmente constrói uma terceira pessoa -- eles. No entanto, a lógica importada da individualidade, onde um "eu" depende de um "tu" e produz um "ele", não é a única possível para o coletivo. O "nós" que não inclui todos não é uma necessidade existencial como o "eu" que não engloba o "tu". Portanto, é teoricamente possível sonhar com uma primeira pessoa do plural que inclua todas as pessoas - um "nós" que é também "vós" e "eles".

Tão simples como mudar o conceito "plural" de nossa civilização é o desafio que Claudia Werneck propõe em seu livro Sociedade Inclusiva. Seu poder maior é nos fazer refletir sobre o conceito de "Todos". Quem incluiríamos em nosso "todos"? Não o "todos" do discurso e da moral, mas o "todos" de pele, um "todos" que nos venha natural. Não o "todos de mentirinha", como explica a autora, que é um "todos" da curiosidade e da diplomacia, mas um "todos" que é fato e crença.

Sua preocupação primeira é desmascarar, com a gentileza que lhe é um dom, a diversidade de significados da palavra "todos". Não só os indivíduos falam de "todos" que compreendem as mais diferentes noções, como as próprias instituições fazem uso de distintos "todos". Sociedade Inclusiva propõe o enxergar radical de que se "todos" não incluir "tudo" então não é "todos".

O livro se assemelha a um grande diálogo entre o ser humano e sua consciência. Levanta perguntas e responde, confronta lucidez e interesses, aponta saídas e reconhece limites. A primeira sensação é de que vamos nos defrontar com um texto de crítica e reprovação.

No entanto, o texto é, acima de tudo, humano. Ao mesmo tempo em que expõe a crueldade de nossas exclusões, tem o grande mérito de se manter voltado mais ao grito e ao fazer conhecer do que ao julgamento. Por isso sua leitura é convidativa. O leitor se enxerga prisioneiro de seus "todos" parciais mas não sai de cada capítulo com um sermão e sim com um convite à ação e ao desafio do comprometimento. De carrascos executando as exclusões de todo o dia, Claudia Werneck faz do leitor um potencial parceiro na tarefa de incluir. Seu segredo, sua mensagem maior, é que um "todos" que inclua todos, não seja uma utopia, mas percebido como a única possível estratégia.

O beneficiário maior da inclusão não é o incluído, como pensaríamos, mas quem quer que amplie o seu "todos". O custo de um "todos" composto de tão poucos é a razão da dívida que a sociedade está pagando. Seu custo é menos alegria e menos bem estar para todos-tudo. Há porém um ar de novidade nas denúncias de Claudia. Esta novidade não está nas informações prestadas, mas em sua abordagem doce e afirmativa, misto de desabafo e maturidade: "Dá para ser feliz num país com tanta exclusão?". Quando imaginaríamos na angustia da pergunta sua própria resposta, a autora surpreende: "Dá!".

Dá para ser feliz em meio a qualquer situação desde que se busque no momento, no agora, a incondicionalidade da inclusão.

A verdade é que quando nos damos conta da dimensão da dívida social, seja no plano nacional ou mundial, nos tornamos prisioneiros da esterilidade de acusações, de denúncias e até mesmo de reflexões. A originalidade de Sociedade Inclusiva é não ser uma teoria sobre o humano mas, acima de tudo, uma tentativa de proposta, de estratégia.

O impensável e o inconcebível têm mais serventia como uma estratégia do que como uma utopia. Incluir não é o sonho, mas incluir é o método para alcançar um "todos" que seja pessoa única do plural. Por isso identificar o menos incluído de todos nos "todos", se faz importante como estratégia e como ação na busca de um "todos" incondicional. E a autora aponta no "deficiente físico" um "outro" que é singular, que é chave, pois é um "outro" de todos. Não importa quem sejam os seus "todos", o "deficiente" é o excluído "coringa". Ele é o excluído até dos excluídos. Categoria daquele que é definido por suas deficiências e não de suas suficiências, não há "todos" que os incluam a não ser o "todos-tudo". São, portanto, nosso grande patrimônio. Num mundo onde o sonho é produzir o ser humano perfeito fazendo uso da engenharia genética, o "deficiente" é messiânico. É ele que pode nos ensinar a suportar a diversidade e os limites; é ele que pode nos afastar do "todos-eu" e nos aproximar do "todos-tudo".

Sociedade Inclusiva não fala de escolas inclusivas, de trabalho inclusivo, de medicina inclusiva, de cidadania inclusiva ou de natureza inclusiva como um sonho. Fala de tudo isso como uma estratégia. Uma escola inclusiva, por exemplo, não é uma meta a ser alcançada no futuro. Mas é hoje, no desafio do presente, um instrumento do futuro. A diversidade na escola não é um entrave à educação mas seu mais importante instrumento.

A homogeneidade é empobrecedora como regra: intelectualmente ela emburrece, espiritualmente ela corrompe, emocionalmente ela aliena e fisicamente ela esteriliza.

