Diz-se que Heráclito assim teria respondido aos estrangeiros vindos na intenção de observá-lo. Ao chegarem, viram-no aquecendo-se junto ao fogo. Ali permaneceram, de pé, (impressionados sobretudo porque) ele os encorajou a entrar, pronunciando as seguintes palavras: 'Mesmo aqui, os deuses também estão presentes'. (Aristóteles. De part. anim. , A5 645a 17ff).

segunda-feira, agosto 30, 2010

Novo número da Revista Estudos de Religião - UMESP

 

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Estudos de Religião é uma publicação semestral editada pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo. Circulando desde 1985, ela tem por objetivo divulgar artigos científicos, relatos e resenhas sobre o fenômeno religioso, contemplando temas ligados a áreas inter-disciplinares como: Ciências Sociais e Religião; Literatura e Religião no Mundo Bíblico; Práxis Religiosa e Sociedade; e Teologia e História.

Acesse, no link abaixo, os artigos do novo número, bem como números anteriores da Revista.

 

Estudos de Religião – Vol. 24, Nº 38, Junho 2010.

sábado, agosto 28, 2010

Igreja valdense-metodista italiana a um passo de ''abençoar as uniões gays''

 

igreja valdense-metodista italiana

 

Abençoar ou não os casais gays que pedem que sua união seja reconhecida na Igreja? A pergunta agita e divide os 180 delegados do Sínodo Valdense-Metodista, a assembleia anual que inicia neste domingo em Valle Pellice, naItália, e que dita a linha dessa minoria evangélica.

A reportagem é de Vera Schiavazzi, publicada no portal do jornal La Repubblica, 22-08-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em muitos casos, e publicamente em Trapani, em julho passado, os casais homossexuais já receberam uma espécie de "benção" (ato muito diferente do sacramento matrimonial católico) do pastor. Agora, porém, a questão foi oficialmente remetida ao Sínodo. E – fato sem precedentes – um abaixo-assinado contrário a essa possibilidade foi publicado em anúncio pago na revista Riforma: o primeiro signatário é Lucio Malan, valdense e senador do Pdl [partido Popolo della Libertà].

Foi a pastora Maria Bonafede, há cinco anos moderadora dos valdenses e dos metodistas italianos, que propôs que o Sínodo dissesse uma palavra de esclarecimento. "Não se trata do casamento, um fato que para nós tem um valor eminentemente civil e não representa um sacramento – explica –, mas sim do pedido que nos chega de muitos fiéis comprometidos nas nossas igrejas, alguns dos quais são parte ativa principalmente nas grandes cidades. Essas pessoas nos pedem que reconheçamos seu compromisso de amor recíproco invocando a benção de Deus, e é disso que devemos discutir serenamente".

O parecer oposto é de Malan e dos signatários do abaixo-assinado, segundo os quais as bençãos seriam "contrárias ao ordenamento das nossas Igrejas". Das páginas da Riforma, antes e depois da publicação do abaixo-assinado que se dirige ao Sínodo, o próprio Malan polemizou tanto com o diretor da revista, o pastor Luca Negro, quanto com PaoloRicca, pastor e teólogo de grande notoriedade no mundo valdense, "culpado" por ter definido como pais um casal de homens durante um batismo, em Roma, de dois gêmeos adotados graças à lei californiana.

Os argumentos do senador da centro-direita e da parte mais "conservadora" das Igrejas são os tradicionais: a proibição bíblica, contida sobretudo no Levítico, de se ter relações com pessoas do mesmo sexo e a "divisão" que a decisão de abençoar os casais gays poderia provocar entre os fiéis.

"É verdade que se trata de um assunto delicado e controverso – responde a moderadora – mas o abaixo-assinado é de uma pequena minoria, e acho que nas Igrejas já existe uma ampla atitude de acolhida aos casais homossexuais. O que conta é que se dê início a um percurso claro e compartilhado a partir do Sínodo". E Paolo Ricca acrescenta: "Devemos nos perguntar se o que a Bíblia diz sobre esse tema não sofre de condicionamentos históricos e culturais que podem relativizar o seu valor, e como apresentar esse discurso em uma ética cristã que gira em torno do único mandamento do amor".

Os tempos, enfim, parecem maduros para que a minoria valdense e metodista – a mais antiga e provavelmente a mais conhecida do panorama evangélico italiano, também em suas relações internacionais – também dê esse passo, depois de ter se pronunciado sem divisões em favor do divórcio e da lei sobre o aborto. "A benção não é o casamento, nem tem valor de sacramento – lembra Giorgio Bouchard, pastor e outra figura de referência –, mas não pode ser banalizada: é um momento solene no qual se invoca a Deus para se ressaltar uma opção de vida".

(Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – IHU)

sexta-feira, agosto 27, 2010

Muere el filósofo y escritor Raimon Panikkar a los 91 años

 

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El Periódico

Defendió siempre el diálogo entre personas y religiones.

El filósofo y escritor Raimon Panikkar ha fallecido este jueves a las 17.30 horas en su casa de Tavertet (Osona) a los 91 años, según ha confirmado la Fundación Vivarium, que él dirigía.

De padre indio y madre catalana y católica, Panikkar nació en Barcelona en 1918 y fue ordenado sacerdote en 1946.

A lo largo de su vida publicó más de 80 libros en los que defendió siempre el diálogo entre personas y religiones. Las diferentes religiones de sus padres, así como el hecho de haber vivido también en Roma, Estados Unidos y la India, favorecieron su mensaje tolerante y su defensa de la paz y el consenso.

Cristiano, hindú, budista

Hermano del también filósofo Salvador Panikker, Raimon siempre fue un enamorado de la India y nunca perdió el contacto con el país asiático desde que en 1955 lo visitase por primera vez. “Me fui cristiano, me descubrí hindú y vuelvo budista, sin haber dejado de ser cristiano”, solía decir el filósofo en una aplicación práctica de su defensa de la convivencia entre religiones.

En 1966 fue nombrado profesor de la Harvard Divinity School, pasando 20 años a caballo entre los Estados Unidos y la India. Entre 1971 y 1978 impartió clases de estudios religiosos en la Universidad de California, que más tarde creó un galardón con su nombre con el que cada año se premia al mejor estudiante en filosofía de las religiones.

En 1987 vuelve a Catalunya y se instala en Tavertet, donde ha permanecido hasta su muerte.

Premios, títulos y galardones

La labor de Panikkar fue reconocida, entre otros, con el Premio Español de Literatura en 1961, con la Creu de Sant Jordi de la Generalitat en 1999 y con la Medalla de Oro al Mérito Cultural de la ciudad de Barcelona el pasado año 2009.

Su trabajo fue galardonado también en el extranjero: el año 2000 recibió el título de Chevalier des Arts et des Letres de manos del Gobierno francés, y en 2001 fue el Gobierno italiano quien le otorgó la Medalla de la Presidencia de la Republica Italiana.

