Diz-se que Heráclito assim teria respondido aos estrangeiros vindos na intenção de observá-lo. Ao chegarem, viram-no aquecendo-se junto ao fogo. Ali permaneceram, de pé, (impressionados sobretudo porque) ele os encorajou a entrar, pronunciando as seguintes palavras: 'Mesmo aqui, os deuses também estão presentes'. (Aristóteles. De part. anim. , A5 645a 17ff).

sábado, março 27, 2010

O BBB10 e a “cultura” do feio.

 

Alguém recentemente me disse que não sabe como as pessoas perdem tempo com um programa de TV como o Big Brother Brasil, da Rede Globo de Televisão. E, acrescentou, é triste que um programa assim mobilize tanto as pessoas. Pessoalmente não me causa surpresa que tantos de nós sejamos mobilizados pelos dramas e comédias dos participantes do reality. Eu mesmo, confesso e não me envergonho disso, acompanhei algumas edições e tenho acompanhado a deste ano com grande interesse.

Até hoje, no entanto, nunca havia me pronunciado sobre qualquer participante. Pois, para mim, um programa desse tipo é antes um experimento da natureza humana. Um experimento que vivi na pele como membro de algumas comunidades fechadas ao longo de minha vida, mas que apenas com o advento do BBB tive a possibiliade de observar de fora.

Este ano, contudo, eu resolvi me pronunciar. Decidi fazê-lo para não ficar me sentindo culpado de omissão. Tem-me sido impossível ficar indiferente quando, em rede nacional, pessoas reais se desnudam e mostram seu lado menos apreciável. A edição deste ano (BBB10) tem feito isso de maneira magistral. No cenário que ali se desenhou todos são altamente imperfeitos e não há o embate mocinho versus vilão. Regra geral, e diferentemente das outras edições, o BBB10 representa a consagração definitiva e oficial do feio.

Não falo do feio das caras e corpos, mas das feias atitudes, da feiúra de caráter que manipula, distorce conscientemente, julga e condena o outro sem considerá-lo como espelho de si. Esta foi a edição dos palavrões gritados, dos gestos obscenos, do desacato generalizado à dignidade alheia (inclusive do público).

Falo da feiúra da ignorância propalada aos quatro ventos, que corrobora preconceitos atavicamente arraigados e os consagra em rede nacional. Falo do cinismo que transforma seres humanos em degraus, travestidos de “amigos de infância”. Falo das emoções mal disfarçadas, das declarações irresponsáveis sem pé nem cabeça, e da insistência da emissora em fingir que nada aconteceu. Falo do massacre, da caçada ardilosamente premeditada que encurrala o membro mais fraco do bando para devorá-lo. Num jogo político – como o de nossos piores repesentantes – de conchavos e rompimentos minimamente calculados. Falo, enfim, da consagração da cultura do feio. Onde cultura significa simplesmente “cultivo”. Nesta edição o feio é cultivado como “flor de estufa”, e exala o seu cheiro por todos os cantos.

Por que considero importante acompanhar esse cenário? Por que o BBB10 é apenas uma amostra da ausência de valores em que estamos cotidianamente chafurdados. Por que a crença absurda de que “homem hétero não pega AIDS”; a rude ameaça, feita aos berros, de quebrar os dedos de uma mulher; e a declaração igualmente grosseira “tu é (sic)gay mas seje (sic) homem” , transformaram o autor dessas pérolas em herói de uma torcida que o considera seu “mestre”. É contra isso que me levanto.

Em tempos de PLC 122/06, gritar a plenos plumões seu preconceito encontra, enfim, uma justificativa: franqueza! Marcelo Dourado, para o crescente número de seus “seguidores”, não é homofóbico ou misógino, ele é franco. No entanto, como ele mesmo admite, o BBB é um jogo de palavras. Um jogo no qual os interlocutores não são os confinados, mas o público. E quando o público, ou parte significativa dele, reage favoravelmente – desculpando, justificando – a declarações como essas, fico preocupado.

Preocupa-me não o fato de que Marcelo Dourado fique milionário na próxima terça-feira. Mas que, acontecendo isso, a força simbólica que “retirou do subterrâneo” tantos homofóbicos (inclusive entre famosos e, pasmem, entre os homossexuais), tantos misóginos, tantos outros preconceituosos, armados agora de uma justificativa pública – não somos preconceituosos, somos autênticos – se transforme numa bandeira explicitamente assumida.

Por isso, eu fiz a minha parte: FORA DOURADO! E você?

3 comentários:

Gisele disse...

Gisele Silva

Ô meu querido. Li o "post": BBB10 e a cultura do feio. Infelizmente percebo cada vez mais que vivemos numa hipocrisia gritante, em um país onde pessoas conservadoras continuam balançando suas bandeiras de "eu aceito" mas, no fundo, lá no fundo mesmo, adoram quando existe um bode expiatório que fale por eles daí acontece o que está acontecendo: "dourados insultos aos que teimam em existir"...fico pensando até quando...e o pior de tudo é que o cara é muito ignorante mesmo, um assassino da língua portuguesa travestido de bad boy...estranho, mulheres ainda torcem por ele! Talvez elas gostem de apanhar! O que também não é um defeito e sim uma constatação! Faço coro à sua indignação e assino embaixo: Fora Dourado!!
Te adoro, como sempre! Beijo!!

Augusto Araujo disse...

Meu anjo, obrigado, muito obrigado... é estranho, muito estranho que mulheres e homossexuais torçam e votem pela vitória desse homem... mas, o mais estranho é que o defendam! Por esses dias li alguns comentários de pessoas que se dizem homossexuais e que afirmam que Dourado não é homofóbico. Nem mesmo preconceituoso ao afirmar que "homem hétero não pega AIDS". Falta-lhes lógica para perceber que a conclusão embutida nessa frase é: AIDS é coisa de gay e mulher. E a Globo, prestando um verdadeiro desserviço nem mesmo o repreendeu por falar tamanha bobagem. Olha, a única coisa que posso dizer é: FORA DOURADO!

Beijos!

Vital Cruvinel disse...

Não estou acompanhando esta edição do Big Brother, mas sinto no ar que as pessoas estão se mostrando mais. Infelizmente, para boa parte delas o que se mostra não é muito bonito. De qualquer forma, elas continuam sendo responsáveis pelo que fazem e pelo que falam. E nossa obrigação é denunciar e cobrar pelo mau uso que fazem de sua liberdade. Assim, mesmo sem saber direito do caso, FORA DOURADO!