Nossa dívida para com nosso "todos" já tão minguado, se contabiliza na pobreza e na falta de sentido que caracterizam nosso mundo de exclusão. Um mundo sem surpresa, um mundo de controle e, sem dúvida, um mundo de menos vida e menos humano. O ato de fazer entrar outros em nosso "todos" é um ato libertador e, em si, a única tarefa da sociedade, da educação e da religião.

O filósofo Martin Buber construiu sua obra mostrando que a questão do "singular" está nas relações "eu-tu" e relações "eu-isto". Quando não há um "eu" de verdade e o reconhecimento de um "tu" de verdade, e vice-versa, não há diálogo e encontro. Sociedade Inclusiva, traz esta questão para o "plural". No entanto, no plural, um "nós" que seja verdadeiro, inclui o "vós" e o "eles". É possível no plural, ao contrário do singular, uma primeira pessoa absoluta que venha a produzir encontro e sentido.

A sensação de estar lendo um livro de "auto-ajuda" quando seu conteúdo é de Ação Social é, com certeza, mais do que um estilo em Sociedade Inclusiva. Parece conter em sua forma um importante ensinamento: a solidariedade e a cidadania, através da síntese da inclusão, são as formas mais profundas e duradouras de "auto-ajuda". Incluir o outro, nos inclui ainda mais. Permite que façamos parte de um "todos" que vale a pena, um "todos" que não é um vazio numérico - um singular fingindo-se de plural. Porque há apenas duas formas matemáticas do plural virar singular: ou na plenitude de D'us ou no vazio do egoísmo.

Quem cabe em seu "todos"?

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*Nilton Bonder, nasceu em Porto Alegre, em 27/12/57. Ordenou-se Rabino, pelo Jewish Theological Seminary, N.Y, em 1987. Escreveu 14 livros vários deles best-sellers no mercado editorial brasileiro e estrangeiro. (http://www.cjb.org.br/)

sábado, julho 24, 2010

Ecos do 23º Congresso Internacional da SOTER

 

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Entre os dias 12 e 15 de julho de 2010 reuniu-se na Pontifícia Universidade Católica (PUC Minas), em Belo Horizonte, o 23º Congresso Internacional da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (SOTER). Na ocasião celebrou-se os 25 anos da entidade que reúne teólogos (as) e cientistas da religião atuantes em Universidades, Igrejas e Escolas Confessionais do Brasil. Os 370 congressistas discutimos, durante os três dias do evento, o tema “Religiões e Paz Mundial”.

Antônio Carlos Ribeiro, da Ciberteologia: Revista de Teologia e Cultura, fez a cobertura parcial do Congresso numa série de artigos. No primeiro deles, intitulado Teólogos e cientistas analisam religiões e paz mundial, descreve a sessão de abertura com o pronunciamento dos ex-presidentes da SOTER. Em Reconciliação para superar a violência, analisa a conferência da comunicóloga Magali do Nascimento Cunha, da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), que falou sobre “Religião e violência: conflitos e contribuições à paz, refletindo sobre o conflito religioso e a violência”. A seguir, em Cristianismo: religião de referência ou uma entre as demais?, o autor descreve a mesa de debates “Teologia Pluralista e Teologia da Revelação”, que  reuniu os teólogos Andrés Torres Queiruga, da Universidade Santiago de Compostela, na Galícia, Espanha; o teólogo Faustino Teixeira, do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião, da Universidade Federal de Juiz de Fora; e o teólogo José Maria Vigil, da Associação de Teólogos e Teólogas do Terceiro Mundo (ASETT), de El Salvador. Por fim, no artigo Teólogo galego aborda modernidade e diálogo das religiões, relata a conferência de encerramento do Congresso proferida pelo teólogo galego Andrés Torres Queiruga, com o tema “Diálogo das Religiões e Desafio para a Renovação Teológica”.

Contudo, houve ainda outros momentos marcantes como a vídeo-conferência “Não terás outros deuses além de mim” (é o monoteísmo uma fonte de violência), da teóloga Maria Clara Luchetti Bingemer. E a participação do professor e babalorixá Erisvaldo Santos que, a partir do contexto das religiões de matriz afro-brasileira, questionou a legitimidade de um Congresso convocado por religiões de matriz judaico-cristã (com seu histórico de dominação hegemônica calcada em violência) falar sobre religiões e paz mundial.

Minha participação foi modesta, como a da maioria dos 370 congressistas. Como havia anunciado aqui, apresentei a comunicação “O Espiritismo segundo Allan Kardec: um médium para a tradição cristã”, no GT – A Bíblia e suas leituras. Em meu trabalho tentei apresentar um Kardec leitor e intérprete da Bíblia e da tradição cristã que, no afã de legitimar o espiritismo (doutrina e movimento) e configurar sua identidade, o apresenta como um espaço de mediação desta tradição para o século XIX. Em breve o texto das comunicações apresentadas durante o Congresso estará disponível no formato de e-book, no site da Revista Ciberteologia. Assim que isso acontecer, anunciarei aqui o link para o meu trabalho.

domingo, julho 18, 2010

Da nossa imagem de deus e da esquizofrenia religiosa

 

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Hoje, logo após escrever o post anterior, lembrei-me do livro que primeiro me fez refletir sobre essas coisas - “Curando nossa imagem de Deus” – e da história narrada em seu primeiro capítulo: a história de “Tio George, o Bom Velhinho”. Gosto muito dessa narrativa alegórica, pois quando a li pela primeira vez tive um verdadeiro despertar de compreensão. Como encontrei, aqui na casa de meus pais, o referido livro, transcrevo para vocês esta pequena parábola. Espero que apreciem.