(Fonte: Redes Cristianas)

quinta-feira, agosto 26, 2010

Ler, traduzir, interpretar Kardec – Parte III

 

ALLAN KARDEC JOVEM

 

À guisa de conclusão

Como vimos, “o que caracteriza o acontecimento hermenêutico é muito mais uma revisão incessante da expectativa de sentido e do esboço de totalidade inicialmente projetadas”. E, a partir de exemplos retirados da obra kardeciana concluí pela posição de Kardec como intérprete do ensino dos Espíritos, e consequentemente, autor da doutrina espírita, uma vez que deste ensino fragmentário a doutrina não surge naturalmente. Num caso como este, o intérprete torna-se autor, pois, não é o mero reprodutor de suas fontes. Ao contrário, envolve-se num processo criativo a partir do qual a interpretação é ordenada segundo procedimentos de controle e auto-controle oriundos do próprio material a ser interpretado. É algo como se houvesse um “princípio popperiano” da interpretação, a partir do qual nem toda expectativa de sentido projetada pelo intérprete é possível de ser confirmada [1]. Chamo a isso “a materialidade do texto”, já que no texto-fonte encontra-se o limite “material” a partir do qual toda e qualquer interpretação possível é construída [2].

Kardec reconhece a “materialidade” de suas fontes. Em A minha iniciação no espiritismo, ao relatar o processo que deu origem à primeira edição de Le Livre des Esprits, afirma que as comunicações permitiram “provar” a existência do mundo espiritual, bem como conhecer sua constituição e seus costumes, num processo semelhante ao que poderia chamar-se de uma “etnografia do mundo dos espíritos”. Pois, segundo descrição do próprio Kardec, cada Espírito se convertera, em razão de sua posição pessoal e de seus conhecimentos, em uma fonte de informação; exatamente como se chega a conhecer um país ao se interrogar seus habitantes de todas as classes e de todas as condições. Cada um informando-nos de alguma peculiaridade; mas, nenhum deles, individualmente sendo capaz de informar-nos tudo o que é preciso saber; cabendo, portanto, ao observador formar uma visão de conjunto, a partir dos documentos recolhidos por meio dos diversos testemunhos, cotejando-os, coordenando-os e os controlando uns por meio dos outros [3]. Em outras palavras: ao observador cabe eliminar possíveis divergências e contradições em meio à diversidade de relatos disponíveis. A Kardec coube este papel de tentar sanar tais discrepâncias e gerar uma concordância de fundo, mais que de forma (como ele mesmo gostava de afirmar), e retirar daí uma doutrina que se pretende filosófica (racional). Então, parece-me natural, afirmar que Kardec tenha, neste processo, se convertido no autor da doutrina.

Mas, pode-se perguntar: mesmo diante da negativa explícita, tantas vezes repetida por Kardec de que ele não é o autor da doutrina? Sim, mesmo diante de tais assertivas creio ser necessário reafirmar a tese da autoria. Já que negar tal tese seria, a meu ver, defender que a doutrina espírita tenha sido “ditada inteira” pelas fontes de informação das quais Kardec dispunha. O que contraria sua própria compreensão da dinâmica da “revelação espírita” dada a conhecer no primeiro capítulo de A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo (1868). Neste, que é o último de seus grandes tratados doutrinários, Kardec define assim o duplo caráter da revelação espírita:

Por sua natureza a revelação espírita tem duplo caráter: participa ao mesmo tempo da revelação divina e da revelação científica. Participa da primeira, porque foi providencial seu aparecimento e não o resultado da iniciativa, nem de um desejo premeditado do homem: porque os pontos fundamentais da doutrina provêm do ensino que deram os Espíritos encarregados por Deus de esclarecer os homens sobre as coisas que eles ignoravam, que não podiam aprender por si mesmos e que lhe importa conhecerem, já que hoje estão aptos a compreendê-las. Participa da segunda, por não ser esse ensino privilégio de indivíduo algum, mas ministrado a todos do mesmo modo; por não serem os que os que o transmitem e os que o recebem seres passivos, dispensados do trabalho da observação e da pesquisa; por não renunciarem ao raciocínio e ao livre-arbítrio; porque não lhes é interdito o exame, mas ao contrário, recomendado; enfim, porque a Doutrina não foi ditada completa, nem imposta à crença cega; porque é deduzida, pelo trabalho do homem, da observação dos fatos que os Espíritos lhe põem sob os olhos e das instruções que lhe dão, instruções que ele estuda, comenta, compara, a fim de tirar ele próprio as consequências e aplicações. Em suma, o que caracteriza a revelação espírita é o fato de ser divina a sua origem e da iniciativa dos Espíritos, sendo a sua elaboração fruto do trabalho do homem. [4]

Assim, indo além das constantes negativas – e poderia citar aqui várias vezes em que recusa ser considerado autor da doutrina ou fundador do Espiritismo - Kardec parece desenvolver  uma crescente consciência de sua autoria em detrimento da transcendentalidade da doutrina. Por exemplo, se tomarmos a folha de rosto da primeira edição de O Livro dos Espíritos (1857), poderemos ver que ali aparece a seguinte descrição da obra: “Écrit sous la dictée et publié par l’ordre d’Esprits Supérieurs” (Escrito sob o ditado e publicado por ordem de Espíritos Superiores). Nas edições seguintes essa descrição é substituída por: “Selon l’enseignement donné par les Esprits supérieurs à l’aide de divers médiums. Recueillis et mis en ordre par Allan Kardec” (Segundo o ensinamento dado pelos Espíritos superiores através de diversos médiuns. Recolhidos e postos em ordem por Allan Kardec). Ora, uma doutrina “ditada” por alguém difere muitíssimo de uma doutrina “segundo os ensinamentos” de alguém.

O que desejo demonstrar com este exemplo é que, entre 1857 e 1868 a compreensão de Kardec sobre o tema  se modificou. De uma doutrina “ditada”, e portanto, literalmente dos Espíritos; para uma crescente tomada de consciência do papel do “homem” em sua elaboração. Um papel fundamental já que os ensinamentos que lhe servem de fonte – dados, segundo Kardec, por Espíritos - precisam ser recolhidos e postos em ordem (comparados e fundidos; classificados e muitas vezes modificados, reparados, etc. como vimos em Allan Kardec: o autor da doutrina dos espíritos?) . Um indicativo de que, em seu estado bruto, tais ensinamentos são insuficientes – seja por sua diversidade, seja por suas ambiguidades ou divergências explícitas - para formar doutrina (um sistema coeso) de caráter filosófico (racional).

Em minha opinião, tal consciência apenas não se torna explícita declaração de autoria devido ao conflito existente entre cumprir a agenda metodológica iluminista-positivista que garantiria ao espiritismo seu caráter científico; e o risco de transformar essa doutrina em apenas um “sistema pessoal de ideias” sem qualquer autoridade.

 


[1] O filósofo italiano Umberto Eco fala da intentio operis (a intenção do texto, da obra) que serviria como este “princípio popperiano” para distinguir entre uma boa e uma má interpretação. (Cf.: ECO, Umberto. Interpretação e Superinterpretação. São Paulo: Martins Fontes, 2005. Ou ainda: ______. Os limites da interpretação. São Paulo: Editora Perspectiva, 1995).

[2] É desnecessário dizer que essa “materialidade do texto” é uma metáfora para a imposição de limites de sentido dados pelo texto a partir dos quais algumas interpretações tornam-se possíveis e outras impossíveis.

[3] Cf.: KARDEC, Allan. A minha iniciação no espiritismo. In: ______. Obras Póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2009. p. 350-351. (Trad.: Evandro Noleto Bezerra).