Abraços:

Augusto Araujo

Em Barbacena, Minhas Gerais.

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Tio George, o Bom Velhinho

“Eu […] cresci com uma imagem de Deus que se assemelha ao tio George, o Bom Velhinho, tal como descrito por Gerard Hughes:

‘Deus era pessoa da família, muito admirado por papai e mamãe, que o descreviam como alguém muito amoroso, grande amigo da família, muito poderoso e interessado em todos nós. Até que um certo dia nós fomos visitar o ‘tio George, o Bom Velhinho’. Ele vive numa formidável mansão, é barbudo, carrancudo e ameaçador. Não pudemos compartilhar da admiração declarada de nossos pais por essa joia da família. Ao final da visita, tio George dirigiu-se a nós:

   - Escutem, meus queridos – começou ele mirando-nos severamente – quero ver vocês aqui uma vez por semana. Se vocês deixarem de vir, vou mostrar o que lhes vai acontecer.

E então nos levou para baixo, até os porões da mansão. Era escuro, ia-se tornando cada vez mais quente à medida que descíamos, e começamos a ouvir barulhos que não pareciam ser deste mundo. As portas do porão eram de aço. Tio George abriu uma delas:

   -  Agora deem uma olhada por aí, queridos – disse ele.

O que se apresentou a nós era uma visão de pesadelo, com fileiras de fornalhas ardentes atiçadas por pequenos demônios, que lançavam às chamas aqueles homens, mulheres e crianças que falhavam em suas vistas ao tio George ou que não agiam do modo que ele desejava.

   - E se vocês não vierem me visitar, queridos, é para aí que com certeza vocês irão – disse tio George.

Em seguida, levou-nos de volta escada acima, ao encontro de nossos pais. Na volta para casa, enquanto agarrávamos fortemente as mãos de papai e mamãe, ela se inclinou sobre nós e perguntou:

   - E agora, vocês não vão amar tio George de todo o coração, de toda a alma, de todo o entendimento e com todas as suas forças?

E nós, abominando o monstro, respondemos:

   - Sim, vamos – porque responder qualquer outra coisa significaria entrar na fila para a fornalha.

Já desde a mais tenra idade, a esquizofrenia religiosa se havia instalado, e nós continuamos a dizer ao tio George o quanto o amávamos, quão bom ele era, que nós queríamos fazer apenas aquilo que lhe agradava. Agíamos conforme seus desejos e sequer ousávamos admitir, ainda que só para nós, que nós o odiávamos’.”

(LINN, Matthew; et al. Curando nossa imagem de Deus. Campinas: Verus Editora, 2002. p. 13-14).

sábado, julho 17, 2010

Juíza se nega a casar gays mesmo que ‘custe sua própria vida’

 

Uma juíza de paz argentina afirmou nesta sexta-feira que jamais realizará o casamento de casais homossexuais, um dia depois de o Senado aprovar uma lei que autoriza essas uniões.

“Que me acusem do que quiser. Deus me diz uma coisa e eu vou obedecer, mesmo que custe meu posto, e mesmo que me custe a vida, porque primeiro está o que Deus me diz”, afirmou Marta Covella, juíza de paz da cidade de General Pico.

“Fui criada lendo a Bíblia e sei o que Deus pensa. Deus ama a todos, mas não aprova as coisas ruins que as pessoas fazem. E uma relação entre homossexuais é uma coisa ruim diante dos olhos de Deus”, assinalou ainda.

(Fonte: Bule Voador)

 

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Algumas palavras sobre este fato

Há muito tenho comentado neste blog sobre a pretensão que fundamentalistas têm em conhecer a mente de Deus apenas com base em sua leitura radical da Bíblia.

Diante disso apenas me lembro de uma experiência que gostaria de compartilhar com vocês. Quando decidi que era o momento de falar abertamente a meus pais sobre o fato de eu ser homossexual, fiquei preocupado de que nossa relação ficasse abalada a tal ponto que eles preferissem que eu me mantivesse distante deles. Felizmente eles são muito melhores que eu. E não apenas superaram o choque inicial, como não permitiram que nossa relação sofresse qualquer dano. E mais, acolheram meu companheiro como a filho.

Essa generosidade e esse amor incondicional, abriram meus olhos para compreender muito melhor o que significa amar alguém. Hoje sinto engulhos toda vez que leio ou escuto quem diz que Deus ama os homossexuais – e a todos os demais “pecadores” – mas só pode fazer algo de bom a eles – por exemplo, não permitir sua ida inevitável para o inferno por toda a eternidade – se os mesmos se converterem e agirem não como eles pensam ser o melhor para si, mas de acordo com um conjunto de livros com preceitos contraditórios e, muitas vezes, imorais para os padrões civilizados.

Quando penso no amor incondicional demonstrado por meus pais e penso nesse deus amargurado que querem me enfiar goela abaixo, não posso deixar de pensar que não preciso dele. Se há um deus – e, falando honestamente, não posso afirmá-lo ou negá-lo – e se ele é amor, como me dizem; não há a possibilidade de que ele me ame menos do que as pessoas que mais me amam no mundo. Caso contrário, esse deus, supondo que exista, é completamente dispensável para mim, e viver no inferno parece ser uma alternativa mais atraente.

Uma divindade que, para ser propiciada, precisa que eu negue minha natureza, não merece minha atenção. Contudo, se ele pode me acolher e me respeitar, me amar e desejar que eu esteja sempre com ele, aí sim posso concebê-lo e amá-lo.

Ao contrário, a imagem de um deus que, ao menor desagrado, permite passivamente que aqueles a quem diz amar vivam em sofrimento eterno, não condiz com o epíteto “amor”. E, aqueles que o adoram, em nome desse deus impiedoso e cruel, tornam-se igualmente impiedosos e cruéis. Amargos reflexos, à imagem e semelhança do deus a que adoram.

Augusto Araujo.

Em Barbacena, Minas Gerais.

quinta-feira, maio 20, 2010

Santos Gays?!

 

santosgaysA história da sexualidade humana é tão antiga quanto o homem. Todos os registros de culturas antigas mostram-nos como a humanidade tratava a questão homossexual. Em todos os casos, a homossexualidade não era apenas tolerada, mas socialmente aceitável. Mas, de repente, chegaram os inventores do castigo, da culpa castrante e do pecado, e o que em princípio era costume, tornou-se algo contra a lei de Deus, ficou rotulado como monstruoso e uma longa série de adjetivos.

Conhecer a história permite-nos saber que mesmo em uma das mais homofóbicas organizações que existem hoje em dia, a Igreja Católica, nem sempre foi assim. No passado, a Igreja cristã abençoava os casais homossexuais no que era então chamado "ritos de geminação". Na Igreja Ortodoxa do Ocidente, foram encontradas provas de que esses casamentos eram comemorados tanto pelos papas ortodoxos como por padres católicos.

No início do cristianismo, a igreja teve que aceitar essas relações, para não perder adeptos. Estas relações não eram apenas toleradas, mas também há exemplos de tais parcerias entre os santos cristãos.

São Sergio e São Baco (? - 297)

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Sergio de Resapha e Baco de Barbalissus, nobres romanos e militares no exército do imperador Cesar Maximiano, viviam em Coele, Síria, perto de Comana em Cappadocia (província romana), no início do século 4 dC.

Sergio foi comandante (primicerius) da escola de recrutas Arabissus, composta de bárbaros, chamada de Schola Gentilium (Escola dos Pagãos), e Bacchus era seu subalterno (secundarius), seu auxiliar direto.

Manuscritos gregos revelaram que foram abertamente homossexuais e que eram ‘erastai’ (amantes). Estes manuscritos estão em várias bibliotecas européias e indicam a atitude inicial do cristianismo em direção a homossexualidade, de forma diferente do que eles pregam hoje.

Seus nomes são invocados em cerimônias de união entre casais do mesmo sexo, casamento aceito e respeitado por direito divino e humano na Europa cristã na época em que viviam.

Convertidos ao cristianismo, Sergio e Baco não estavam presentes quando o imperador foi fazer um sacrifício a Zeus e Júpiter. Quando chamados por Maximiano que, para testar a sua lealdade, ordenou-lhes a participação nos ritos pagãos de sacrifício, Sergio e Baco se recusaram e assumiram sua fé cristã. A punição foi terrível.

Foram despidos e vestidos com roupas femininas e exibidos pelas ruas da aldeia. Flagelados com chicotadas, Bacco logo morreu (01/10/297), Sergio foi levado para Resapha (Síria) e suportou intensos sofrimentos, caminhando quilômetros com os sapatos forrados com pregos afiados e finalmente foi decapitado (07/10/297). Ambos foram enterrados nos arredores da cidade de Resapah.


Na Idade Média

Os dois foram suscitados em cerimônias para abençoar casais homossexuais.


Na Síria

Após a canonização, o Imperador Justiniano construiu, em honra de Sergio, igrejas em Constantinopla e Acre. A primeira foi transformada em mesquita e tem em seu interior raros exemplares da arte bizantina. Sergio foi nomeado patrono da Síria.


Em Roma

Existe uma igreja, construída no século VII, consagrada a Sergio e Baco. Os dois santos são representados pela arte cristã como soldados com roupas do exército e empunhando palmas de flores.


Na Igreja ortodoxa

No Monte Sinai, no Mosteiro Ortodoxo de Santa Catarina, mandado construir pela Imperatriz Helena de Bizâncio, são encontrados ícones de São Sergio e São Baco representados lado a lado, segurando, juntos, uma cruz. Em 2000, o Papa João Paulo II visitou o local.

Este ícone (a palavra vem do grego eikón e significa imagem, são sinônimo de arte sacra bizantina e estão em todas as Igrejas Ortodoxas) é do sétimo século, e está agora no museu de arte oriental e ocidental, em Kiev. É interessante ver como Cristo aparece na posição tradicional dos romanos ‘Pronubus’ *, por trás de Sergio e Baco.