[4] KARDEC, Allan. A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2009. p. 28-29. (Trad.: Evandro Noleto Bezerra). O negrito é meu.

segunda-feira, agosto 23, 2010

Ler, traduzir, interpretar Kardec - Parte II

 

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A “redenção dos pressupostos”

 

Terminei o post anterior afirmando que o ideal metodológico iluminista de um conhecimento fruto da ausência completa de pressupostos – ou de teorias pré-concebidas, para ficarmos no âmbito do pensamento kardeciano – e de uma racionalidade autônoma, que seja sua própria medida e que meça tudo o mais, não apenas é incompatível com o que de fato acontece em todo e qualquer fenômeno hermenêutico; como, se fosse possível, seria de todo indesejável. Neste ponto, apenas faço eco à palavras de Marco Antonio Casanova que afirma em sua apresentação ao pensamento de Hans-Georg Gadamer (1900-2002):

A suspensão de nossos pressupostos significaria propriamente uma dissolução de toda orientação prévia e de toda expectativa de sentido em relação ao que se deveria interpretar. Sem tal orientação e tal expectativa, porém, não teríamos nem mesmo como nos aproximar do que deveria ser interpretado, uma vez que é essa orientação e essa expectativa que conduzem a aproximação. Do mesmo modo, não há como imaginar a interpretação como um processo que se constrói paulatinamente do zero e vai ascendendo a um campo de sentido determinado por meio de cada um de seus passos. Se já não lêssemos um texto, por exemplo, guiados por uma expectativa de sentido específica, jamais poderíamos reunir as diversas palavras do texto com vistas a esse sentido, de tal modo que a leitura permaneceria presa a uma pluralidade de frases desconexas. [1]

Assim, se as coisas tivessem se passado com Kardec tal como ele descreve; se, no processo de construção da doutrina espírita, ele não possuísse qualquer ideia prévia do que poderia encontrar nos fenômenos e nas comunicações com que trabalhava, todo seu trabalho seria infrutífero. De fato, o problema não se encontra em possuir ou não pressupostos ao se interpretar textos, mas na expectativa ingênua de que tais pressupostos sejam sempre confirmados.

Por isso, ao apresentar como exemplo do método empírico aplicado à construção da doutrina o princípio doutrinário segundo o qual há Espíritos comunicantes que acreditam não estarem mortos [2], Kardec não está indicando que trabalhou absolutamente sem pressupostos. Ao contrário, podemos encontrá-los em abundância: o pressuposto da existência de Espíritos; o da possibilidade de comunicação entre eles e os homens (encarnados); o de que é possível conhecer o que se dá após a morte através destas comunicações; o de que o método científico (positivo) pode ser aplicado às “coisas metafísicas”, etc. E, mesmo que se argumente (e se acredite) que tais pressupostos foram estabelecidos “cientificamente” por Kardec; ainda sim são pressupostos sem os quais afirmar que no mundo dos Espíritos há Espíritos que acreditam ainda estarem vivos, não faria qualquer sentido.

Mesmo a existência e comunicabilidade dos Espíritos – princípio básico da doutrina espírita, estabelecido, segundo Kardec, a partir da análise das manifestações físicas e pela demonstração de sua causa inteligente – não foram encaradas por Kardec a partir de uma ausência completa de pressupostos. Leia-se nos primeiros parágrafos do ensaio autobiográfico A minha primeira iniciação no Espiritismo, publicado no volume das Obras Póstumas, a descrição de como Kardec recebe a notícia das mesas girantes. O “ceticismo” inicial, como ele gosta de descrever, não representa ausência de pressupostos. Antes, representa um preconceito bem caracterizado, calcado numa compreensão dos fenômenos à luz da teoria do magnetismo animal.

Igualmente, ao se defender da acusação de que ao ensinarem a teoria da reencarnação os Espíritos estariam tão somente atendendo à sua expectativa de sentido no que toca ao problema da preexistência da alma e sua destinação, Kardec explica:

Quando a doutrina da reencarnação nos foi ensinada pelos Espíritos, estava tão distante do nosso pensamento que, sobre os antecedentes da alma havíamos construído um sistema completamente diferente, partilhado, aliás, por muitas pessoas. Sob esse aspecto, portanto, a Doutrina dos Espíritos nos surpreendeu profundamente; diremos mais: contrariou-nos, porquanto derrubou as nossas próprias ideias. Como se pode ver, estava longe de refletí-las. Mas isso não é tudo: nós não cedemos ao primeiro choque; combatemos, defendemos nossa opinião, levantamos objeções e só nos rendemos à evidência quando percebemos a insuficiência de nosso sistema para resolver todas as dificuldades levantadas pela questão.[3]

O que tais exemplos tornam patente? Que, ao contrário do que afirma, Kardec possuía sim, pressupostos e expectativas de sentido no momento da formulação da doutrina. Como disse no ensaio Allan Kardec: o autor da doutrina dos espíritos?, defendo a tese de que Kardec é o intérprete de fontes de informação diversas, muitas vezes fragmentárias, que se fossem simplesmente colocadas lado a lado, não formariam um todo coerente. E, como afirma Casanova:

Nenhuma interpretação se movimenta para além de um espaço previamente aberto pela compreensão. Esse espaço não é um espaço restrito qualquer, mas aponta muito mais para uma totalidade que determina de maneira integral todas as possibilidades interpretativas subsequentes. A compreensão realiza, em outras palavras, incessantemente o projeto de um horizonte globalizante, que funciona como campo de sentido prévio. No interior desse campo, uma série de coisas se mostram como possíveis, outras como impossíveis, enquanto outras não chegam nem mesmo a vir à tona segundo a chave do possível e do impossível. A interpretação atualiza, então, aquilo que a compreensão abre como possível e retém por meio disso a articulação originária com o horizonte compreensivo. Nessa atualização, porém, a interpretação conta ainda com um conjunto de estruturas prévias (preconceitos no sentido mais próprio do termo) que promovem a performance interpretativa mesma. Nesse movimento, contudo, o intérprete não se vê condenado a seus preconceitos. O que caracteriza o acontecimento hermenêutico é muito mais uma revisão incessante da expectativa de sentido e do esboço de totalidade inicialmente projetadas. [4]

Os exemplos demonstram, portanto, que Kardec, o intérprete, “não se vê condenado a seus preconceitos”. Ao contrário, frente ao(s) texto(s) das comunicações a ser(em) interpretado(s), realiza uma revisão – não sem antes defender seu ponto de vista peculiar – “da expectativa de sentido e do esboço de totalidade inicialmente projetados”, numa autêntica “performance hermenêutica” que lhe assegura o epíteto de autor da “doutrina dos espíritos”.

(Continua…)


[1] CASANOVA, Marco Antonio. Apresentação à edição brasileira. In: GADAMER, Hans-Georg. Hermenêutica da Obra de Arte. São Paulo: Martins Fontes: 2010. p. XI.

[2] KARDEC, Allan. A Gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2009. p. 30. (Tradução: Evandro Noleto Bezerra)

[3] KARDEC, Allan. Da Pluralidade das Existências Corpóreas. In: ______. Revista Espírita. Jornal de Estudos Psicológicos. Ano Primeiro – 1858. Novembro. N. 11. Rio de Janeiro: FEB, 2007. p. 446-447. (Tradução: Evandro Noleto Bezerra)

[4] CASANOVA, op.cit., p. XII. O negrito é meu.

domingo, agosto 22, 2010

Ler, traduzir, interpretar Kardec – Parte I

 

Na última quarta-feira (18/08) estive mais uma vez com os amigos e amigas da ASSEPE – Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas de João Pessoa – refletindo sobre o tema “Ler, traduzir, interpretar Kardec”. Como sempre, foi uma oportunidade maravilhosa de partilha do que tem sido meu esforço nos últimos meses: compreender a obra e o pensamento do fundador do Espiritismo, Allan Kardec (1804-1869). O maior mérito, contudo, do sucesso deste encontro fica com meus interlocutores – os membros da ASSEPE – que não se furtam ao trabalho do pensar nem ao diálogo com o diferente.