O fato é que São Sérgio e São Baco, mártires da Igreja, viraram ícones do movimento gay, inspirando artistas. Suas imagens servem à defesa da união civil entre pessoas do mesmo sexo, cujas cerimônias são seladas com a leitura da oração dos dois santos. Eles têm até um dia, os jovens amantes são venerados na liturgia bizantina em 7 de outubro.

(Fonte: Igrejas da Comunidade Metropolitana – ICM)

 

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* Pronubus, em língua portuguesa prônubo, segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa significa “relativo a noivo, noiva ou a núpcias; nupcial”, e ainda, “que arranja casamento para outrem; casamenteiro” (como por exemplo, na mitologia romana, a deusa Juno).

sábado, maio 15, 2010

Teologia e Fundamentalismo

 

Um texto de Paul Tillich [1]

A teologia, como função da igreja cristã, deve servir às necessidades desta igreja. Um sistema teológico deve satisfazer duas necessidades básicas: a afirmação da verdade da mensagem cristã e a interpretação desta verdade para cada nova geração. A teologia oscila entre dois pólos: a verdade eterna de seu fundamento e a situação temporal em que essa verdade eterna deve ser recebida. Não são muitos os sistemas teológicos que souberam combinar perfeitamente essas duas exigências. A maioria deles ou sacrificam elementos da verdade ou não são capazes de falar ao momento atual. Alguns padecem de ambos os defeitos. Temerosos de perder a verdade eterna, identificam-na com algum trabalho teológico anterior, com conceitos e soluções tradicionais, e tentam impô-los a uma situação nova e diferente. Confundem a verdade eterna com uma expressão temporal desta verdade. Isso se torna evidente na ortodoxia teológica europeia, conhecida nos Estados Unidos como fundamentalismo. Quando o fundamentalismo se combina com uma tendência anti-teológica, como ocorre, por exemplo, em sua forma biblicista-evangelical, a verdade teológica de ontem é defendida como uma mensagem imutável contra a verdade teológica de hoje e de amanhã. O fundamentalismo deixa de entrar em contato com a situação presente, não porque fale desde além de qualquer situação, mas porque fala desde uma situação do passado. Eleva algo finito e transitório a uma validez infinita e eterna. Nesse sentido, o fundamentalismo possui traços demoníacos. Ele destrói a humilde honestidade da busca pela verdade, cria em seus seguidores pensativos uma crise de consciência e os torna fanáticos, porque são forçados a suprimir elementos da verdade dos quais têm consciência, mesmo que vaga.

 


[1] TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. São Leopoldo: Sinodal, 2005. p. 21. (Trad.: Getúlio Bertelli e Geraldo Korndörfer).

quarta-feira, abril 28, 2010

Religião e Filosofia

 

Excertos de um texto de Martin Buber *

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I

A dificuldade para fazer uma distinção radical entre os terrenos da filosofia e da religião e, ao mesmo tempo, saber superar essa dificuldade pode, com maior clareza, ser manifestada quando comparamos duas pessoas representativas desses terrenos: Epicuro e Buda.

Epicuro ensina não apenas que existem deuses, isto é, seres imortais perfeitamente puros, que vivem nos espaços entre os mundos, mas que não têm poder sobre o mundo nem interesse por ele; ensina também que esses deuses devem ser venerados por meio de pensamentos piedosos e dos costumes tradicionais, sobretudo oferecendo-lhes, devidamente, piedosos sacrifícios. Ele mesmo os adora e lhes sacrifica, mas em seguida acrescenta, citando palavras de uma figura da comédia: “Ofereci sacrifícios a deuses que não me deram atenção”. Aqui está presente uma espécie de dogma, acompanhada de um culto; não obstante, percebe-se com clareza que não se trata de uma situação religiosa, mas filosófica.

Buda trata os deuses da crença popular, quando os considera dignos de menção, com uma tranquila e superior benevolência, e não sem ironia: essas figuras celestes que, mesmo sendo poderosas e – ao contrário dos deuses de Epicuro – estando voltadas também para o mundo dos homens, estão, como eles, acorrentados à cadeia do desejo e, como eles, envolvidas na “roda dos nascimentos”. Podemos venerá-los e cultuá-los, mas a lenda, coerentemente, leva a que se venere a ele, o Buda, o “desperto”, o liberto, o que liberta da roda dos nascimentos. Porém Buda reconhece um ser verdadeiramente divino, “não nascido, não formado, não criado”. É certo que só o conhece nessa descrição inteiramente negativa, recusando-se a fazer qualquer declaração a respeito dele, mas relaciona-se com ele com todo o seu ser. Não nos deparamos aqui nem com uma doutrina sobre Deus nem com um culto de Deus e, não obstante, nos encontramos diante de uma realidade claramente religiosa.