Conforme compromisso assumido por mim junto ao secretário da Associação, Néventon Vargas, gostaria de publicar a partir de hoje algumas notas que nortearam nossa conversa e, ao mesmo tempo, indicar fontes para a continuidade discussão.

 

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O debate teve como pré-texto o ensaio "Allan Kardec: o autor da doutrina dos espíritos?", originalmente publicado no Jornal Opinião (Ano XVI, Nº 176, Julho 2010). Neste texto defendo a tese de que Kardec é o intérprete de fontes de informação diversas, muitas vezes fragmentárias, que se fossem simplesmente colocadas lado a lado, não formariam um todo coerente. Não se questiona se tais fontes seriam, como ele alega, fontes espirituais. Mas, com base em da seguinte afirmação do próprio Kardec: “C'est de la comparaison et de la fusion de toutes ces réponses coordonnées, classées et maintes fois remaniées dans le silence de la méditation, que je formai la première édition du Livre des Esprits qui parut le 18 avril 1857” [1]; e por mim traduzida: “Da comparação e da fusão de todas estas respostas coordenadas, classificadas e muitas vezes reparadas (modificadas, refeitas) no silêncio da meditação, que eu formei a primeira edição do Livro dos Espíritos, o qual apareceu a 18 de abril de 1857”; concluo pela tese da autoria, muito embora, em diversas outras ocasiões Kardec atribua que a Doutrina é dos Espíritos, não de um único homem. Porque, “penso que não importa se as fontes de uma pesquisa sejam os Espíritos ou um pensador “de carne e osso”; se alguém compila, classifica, modifica, edita, interpreta suas fontes, ele é o autor”.

Desta conclusão, um natural questionamento pode surgir para aqueles que, minimamente, conhecem a obra kardeciana: se concordarmos que Kardec é o autor da “doutrina dos Espíritos”, isso não significaria que ele mentiu atribuindo aos Espíritos um trabalho que foi apenas dele? Provavelmente, todos nós conhecemos as diversas passagens nas quais nosso autor afirma categoricamente que a doutrina espírita não é obra de um homem, mas do conjunto do ensino concordante dos Espíritos. Ou quando, em A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, Kardec faz uma distinção entre o que é “segundo o Espiritismo” – o que equivale a dizer: segundo o ensino dos Espíritos – e suas opiniões pessoais apresentadas apenas como hipóteses. Ou ainda, as passagens nas quais descreve sua metodologia de pesquisa – em A Gênese e em A minha primeira iniciação no Espiritismo (no volume das Obras Póstumas) como isenta de pré-juízos ou “teorias preconcebidas”. Como então, insistir nessa tese de que Kardec é o autor?! E, nesse caso, essa “mentira” não causaria uma diminuição no grau de confiabilidade que os espíritas podem ter na obra kardeciana e no próprio Kardec?

Honestamente, eu penso que não: afirmar, contradizendo Kardec, que ele é o autor da doutrina que atribui aos Espíritos, não é o mesmo que afirmar que Kardec mentiu. Em primeiro lugar porque a mentira pressuporia que Kardec, deliberadamente, tenta enganar seus leitores. E não defendo que isso tenha acontecido. Tampouco defendo que Kardec tenha declinado da autoria em favor dos Espíritos por “humildade”. Ao contrário, para mim o que marca essa decisão é uma forte consciência da importância do método como fator de fortalecimento da ideia de uma “ciência espírita”. De fato, Kardec declara:

Apliquei a esta nova ciência, como o fizera até então, o método experimental; nunca elaborei teorias preconcebidas; observava cuidadosamente, comparava, deduzia consequências; dos efeitos procurava remontar às causas, por dedução e pelo encadeamento lógico dos fatos, não admitindo por válida uma explicação, senão quando resolvia todas as dificuldades da questão. [2]

Tal consciência metodológica, fazendo, eco à pretensão iluminista da suspensão absoluta de todos os pressupostos e na autonomia radical da razão que a tudo e todos pode avaliar e fazer conter em seus limites, conferiria ao Espiritismo sua cientificidade. Kardec, filho de seu tempo, “[...] formado na tradição cultural do século XVIII [...]”, como bem recorda José Herculano Pires, “[…] compreendeu claramente que o problema de seu tempo repousava na questão do método [...]”[3]. Dessa maneira, a agenda iluminista, que o positivismo do século XIX assume como sua, e que tem como pressuposto que qualquer conhecimento só se torna válido quando baseado na ausência completa de pressupostos e expressão de uma racionalidade autônoma, tornou-se naturalmente a agenda do próprio Kardec.

Tal entendimento do método, contudo, é problemático não apenas porque não retrata o que acontece em todo fenômeno hermenêutico, mas porque, se fosse possível de ser alcançada seria indesejável. Na próxima parte deste post, veremos como a hermenêutica contemporânea resgata os pressupostos, redimindo-os frente à consciência metodológica iluminista. E, através de exemplos, pretendo demonstrar como também Kardec possuía seus pressupostos na composição da doutrina espírita.

(Continua…)


[1] KARDEC, Allan. A minha iniciação no espiritismo. In: ______. Obras Póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2009. P. 353. (Trad.: Evandro Noleto Bezerra). O texto original em francês é: "C'est de la comparaison et de la fusion de toutes ces réponses coordonnées, classées et maintes fois remaniées dans le silence de la méditation, que je formai la première édition du Livre des Esprits qui parut le 18 avril 1857". (Cf.: KARDEC, Allan. Ma première initiation au espiritisme. In: ______. Oeuvres Posthumes. Union Spirite Française et Francophone. s/d. p. 128).

[2] KARDEC, Allan. A minha iniciação no espiritismo. op.cit. p. 299.

[3] PIRES, José Herculano. A Pedra e o Joio. São Paulo: Edições Cairbar, 1975. p. 18.

sábado, agosto 21, 2010

Sair da religião?

 

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A Boa Nova deve ser anunciada a todos. Alguns padres operários explicam como a Igreja, tornando-se uma religião no decurso dos séculos, se apropriou, desnaturando-a, da mensagem de Jesus Cristo, tornando-a, por isso, inútil àqueles que buscam Deus em verdade.

A reportagem é de Bernard Rivière, publicada na revista Témoignage Chrétien, 13-08-2010. A tradução é de Benno Dischinger.

“La sortie de la religion, est-ce une chance?" [A saída da religião é uma chance?], de Michel Gigand, Michel Lefort, Jean-Marie Peynard, José Reis e Claude Simon (Ed. L’Harmattan, 193 p.), é um livro fruto da participação de muitas mãos, das quais seria demasiado longo elencar todos os autores. Citaremos, no entanto, alguns, sobretudo e fundamentalmente aqueles de uma “mão” formada por cinco padres operários do Calvados, que são base do projeto do livro. Encontramos freqüentes citações de teólogos: do jesuíta Joseph Moingt, do pastor Dietrich Bonhoeffer(morto em campo de concentração em 1945), de Hans Küng...; de pensadores e filósofos: Marcel Gauchet, Mary Balmary, Jacques Duquesne...; de bispos, padres e leigos em grande número...

Juntamente com suas palavras, suas experiências pessoais, suas convicções, suas expectativas, unidas pela fé em Jesus Cristo solidamente ligada ao coração, querem comunicar aos leitores e, além destes, aos que crêem, que “a essência da mensagem evangélica é que a humanidade se realize plenamente”. Não por força de longas disputas teológicas nem de discursos de cátedra, mas através do olhar de amor que tentaram dirigir aos seus companheiros de trabalho, estes padres tomaram consciência, uma consciência de fé viva, de que “passou-se o tempo em que se podia dizer tudo aos homens com palavras teológicas e piedosas... Estamos caminhando para uma época totalmente sem religião” (1).


Apropriação


Desde o segundo século da nossa era nascem as primeiríssimas e esporádicas comunidades de discípulos de Jesus, com freqüência secretamente, sem nenhuma intenção oculta de criar uma religião, na lembrança da amizade de Jesus que alguns afirmam ter ressuscitado. A mensagem evangélica lentamente se propaga entre os “testemunhos” que naturalmente procuram, de maneira espontânea, transmitir a mensagem da Boa Nova. Pouco a pouco – era inevitável? – certa organização, em geral passageira, tomará forma a partir do século IV, com o impulso de Constantino e de Teodósio. E foi nos séculos seguintes que rapidamente tomará predomínio o aspecto institucional, sufocando por vezes e com demasiada freqüência, a espontaneidade de uma fé que em geral apenas quer difundir-se.


No Noroeste


Alguns padres do Calvados perceberam em sua vida de todos os dias, durante seu serviço como padres e trabalhadores, que a mensagem de Jesus nos séculos XX e XXI se tornara inaudível. Os primeiros capítulos do livro apresentam múltiplos testemunhos dados por eles mesmos e por seus companheiros operários que exemplificam a deriva da Igreja que se tornou, de humilde e a serviço da Boa Nova, uma instituição humana que é chamada “religião”. Joseph Moingt resume assim a evolução: “O seguimento desta história – que não manteve as promessas das origens – pode ser resumido dizendo que pouco a pouco, na Igreja, a forma da religião encobriu a do anúncio, em vez do contrário! O anúncio é apelo à liberdade, a religião é a constrição de uma determinada via de salvação. Desta conversão da Igreja em simples religião, que transformava o convite à salvação em injunção ameaçadora, se derivou o fato de que ela não tem mais uma linguagem religiosa, tecida de mandamentos, de mistério e de simbolismos sagrados” (2). Desta convicção nasce, então, uma longa, simples e apaixonante descoberta daquilo que pode ser ainda hoje o anúncio da Boa Nova.


A prática


Ser “praticante” consiste em contribuir ao êxito e ao crescimento da humanidade e não em executar atos rituais de uma religião. “Ser cristão, dizia Bonhoeffer, significa tornar-se radicalmente humano e convidar também outros a se tornarem tais”. Assim convida a reintegrar o homem ferido, nu, prisioneiro e enfermo na sociedade dos homens. “O que fizerdes ao mais pequenino, o fazeis a mim” (Mateus 25, 31-46). A salvação assume, nesta perspectiva, outro sentido. A libertação do jugo da religião é um dos aspectos trazidos por Jesus. É o Reino que é preciso testemunhar e a Igreja só tem sentido se o que ela faz e diz estiver a serviço da vida e da felicidade dos homens, abrindo-os, assim, ao verdadeiro projeto de Deus.

E, se os autores, como uma espécie de resumo da obra, afirmam, sob risco de chocar: “Deus se fez presente numa humanidade a humanizar, isso obriga a pensar num Deus em devir, Deus empenhado na história dos homens. Deus não será totalmente Deus enquanto a humanidade não estiver realmente de pé, autenticamente humana”. E terminam – ou quase – seu ensaio com um parágrafo importante: “A salvação (o êxito da humanidade) se joga hoje, no cotidiano da vida”.

Estas conclusões, baseadas na experiência de homens de fé empenhados no mundo operário, se dirigem também a todos aqueles que querem viver intensamente sua fé, seja qual for o contexto em que vivem: “Sim, nós cremos que não haja outro lugar para encontrar Deus a não ser a humanidade”. “O cristianismo é a religião da saída da religião”, escreve com certo humorismo, mas seriamente, Marcel Gauchet. (3).

É um livro muito fácil de ler que convida cada um a interrogar-se sobre a própria fé: “Creio em Ti, Deus em devir, Deus movimento, Deus presente, mas ao mesmo tempo futuro. Deus que nos liberte e também nos ajude a desembaraçar-nos do pó das nossas certezas” (Claude Simon).

_________________________

Notas:
1 -
MOINGT, Joseph, Dieu qui vient à l’homme [Deus que vem ao homem], Le Cerf, 2002
2 - BONHOEFFER, Dietrich, Résistance et soumission, Lettres et notes de captivité [Resistência e submissão, Cartas e notas do cativeiro], Les Éditions Labor et fides.
3 - La condition historique [A condição histórica], Stock 2003.

(Fonte: IHU - Instituto Humanitas Unisinos)

domingo, agosto 15, 2010

"O Último Romance de Balzac" leva à Gramado obra supostamente psicografada

 

 

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Cena do filme ''O Último Romance de Balzac'', exibido em Gramado.

 

NEUSA BARBOSA

Especial para o UOL, do Cineweb, de Gramado

 

A atual onda espiritualista do cinema brasileiro chegou ao Festival de Gramado nesta noite de domingo (8), através do concorrente “O Último Romance de Balzac”, de Geraldo Sarno. Misto de documentário e ficção, o filme baseia-se em estudos sobre uma suposta obra psicografada do romancista francês Honoré de Balzac (1799-1850), o celebrado autor de “A Comédia Humana” e “As Ilusões Perdidas”.

Dois personagens principais ocupam a parte documental: o médico e médium Waldo Vieira, que psicografou em 1965 um suposto romance inédito de Balzac, intitulado “Cristo espera por ti”; e o psicólogo Osmar Ramos Filho, que analisa outro romance, este escrito em vida por Balzac, “A pele de Onagro” (1831), encontrando pontos de contato entre seu estilo e temas com a obra psicografada que, segundo ele, comprovariam a autoria do escritor nesta última.

A parte ficcional encena justamente trechos de “A pele de Onagro”, que são filmados dentro da estética do cinema mudo, em preto-e-branco, com intertítulos. Neste segmento, o protagonista, Raphael de Valentin, um artista obcecado pelo suicídio, é vivido pelo músico e cantor José Paes Lira, o Lirinha do extinto grupo Cordel do Fogo Encantado.

No debate desta tarde de segunda, o diretor Geraldo Sarno (de “Viramundo” e “Tudo isto me parece um sonho”), rejeitou a classificação de seu filme como religioso. “Não sou espírita. A visão religiosa que há no filme é de Waldo Vieira, que respeito imensamente”. Indagado porque não mencionou que Vieira deixou o espiritismo pouco depois de ter lançado a obra psicografada “Cristo espera por ti”, Sarno afirmou que isto “ está fora do universo do filme”.

Outra questão sobre a ausência de especialistas não-espíritas, especialmente literários, em “O Último Romance de Balzac”, foi respondida pelo próprio Osmar Ramos Filho. Ele contou ter procurado o linguista Paulo Rónai, grande estudioso de Balzac, e este rejeitou a origem da obra psicografada. Rónai, de acordo com Ramos, teria dito: “Eu estaria louco se admitisse que Balzac escreveu qualquer coisa depois de 1850, ano de sua morte”.