II

Assim, o que é decisivo para a religião autêntica não é o aparecimento do divino como pessoa, e sim que eu me comporte em relação a ele como em relação a um ser diante de mim. Envolver o divino inteiramente na esfera do humano suspende a divindade do divino. Não é necessário que se saiba algo sobre Deus para realmente pensar em Deus, e muitos fiéis verdadeiros sabem falar a Deus, mas não sabem falar de Deus. O Deus desconhecido, quando se tem a coragem de viver para ele, de ir-lhe ao encontro, de invocá-lo, constitui o objeto legítimo da religião; quem se recusa a deixar Deus limitado ao transcendente tem dele ideia maior do quem se limita a isso; mas quem o limita ao imanente está pensando em outra coisa, e não nele.

[…]

___________________________

* BUBER, Martin. Religião e Filosofia. In: ______. Eclipse de Deus. Considerações sobre a relação entre filosofia e religião. Campinas: Verus Editora, 2007. p. 27-46. (Trad.: Carlos Almeida Pereira).

sábado, abril 24, 2010

Carta aberta aos bispos católicos de todo o mundo *.

 

Hans Küng **

O teólogo Hans Küng avalia o pontificado de Bento XVI como o das oportunidades perdidas. No quinto aniversário de sua chegada ao Vaticano, pede ao clero que reaja à crise da Igreja, tornada ainda mais aguda pelos abusos a menores:

Küng 

Estimados bispos.

Joseph Ratzinger, agora Bento XVI, e eu fomos entre 1962-1965 os dois teólogos mais jovens do Concílio. Agora, ambos somos os mais idosos e os únicos que continuam em plena atividade. Sempre entendi meu trabalho teológico como um serviço à Igreja. Por isso, preocupado por esta nossa Igreja, mergulhada na mais profunda crise de confiança desde a Reforma, vos dirijo uma carta aberta no quinto aniversário do acesso ao pontificado de Bento XVI. Não tenho outros meios de chegar até vós.

Apreciei muito que o Papa Bento, logo depois de sua eleição, me convidasse, seu crítico, para uma conversa de quatro horas, que decorreu amistosamente. Naquele momento isto me fez conceber a esperança de que Joseph Ratzinger, meu antigo colega na Universidade de Tubinga, tivesse encontrado, apesar de tudo, o caminho para maior renovação da Igreja e o entendimento ecumênico no espírito do Concílio Vaticano II.

Minhas esperanças – e a de tantos católicos e católicas comprometidos – desgraçadamente não se cumpriram, coisa que fiz saber ao Papa Bento por diversas formas em nossa correspondência. Sem qualquer dúvida, ele cumpriu conscienciosamente suas obrigações papais cotidianas e nos ofereceu três úteis encíclicas sobre a fé, a esperança e o amor. Mas no tocante aos grandes desafios de nosso tempo, seu pontificado se apresenta cada vez mais como o das oportunidades perdidas, não como o das ocasiões aproveitadas:

- Desperdiçou-se a oportunidade de um entendimento perdurável com os judeus: o Papa reintroduz a súplica pré-conciliar em que se pede pela iluminação dos judeus e readmite na Igreja a bispos cismáticos, notoriamente anti-semitas, implementa a beatificação de Pio XII e só leva a sério o judaísmo como raiz histórica do cristianismo, não como uma comunidade de fé que perdura e tem um caminho próprio para a salvação. Os judeus de todo o mundo indignaram-se com o pregador pontifício na liturgia papal da sexta-feira santa em que comparou as críticas ao Papa com a perseguição anti-semita.

- Desperdiçou-se a oportunidade de um diálogo baseado em confiança com os muçulmanos: é sintomático o discurso de Bento em Ratisbona, no qual, mal assessorado, caricaturou o Islam como a religião da violência e da desumanidade, atraindo assim a duradoura desconfiança dos muçulmanos.

- Desperdiçou-se a oportunidade da reconciliação com os povos nativos colonizados na América Latina: o Papa afirma com toda a seriedade que estes “anelavam” pela religião de seus conquistadores europeus.

- Desperdiçou-se a oportunidade de ajudar os povos africanos na luta contra a superpopulação, aprovando os métodos anticoncepcionais e na luta contra a AIDS, admitindo o uso de preservativos.

- Desperdiçou-se a oportunidade de concluir a paz com as ciências modernas: reconhecendo inequivocamente a teoria da evolução e aprovando de forma diferenciada novos campos de pesquisa, como o das células-tronco.

- Desperdiçou-se a oportunidade de que também o Vaticano torne definitivamente o espírito do Concílio Vaticano II a bússola da Igreja Católica, impulsionando as suas reformas.

Este último ponto, estimados bispos, é especialmente grave. Este Papa frequentemente relativiza os textos conciliares e os interpreta de forma retrógrada contra o espírito dos padres do concilio. Ele se situa mesmo expressamente contra o Concílio Ecumênico, que, segundo o direito canônico, representa a autoridade suprema da Igreja Católica.

- Ele readmitiu na Igreja, incondicionalmente, os bispos da Irmandade Sacerdotal São Pio X, ordenados ilegalmente fora da Igreja Católica e que rechaçam o concílio em aspectos centrais.

- Apóia por todos os meios a missa tridentina medieval e ele mesmo celebra ocasionalmente a eucaristia em latim e de costas para os fiéis.