(O artigo pode ser lido na íntegra, com comentários a outros momentos do Festival, em: UOL Cinema)

Com opiniões de especialistas e médiuns, documentário retoma discussão sobre espiritismo em Gramado

 

Com pegada espírita, ''Contestado - Restos Mortais'' reconta conflito armado que aconteceu entre Paraná e Santa Catarina no começo do século 20.

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NEUSA BARBOSA

Especial para o UOL, do Cineweb, de Gramado

 

O concorrente brasileiro da noite de terça (10), o documentário “Contestado - Restos mortais”, de Sylvio Back, não foi econômico nem nas palavras, nem na duração – estendeu-se por 155 minutos, alinhando diversas entrevistas de historiadores e especialistas, além da intervenção de cerca de 30 médiuns, todos abordando, cada qual a seu modo, o famoso conflito do Contestado. Uma guerra que ocorreu entre 1912 e 1916, na fronteira entre o Paraná e Santa Catarina, e que, apesar da importância e do grande número de mortos (fala-se em 20.000), permanece de certo modo invisível na historiografia oficial - em que o conflito de Canudos (1896-1897) costuma ter muito maior espaço.

Back, que já havia abordado ficcionalmente o Contestado há 40 anos, em “ A Guerra dos Pelados” (1970), defendeu a volta ao assunto, afirmando, no debate desta manhã de quarta, que “apesar de tantas teses de doutorado a respeito, o Contestado está sumindo. Muita gente, inclusive moradores da região onde tudo aconteceu, nunca ouviu falar, nem mesmo os médiuns locais”.

Respondendo a perguntas sobre este que é o ponto mais polêmico de seu filme – a participação dos médiuns incorporando supostamente as vítimas do conflito -, o cineasta declarou: “Eu queria trazer à tona parte do imaginário do Contestado e tentei levar o transe mediúnico para dentro do filme”. Garantindo que “não é espírita”, Back afirma que “não encenou nada daquilo” e que “o contraditório de tudo isto também está no filme”.

Referindo-se ao que descreveu como “boom de filmes que mexem com o espiritismo” – um tema que entrou neste festival no domingo, com o documentário “O último romance de Balzac”, de Geraldo Sarno -, o diretor lembrou também que “teve a primazia” de entrar no assunto há 26 anos atrás. Isto aconteceu no curta documental “O autorretrato de Miguel Bakum” (1984), sobre o pintor paranaense que se suicidou em 1963 e para o qual o cineasta consultou uma médium de Curitiba, que teria incorporado o artista.

Outra experiência mística, segundo ele, teria ocorrido acidentalmente no set de “ A Guerra dos Pelados”, quando a atriz Dorothée Marie Bouvier, com dificuldades para encenar um transe mediúnico, teria dado a mão a um espírita da equipe de filmagem e realmente incorporado o monge José Maria, um dos líderes messiânicos do Contestado.

(O artigo pode ser lido na íntegra, com comentários a outros momentos do Festival, em: UOL Cinema)

sábado, agosto 14, 2010

sexta-feira, agosto 13, 2010

Entrevista: Campanha incentiva casais homossexuais a se assumirem no Censo 2010

 

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Tatiana Félix *

 

 

 

 

 

O Censo IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - 2010 já começou e os casais homossexuais serão, pela primeira vez, reconhecidos pela contagem. A Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais Travestis e Transexuais (ABGLT), que comemora e reconhece a iniciativa do IBGE como positiva, lançou uma Campanha para incentivar os casais homossexuais a se assumirem diante do Censo.

Para Toni Reis, presidente da ABGLT, a ação significa o reconhecimento oficial das mudanças sociais que vêm acontecendo no país. Em entrevista à ADITAL, Toni disse que o Censo dará início a um processo de construção de estatísticas oficiais, que inclui os relacionamentos considerados por muitos "à margem da sociedade", oficializando uma nova realidade social.

Para saber mais sobre a campanha, clique em:
http://www.abglt.org.br/port/ibge.php

Adital - É a primeira vez que a contagem para Censo IBGE 2010 irá identificar casais homossexuais que vivem juntos. O que representa esse reconhecimento?

Toni Reis - Representa o reconhecimento oficial das mudanças que vêm ocorrendo na composição das famílias de modo geral, inclusive no que diz respeito a casais do mesmo sexo. O Censo precisa acompanhar a sociedade contemporânea, caso contrário não é um reflexo fidedigno da realidade.

Adital - No que isto pode influir em mudanças realmente concretas da sociedade brasileira com relação ao tema LGBT, com relação a temas mesmo de respeito à diversidade e orientação sexual?

Toni Reis - O preconceito e a discriminação muitas vezes resultam da falta de informação e de informações incorretas. Mesmo que nem todo casal do mesmo sexo se disponha a se identificar no Censo, será dado o início à construção de estatísticas oficiais que começam a retratar esta realidade, deixando de ser relacionamentos à margem da sociedade. Será iniciado um processo de assimilação dessa forma de convivência, o que - num prazo mais longo e em conjunto com outras ações - levará a mais respeito à diversidade e à orientação sexual.

Adital - A ABGLT lançou recentemente a campanha "IBGE... Se você for LGBT, diga que é!". Que resultados são esperados?

Toni Reis - Espera-se que os casais do mesmo sexo se assumam como tal perante o Censo, contribuindo para seu reconhecimento nos dados do IBGE e para evidenciar e fundamentar as reivindicações de que é preciso legislar para que esses casais tenham garantidos os mesmos direitos que os casais heterossexuais.

Adital - De que forma este resultado poderá apontar para a construção de políticas públicas?

Toni Reis - É com base em dados concretos que as políticas afirmativas vêm sendo construídas e implementadas, como no caso da igualdade racial e políticas para as mulheres, por exemplo. A partir do momento que haja estatísticas sobre a população LGBT, identificando as lacunas e deficiências que existem no acesso igualitário aos serviços públicos, será possível aprimorar as políticas públicas nesta área.

Adital - Alguns países da América Latina, como a Argentina, têm avançado, em vários aspectos, no reconhecimento legal das causas LGBT. Nesse sentido, como avalia o Brasil?

Toni Reis - Vejo que no Brasil temos conseguido avanços também, só que aos poucos. No caso da população LGBT, já avançamos com a imigração, planos de saúde, o nome social de travestis e transexuais, a declaração conjunta de imposto de renda, vários estados já reconhecem a união estável entre casais do mesmo sexo, entre outros avanços. Enquanto o Executivo e o Judiciário avançam e acompanham o que acontece na sociedade, o Legislativo federal representa um entrave à cidadania plena da população LGBT no âmbito nacional.

Em 22 anos da nova Constituição, não aprovou nenhuma lei que proteja e promova os direitos de pessoas LGBT, ao contrário de todas as demais minorias. Além disso, há parlamentares que fazem proposições que afrontam o preceito constitucional de igualdade e não discriminação, como é o caso dos projetos de lei que visam a proibir a adoção por homossexuais. Espero que esse quadro possa mudar para melhor como resultado das eleições de 2010.

* Jornalista da Adital.

CENSO 2010 : ABGLT lança campanha - "IBGE ... SE VOCÊ FOR LGBT, DIGA QUE É !"

 

No Censo Demográfico 2010 o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) vai contar também casais homossexuais.

Neste sentido, a ABGLT – Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais – estará recomendando a todas as 237 afiliadas que incentive através das Paradas LGBT, das redes sociais da Internet, e em todos os eventos, a divulgação da seguinte frase "IBGE ... SE VOCÊ FOR LGBT, DIGA QUE É !"