- Não implementa de fato o entendimento com a Igreja Anglicana, firmado em documentos ecumênicos oficiais (ARCIC), mas pretende atrair à Igreja católico-romana sacerdotes anglicanos casados, deixando de exigir deles o voto do celibato.

- Reforçou os poderes eclesiais contrários ao concílio, com a nomeação de altos cargos anti-conciliares (na Secretaria de Estado e na Congregação para a Liturgia, entre outros) e bispos reacionários em todo o mundo.

O Papa Bento XVI parece afastar-se cada vez mais da grande maioria do povo da Igreja, que de todas as formas se ocupa cada vez menos de Roma e que, no melhor dos casos, ainda se identifica com sua paróquia e seus bispos locais.

Sei que alguns de vós padeceis pelo fato de que o Papa se veja plenamente respaldado pela cúria romana em sua política anti-conciliar. Esta busca sufocar a crítica no episcopado e na Igreja e desacreditar aos críticos por todos os meios. Com renovada exibição de pompa barroca e manifestações teatrais diante dos meios de comunicação, Roma trata de exibir uma Igreja forte, com um “representante de Cristo” absolutista, que reúne em sua mão os poderes legislativo, executivo e judiciário.

No entanto, a política de Bento fracassou. Todas as suas aparições públicas, viagens e documentos não são capazes de atrair em direção à doutrina romana a postura da maioria dos católicos em questões controvertidas, especialmente em matéria de moral sexual. Nem mesmo os encontros papais com a juventude, aos quais assistem especialmente os grupos conservadores carismáticos, podem frear os abandonos da Igreja ou despertar mais vocações sacerdotais.

Precisamente vós, como bispos, o lamentareis em sua maior profundidade: desde o Concílio, dezenas de milhares de bispos abandonaram sua vocação, especialmente devido à lei do celibato. A renovação sacerdotal, assim como a de membros das ordens religiosas, irmãos e irmãs leigos, caiu tanto quantitativa como qualitativamente. A resignação e a frustração se estendem no clero, precisamente entre os membros mais ativos da Igreja. Muitos se sentem abandonados em suas necessidades e sofrem pela Igreja.

Pode ser que este seja o caso em muitas de vossas dioceses: cada vez mais igrejas, seminários e paróquias vazios. Em alguns países, devido à carência de sacerdotes, se finge uma reforma eclesial e as paróquias se refundem, frequentemente contra a vontade, constituindo gigantescas “unidades pastorais” nas quais os escassos sacerdotes estão completamente extenuados.

E agora, às muitas tendências de crises, adicionam-se ainda escândalos que clamam ao céu, especialmente todo o abuso de milhares de meninos e jovens por clérigos – nos Estados Unidos, na Irlanda, na Alemanha *** – tudo isto ligado a uma crise de liderança e de confiança sem precedentes.

Não se pode abafar o fato de que o sistema de ocultação posto em vigor em todo o mundo perante os delitos sexuais dos clérigos foi dirigido pela Congregação para a Fé, de Roma, do Cardeal Ratzinger, (1981-2005), na qual já sob João Paulo II se compilaram os casos sob o mais estrito segredo.

Ainda em 18 de maio de 2001, Ratzinger enviava um documento solene sobre os delitos mais graves (Epistula de delitos gravioribus) a todos os bispos. Nela, os casos de abusos se localizavam sob o secretum pontificium, cuja transgressão pode atrair severas penas canônicas. Com razão, pois, estão muitos que exigem ao então prefeito **** e agora Papa um mea culpa pessoal. Na Semana Santa, no entanto, ele perdeu a oportunidade de o fazer. Em vez disso, o Domingo de Ramos levou o decano do colégio cardinalício a levantar urbi et orbi o testemunho de sua inocência.

As consequências de todos estes escândalos para a reputação da Igreja católica são devastadoras. Isto é algo que também confirmam já dignatários de alto nível. Muitos curas e educadores de jovens sem culpa e extremamente comprometidos padecem sob uma suspeita geral.

Vós, estimados bispos, deveis levantar para vós mesmos a pergunta de como haverão de ser no futuro as coisas em nossa Igreja e em vossas dioceses. Claro, não queria esboçar para vós um programa de reforma. Isto eu já o disse em repetidas ocasiões, antes e depois do Concílio. Só queria colocar diante de vós seis propostas que – é minha convicção – serão respaldadas por milhões de católicos que carecem de voz:

1. Não calar: diante de tantas e tão graves irregularidades, os silêncio vos fará cúmplices. Ali onde considereis que determinadas leis, disposições e medidas são contraproducentes, deveríeis, pelo contrário, expressá-lo com a maior franqueza. Não envieis a Roma declaração de submissão, mas exigências de reforma!

2. Empreender reformas: na Igreja e no episcopado são muitos os que se queixam de Roma sem que eles mesmos façam algo. Mas hoje, quando em uma diocese ou paróquia não se frequenta a missa, o trabalho pastoral é ineficaz, a abertura às necessidades do mundo limitada, ou a cooperação mínima, não se pode descarregar isto sobre Roma, sem mais nem menos. Bispo, sacerdote ou leigo, todos e cada um, deverão fazer alguma coisa para a renovação da Igreja em seu âmbito vital, seja maior ou menor. Muitas coisas grandes nas paróquias e em toda a Igreja foram postas em ação graças à iniciativa de indivíduos ou de pequenos grupos. Como bispos deveis apoiar e alentar estas iniciativas e atender depressa as queixas justificadas dos fiéis.