 

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Pela primeira vez em todo o Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) vai contabilizar casais homossexuais no Censo Demográfico 2010. A proposta do instituto é trazer informações atualizadas de acordo com as mudanças da sociedade brasileira nos últimos anos.

“No passado nós só perguntávamos se eram cônjuges. Hoje nós abrimos para cônjuge do mesmo sexo e cônjuge de sexo diferente”, explica o presidente do IBGE, Eduardo Pereira Nunes.

Só vão ser contabilizados os casais homossexuais que declararem, no questionário de perguntas, que moram no mesmo domicílio em união estável. O IBGE já utilizou questionários com questões sobre a união estável homossexual em alguns municípios, mas esta será a primeira vez que a pesquisa envolve todas as cidades brasileiras.

Mas para o coordenador técnico do censo do IBGE, Marco Antônio Alexandre, a mudança não foi feita com o objetivo de revelar o percentual homossexual da população brasileira, até porque nem todos vivem em união estável.

O Instituto vai visitar 58 milhões de domicílios em 5.565 municípios. “Quando os(as) recenseadores(as) baterem em sua porta e você for “casado(a)” com uma pessoa do mesmo sexo, diga que é. É importante que nós  ativistas e governo tenhamos dados concretos para construirmos políticas públicas”, disse Toni Reis, presidente da ABGLT.

A Contagem da População pelo IBGE em 2007, realizada em cidades pequenas, identificou, pela primeira vez, 17.560 pessoas que declararam ter companheiros do mesmo sexo. Desse total, 9.586 homens se declararam cônjuges de companheiros do mesmo sexo, o mesmo ocorrendo em relação a 7.974 mulheres.

Informações adicionais:

Toni Reis – Presidente da ABGLT – 41 9602 8906
presidencia@abglt.org.br

Carlos Magno – Secretário de Comunicação da ABGLT – 31 8817 1170
karlmagno@gmail.com

(Fonte: ABGLT)

Nazistas obrigavam gays a transarem com prostitutas

 

Homofobia
História e Crítica de um Preconceito

Um livro de Daniel Borrillo

homofobia

 

Com a intenção de "tratar" a homossexualidade e recuperar a capacidade de reprodução de homossexuais, integrantes da polícia nazista obrigavam gays a transarem com prostitutas durante a Segunda Guerra. Se a conversão não dava certo, essas vítimas em eram castradas a fim de que não mais sentissem prazer.

Este cenário é retratado em "Homofobia - História e Crítica de um Preconceito", do jurista ítalo-argentino Daniel Borrillo, lançado pela editora Autêntica. A obra procura traduzir o significado e as origens do ódio aos homossexuais.

Por meio de um discurso maciço, explica o livro, a discriminação dirigida a gays constrói uma supremacia heterossexual. A ideia é explicada a partir da constante desvalorização da homossexualidade - alvo de piadas e encarada como pecado.

Professor de Direito na França, Borrillo investiga e analisa as ramificações da homofobia nos vários campos da atividade humana. Longe de cair em um vitimismo barato, "Homofobia - História e Crítica de um Preconceito"aborda a perseguição da igreja católica e explica o holocausto gay.

Apesar da veia acadêmica, a linguagem é acessível e de fácil compreensão. Leia trecho.

*

O ministro Hans Frank julgava a homossexualidade uma atitude "contrária à perpetuação da espécie" (BOISSON, 1988, p.51). Desde 1930, as experimentações médicas para "curar" a homossexualidade não cessam de se multiplicar: enquanto ariano, o homossexual deveria ser recuperado para a função reprodutiva. Com esse objetivo, o Dr Varnet submeteu 180 indivíduos a um tratamento hormonal e, em troca do fornecimento de deportados-cobaias de que ele dispunha com toda a liberdade, o cientista teve que ceder a patente do "tratamento" que, supostamente, eliminava o "desejo anormal" (BURLEIGH; WIPPERMANN, 1991, p.195-196). A fim de recuperar "produtores de crianças", os gays e as lésbicas ariano(a)s foram submetidos,igualmente, a "estágios de reabilitação". Em uma crônica terrificante, um sobrevivente de campo de concentração, Heinz Heger (1981), relata como ele próprio e os outros deportados homossexuais eram obrigados, pelos integrantes da SS (Schutztaffel - organização altamente disciplinada, encarregada da proteção pessoal de Hitler), a copular com prostitutas. Todavia, esses procedimentos terapêuticos não produziram os resultados pretendidos, e a consequência dessa constatação de fracasso foi tão brutal quanto a solução proposta: diante da impossibilidade de curar os homossexuais, foi necessário castrá-los para privá-los, daí em diante, de qualquer prazer. Um projeto de lei que preconizava a castração dos homossexuais já havia sido apresentado em 1930 por aquele que, mais tarde, seria o ministro do Interior do 3º Reich, o deputado Wilhelm Fiek (MOSSE, 1985, p.158).

O horror era inimaginável, em particular, para aqueles que haviam conhecido a Berlim de outrora, cosmopolita e gay. No final do século XIX, duas revistas homófilas eram exibidas nos quiosques da cidade: Der Eigne e Sapho und Sócrates. Além disso, em 1987, o médico Magnus Hirschfeld e o editor Max Spohr criaram a primeira organização em favor dos direitos gays: o Comitê Científico-Humanitário (Wisssenschaftlich-humanitäires Komitee, WhK). Alguns anos depois, em 1919, Hirschfeld fundou o Instituto para a Ciência Sexual (Institut für Sexualwissenschaft), quem em pouco tempo, abrigará a maior biblioteca sobre a questão gay. Em 6 de maio de 1933, o Instituto foi atacado de forma brutal: 12.000 publicações e 35.000 fotografias relativas à homossexualidade foram queimadas. Nesse momento, seu diretor encontrava-se no exterior e não conseguiu voltar para a Alemanha; destituído de sua nacionalidade, M. Hirschfeld morreu no exílio, dois anos depois. Nesse mesmo ano, Hitler elimina, em circunstâncias misteriosas, Röhm e outros líderes da AS (Sturmabteilung, milícia paramilitar nazista). De acordo com uma tese, foi a partir do assassinato de Röhm que começou a perseguição dos homossexuais pelo nazismo; até então, havia reinado um clima de tolerância.

(Fonte: Livraria da Folha)

Convite para debate sobre a obra de Kardec na ASSEPE

 

Ler, traduzir, interpretar Kardec

 

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Na próxima quarta-feira, 18 de agosto, às 19h30m estarei na sede da Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas de João Pessoa (ASSEPE), para um debate sobre o tema: “Ler, traduzir, interpretar Kardec”.

Na ocasião pretendo compartilhar com os membros desta Associação minha experiência como leitor, tradutor e intérprete não-espírita da obra e do pensamento de Kardec.

quinta-feira, agosto 05, 2010

segunda-feira, agosto 02, 2010

A religião é inimiga da civilização?

 

gianni vattimo Gianni Vattimo

 

 

 

 

 

 

 

Todos certamente nos lembramos da famosa frase de Nietzsche sobre a morte de Deus. E também sua cláusula: Deus seguirá projetando sua sombra em nosso mundo durante muito tempo. O que aconteceria se aplicássemos a frase de Nietzsche também, e sobretudo, às religiões? Em muitos sentidos, é verdade que, em grande parte do mundo contemporâneo, a religião como tal está morta, mas ainda projeta suas sombras em numerosos aspectos da nossa vida privada e coletiva.

Na verdade, deixemos claro que o Deus cuja morte Nietzsche anunciou não é necessariamente o Deus em que muitos de nós seguimos crendo. Eu me considero cristão, mas estou convicto de que o Deus que estava morto em Nietzsche não era o Deus de Jesus. Inclusive acredito que, precisamente graças a Jesus, sou ateu. O Deus que morreu, como diz o próprio Nietzsche em algum lugar de sua obra quando o chama de “Deus moral”, é o primeiro princípio da metafísica clássica, a entidade suprema que se supõe ser a causa do universo material e que requer essa disciplina especial chamada teodicéia, uma série de argumentos que tratam de justificar a existência desse Deus ou dessa Deusa frente aos males que vemos constantemente no mundo.

A tese que quero apresentar aqui é que as religiões estão mortas e merecem estar mortas, tal como Nietzsche fala da morte de Deus. Não estão mortas só as religiões morais, no sentido mais óbvio da palavra: dentro da sociedade cristã e católica da Europa, é fácil ver que são muito poucos os que observam os mandamentos da moral cristã oficial. O que está morto, em um sentido mais profundo, são as religiões “morais” como garantia da ordem racional do mundo.

A institucionalização das crenças, que deu origem às Igrejas, incluiu (não sei se só na prática ou como fator necessário) uma reivindicação do poder histórico, no sentido de que era quase natural e necessário que uma religião moral se convertesse em uma instituição temporal poderosa. É o que parece ter ocorrido com o catolicismo, mas se podem ver muitos outros fenômenos semelhantes na história de outras religiões. Inclusive o budismo gerou um Estado, o Tibet dos lamas, que agora luta para sobreviver frente à China.

Em todas as partes – por exemplo no hinduísmo –, o mesmo fato de que existia uma diferença entre clérigos e leigos faz com que a religião se converta em uma instituição, cujo objetivo principal é sempre a sua própria sobrevivência. Mencionarei novamente o exemplo da Igreja católica: se não tivesse sobrevivido ao longo dos tempos, eu não teria podido receber o Evangelho, a boa nova da salvação. Uma vez mais: como no caso da morte de Deus de Nietzsche, a morte das religiões institucionalizadas não significa que tenham legitimidade. Simplesmente, chega um momento em que já não são necessárias. E esse momento é a nossa época, porque, como se pode ver em muitos aspectos da vida atual, as religiões já não contribuem com uma existência humana pacífica nem representam um meio de salvação. A religião é um poderoso fator de conflito em momentos de intercâmbio intenso entre mundos culturais diferentes. Pelo menos, é isso que ocorre hoje: na Itália, por exemplo, existe um problema com a construção de mesquitas, porque a população muçulmana aumentou de forma espetacular. A hegemonia tradicional da Igreja católica está em perigo, mas os católicos não se sentem ameaçados em absoluto por essa situação, só os bispos e o Papa.

A Igreja afirma que defende seu poder (e os aspectos econômicos dele) para preservar sua capacidade de pregar o Evangelho. Sim, mas, como entre tantas instituições, a razão suprema de sua existência fica muitas vezes esquecida em troca da mera continuidade do status quo. O que quero dizer é que, no mundo atual, sobretudo no Ocidente industrial, a religião como instituição se converteu em um fator de conflito e um obstáculo para a “salvação”, seja isso que for. Quero destacar que falo da morte das religiões no mesmo sentido em que aceito o anúncio de Nietzsche sobre a morte de Deus. A religião que está morta é a religião-instituição, que contribuiu enormemente com o desenvolvimento da civilização, mas que, no fim, se converteu em um obstáculo.

Falar da morte das religiões em um sentido relacionado com o anúncio da morte de Deus de Nietzsche não significa, desde então, que a religião nunca tenha tido sentido para a humanidade. Nem sequer se pode dizer que a frase de Nietzsche significa que Deus não existe. Essa seria de novo uma afirmação metafísica, que Nietzsche não queria pronunciar, por sua recusa geral a qualquer metafísica “descritiva”. A luta contra a sobrevivência das religiões da qual falo tem pouco a ver com a negação racionalista de todo significado dos sentimentos religiosos. Inclusive se leva muito a sério esse ressurgimento da necessidade de uma relação com a transcendência que caracteriza numerosos aspectos da cultura atual. Citarei novamente Nietzsche, que diz que Deus está morto, e agora queremos que existam muitos Deuses.

Enquanto as religiões seguem querendo ser instituições temporais poderosas, são um obstáculo para a paz e para o desenvolvimento de uma atitude genuinamente religiosa: pensemos em quantas pessoas estão abandonando a Igreja católica pelo escândalo que representam as pretensões do Papa e dos bispos de imiscuir-se nas leis civis na Itália. Os âmbitos da ética familiar e da bioética são os mais polêmicos. Nos Estados Unidos, o recente anúncio do presidente Obama sobre sua intenção de eliminar as restrições à liberdade das mulheres para abortar suscitou uma ampla oposição por parte dos bispos católicos. A oposição a qualquer forma de liberdade de eleição em tudo o que se refere à família, à sexualidade e à bioética é contínua e intensa, sobretudo em países como a Itália e a Espanha. Tenhamos em conta que a Igreja se opõe a leis que não obrigam, mas só permitem a decisão pessoal nesses assuntos. Deveríamos nos perguntas de que lado está a civilização.

Há pouco tempo, o Papa repetiu sua idéia constante de que a verdade não é negociável. Esse “fundamentalismo” é só característico do catolicismo ou de todo o cristianismo? Aqueles que falam de civilizações têm a responsabilidade de levar em conta essa condição concreta. Não têm mais sentido os frequentes diálogos inter-religiosos que se celebram em qualquer parte do mundo, nos quais os interlocutores costumam ser “dirigentes” das diferentes confissões. Dialogam para não mudar nada. Não é mais do que uma forma de confirmar novamente a sua autoridade em seus respectivos grupos. Acaso surge desses frequentes encontros algo útil para a paz e a mútua compreensão dos povos? Enquanto não se elimine o aspecto autoritário e de poder das religiões, será impossível avançar rumo ao mútuo entendimento entre as diversas culturas do mundo.

Essa conclusão pode parecer um grande paradoxo, dado que, em geral, se considerou que a religião era um meio de educar a humanidade à caridade, à piedade e à compreensão. Em muitos sentidos, a compaixão parece ser a base fundamental de toda experiência religiosa. E é verdade, seja do ponto de vista do cristianismo, do budismo, do hinduísmo, do islã ou do judaísmo. Até aqui, nada a objetar.

Mas é justamente por isso que devemos reconhecer que chegou a hora de que as pessoas religiosas se levantem contra as religiões. E que afirmem taxativamente que a era da religião-instituição terminou, e sua sobrevivência só se deve aos esforços das hierarquias religiosas em conservar seu poder e seus privilégios.

O fato de que essa tese parece se inspirar, em grande parte, na experiência cristã (e católica) européia, não limita sua validade para outras culturas. Seguramente, o veneno do universalismo se espalhou pelo mundo graças aos conquistadores europeus, que são responsáveis pela estrita associação entre conversão (ao cristianismo. Lembre-se o "compelle intrare" de Santo Agostinho) e imperialismo. Agora é o mundo latino o que deve romper essa associação e separar a salvação de qualquer pretensão de crença e disciplina universal como condição para alcançá-la. Não é uma tarefa fácil.

(Fonte: Amai-vos)

Indicação do blogger amigo: Luiz Henrique Eiterer.