3. Atuar colegiadamente: após um vivo debate e contra a sustentada oposição da cúria, o Concílio decretou a colegialidade do Papa e dos bispos, ao estilo dos Atos dos Apóstolos, onde nem Pedro agia sem o colégio apostólico. No entanto, na época pós-conciliar, os papas e a cúria ignoraram esta decisão central do Concílio.

Desde que o Papa Paulo VI, dois anos depois do Concilio, publicou uma encíclica para a defesa da discutida lei do celibato, a doutrina e a política papal voltaram a ser exercidas conforme o estilo antigo, não colegiado. Até mesmo na liturgia o Papa se apresenta como autocrata, frente ao qual os bispos, de que gosta de estar rodeado, aparecem como comparsas sem voz nem voto.

Não deveríeis, portanto, estimados bispos, atuar apenas individualmente, mas em comunidade com os demais bispos, com os sacerdotes e com o povo da Igreja, homens e mulheres.

4. A obediência ilimitada só se deve a Deus: todos vós, na solene consagração episcopal, prestastes perante o Papa um voto de obediência ilimitada. Sabeis, porém, igualmente que jamais se deve obediência ilimitada a uma autoridade humana, somente a Deus. Portanto, vosso voto não vos impede dizer a verdade sobre a atual crise da Igreja, de vossa diocese e de vossos países. Seguindo em tudo o exemplo do apóstolo Paulo, que confrontou a Pedro e teve que fazê-lo “face a face, porque se tornara repreensível” (Gl 2.11).

Uma pressão sobre as autoridades de Roma no espírito da irmandade cristã pode ser legítima quando estas não concordem com o espírito do Evangelho e sua mensagem. A utilização da linguagem vernácula na liturgia, a modificação das disposições sobre os casamentos mistos, a afirmação da tolerância, os direitos humanos, o entendimento ecumênico e tantas outras coisas só foram alcançados pela tenaz pressão vinda da base.

5. Aspirar a soluções regionais: é frequente que o Vaticano faça ouvidos surdos a demandas justificadas do episcopado, de sacerdotes e dos leigos. Com tanto maior razão se deve aspirar a conseguir soluções regionais de forma inteligente.

Um problema especialmente espinhoso, como sabeis, é a lei do celibato, proveniente da Idade Média e que com razão está sendo questionada em todo o mundo, precisamente no contexto dos escândalos por abusos sexuais. Uma modificação contra a vontade de Roma parece praticamente impossível. No entanto, isto não nos condena à passividade: um sacerdote que depois de madura reflexão pense em casar-se não tem que renunciar automaticamente a seu estado se o bispo e a comunidade o apóiam. Algumas conferências episcopais poderiam alcançar uma solução regional, ainda que fosse melhor aspirar a uma solução para a Igreja em seu conjunto. Portanto:

6. Exigir um concílio: assim como foi preciso um concílio ecumênico para a realização da reforma litúrgica, a liberdade de religião, o ecumenismo e o diálogo interreligioso, o mesmo acontece para se solucionar o problema da reforma, que foi interrompida agora de forma dramática. O concilio reformador de Constança no século anterior à Reforma (protestante) aprovou a celebração de concílios a cada cinco anos, disposição que, no entanto, foi burlada pela cúria de Roma. Seguramente esta fará o que puder para impedir um concílio do qual possa temer uma limitação de seu poder. Sobre todos vós está a responsabilidade de impor um concílio ou pelo menos um sínodo episcopal representativo.

O apelo que vos dirijo diante desta Igreja em crise, estimados bispos, é que ponhais na balança a autoridade episcopal, revalorizada pelo Concílio. Nesta situação de necessidade, os olhos do mundo estão postos sobre vós. Inúmeras pessoas perderam a confiança na Igreja católica. Para recupera-la só será necessário abordar de forma franca e honrada os problemas e respectivas reformas. Peço-vos, com todo o respeito, que contribuais naquilo que lhes cabe, sempre que possível em cooperação com os demais bispos. Mas, se necessário, também solitariamente, com “intrepidez” apostólica (Atos 4.29-31). Dai sinais de esperança a vossos fieis e uma perspectiva a nossa Igreja.

Saúda-vos, na comunhão da fé cristã, Hans Küng.

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* Traduzido do alemão para o espanhol por Jesús Alborés Rey; traduzido do espanhol para o português por Sérgio Marcus Pinto Lopes. Revisão da tradução aqui publicada: Augusto Araujo

** Hans Küng é catedrático emérito de Teologia Ecumênica na Universidade de Tubinga, Alemanha, e presidente da Global Ethic.

*** E também aqui, no Brasil (nota do revisor).

**** “Prefeito”: referência ao cargo ocupado pelo então Cardeal Ratzinger antes de sua eleição como Papa Bento XVI, como Prefeito da Congregação para Doutrina da Fé.

 

Fonte: Capela da Inclusão