Diz-se que Heráclito assim teria respondido aos estrangeiros vindos na intenção de observá-lo. Ao chegarem, viram-no aquecendo-se junto ao fogo. Ali permaneceram, de pé, (impressionados sobretudo porque) ele os encorajou a entrar, pronunciando as seguintes palavras: 'Mesmo aqui, os deuses também estão presentes'. (Aristóteles. De part. anim. , A5 645a 17ff).

sábado, julho 31, 2010

Enquanto isso nos EUA…

 

… igreja na Flórida convoca dia da queima do Alcorão.

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Agência AFP

MIAMI - Uma igreja cristã da Flórida está organizando o "dia internacional da queima do Alcorão" em 11 de setembro, no nono aniversário do ataque terrorista às Torres Gêmeas, iniciativa que grupos muçulmanos afirmam ser parte de um aumento da islamofobia nos Estados Unidos.

A igreja "Alcançar Um Mundo de Paz" convocou a queima de exemplares do Alcorão em frente a seu templo de Gainville, a mais de 500 km ao norte de Miami, e pediu que outros centros religiosos somem-se à proposta para lembrar os mortos de 11 de setembro de 2001 e enfrentar "o demônio do Islã".

"Lamentavelmente, nesse estado e em todo o país, a islamofobia está aumentando", disse à AFP Ramsey Kilic, porta-voz do Centro de Relações Islâmico-Americanas (Cair).

A entidade disse que não adotará nenhuma ação para evitar a iniciativa. "O que nos preocupa é o sentimento anti-islâmico que se cria, que esta ação legitima e que pode gerar ataques contra mesquitas ou contra algum muçulmano nas ruas", disse Kilic.

O ato tem um grupo no Facebook (International Burn a Koran Day), que nos últimos dias recebeu ameaças cruzadas e comentários xenófobos entre partidários e críticos da iniciativa, e visitantes de diferentes credos.

Por outro lado, membros de um fórum criado pelo grupo da jihad islâmica Al-Falluja reagiram com virulência ao saber da convocação e ameaçaram provocar "rios" de sangue de americanos para responder à ofensa da igreja da Flórida ao livro sagrado do Islã.

Em sua página da web (www.doveworld.org), a igreja tem uma programação de atividades na qual figura, além do dia internacional da queima do Alcorão em 11 de setembro, a convocação no próximo dia 2 de agosto de um ato contra a homossexualidade.

A igreja oferece em sua página a venda, por 20 dólares, de camisetas com a inscrição "O Islã é do Demônio" e um livro com o mesmo título, cujo autor é o pastor e organizador desse centro religioso, Terry Jones.

"Ao queimar o Alcorão, estamos dizendo basta ao Islã, basta à lei islâmica e basta à brutalidade... não temos nada contra os muçulmanos, são bem-vindos em nosso país", disse Jones na quinta-feira à emissora CNN.

O pastor não pôde ser contatado por AFP.

(Fonte: JB Online)

sexta-feira, julho 30, 2010

De deus, do inferno e do amor que tudo salva

Como bem disse Martha Medeiros: “A religião deveria servir apenas para promover o amor e a paz de espírito”. No entanto, muitas vezes, ela serve também para criar uma imagem pervertida de um deus ansioso por castigar seus “filhos” e “filhas” desobedientes.

O texto abaixo mostra como Dennis Linn modificou sua imagem de Deus e pode compreender “o fundamento de uma sadia espiritualidade cristã”.

Em minha opinião, se há um deus – e não estou certo disso – ele deveria ser assim. Pois um deus que não sabe o que é amor, nem vale a pena conhecê-lo.

Abraço:

Augusto Araujo

 

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Como mudou minha imagem de Deus

Denis Linn *

Certo dia Hilda me procurou em prantos. Seu filho tentara suicídio pela quarta vez. Contou-me que ele andava envolvido com prostituição, tráfico de drogas e assassinato. E encerrou a lista dos “grandes pecados” de seu filho questionando:

- O que me deixa mais preocupada é que meu filho diz que não quer nada com Deus. O que vai acontecer a meu filho se ele se suicidar antes de se arrepender e de se reconciliar com Deus?

Como naquela ocasião a minha imagem de Deus era a do tio George, o Bom Velhinho, pensei comigo mesmo: “Deus certamente vai mandar seu filho para o inferno”. Mas não quis dizer isso a Hilda. Fiquei contente que meus tantos anos de teologia me tivessem ensinado como é que se faz quando não se sabe responder a uma questão teológica difícil: devolva a pergunta.

- O que é que você pensa a respeito?

- Bom – respondeu Hilda – , acredito que, quando morremos, somos levados diante do trono do juízo de Deus. Se você viveu uma vida má, Deus manda você para o inferno. – E concluiu pesarosa: – Como meu filho levou uma vida extremamente má, se ele vier a morrer sem arrependimento, Deus certamente o mandará para o inferno.

Muito embora estivesse inclinado a concordar com ela, não quis dizer-lhe: “Muito bem, Hilda! Seu filho provavelmente vai mesmo para o inferno”. Agradeci novamente minha formação teológica, que me havia ensinado uma segunda tática: quando você não sabe como resolver um problema teológico, deixe que Deus o resolva. E então disse a Hilda:

- Feche os olhos. Imagine que você está sentada ao lado do trono do juízo de Deus. Imagine também que seu filho veio a morrer com todos os seus graves pecados e sem que tivesse se arrependido. Ele acaba de chegar diante do trono do juízo de Deus. Aperte minha mão assim que você formar essa imagem.

Poucos minutos depois, Hilda apertou minha mão. E passou a me descrever toda a cena do julgamento. Eu então lhe perguntei:

- Hilda, como é que seu filho está se sentindo?

Hilda respondeu:

- Meu filho está se sentindo muito sozinho e vazio.

Perguntei a Hilda o que ela gostaria de fazer. Ela disse:

- Quero atirar meus braços em volta de meu filho. – E ergueu os braços e se pôs a chorar, ao mesmo tempo que se imaginava estreitando fortemente seu filho nos braços.

Finalmente, quando cessou o choro, pedi-lhe que fitasse os olhos de Deus, buscando saber o que é que Deus queria fazer. Deus desceu de seu trono e, do mesmo modo como Hilda havia feito, abraçou o filho de Hilda. E os três – Hilda, seu filho e Deus – choraram juntos e se abraçaram um ao outro.

[…]

Fiquei atônito. O que Hilda havia me ensinado durante aqueles minutos é o fundamento de uma sadia espiritualidade cristã: Deus nos ama no mínimo tanto quanto a pessoa que mais nos ama.

___________________________________

* Denis Linn é autor, juntamente com Sheila e Matthew Linn, é autor do livro Curando nossa imagem de Deus, publicado no Brasil pela Verus Editora (2002, p. 17-19), de onde retirei o texto acima.

Nostalgia: momento “Sessão da Tarde”

 

Pra quem é vintage!

dr lao

As Sete Faces do Dr. Lao

quinta-feira, julho 29, 2010

A fé de uns e de outros

 

MARTHA MEDEIROS

Religião deveria servir apenas para promover o amor e a paz de espírito.

 

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Apoio que as pessoas se manifestem publicamente contra a violência urbana, contra os altos impostos que não são revertidos em benefícios sociais, contra a corrupção, contra a injustiça, contra o descaso com o meio ambiente, enfim, contra tudo o que prejudica o desenvolvimento da sociedade e o bem-estar pessoal de cada um. No entanto, tenho dificuldade de entender a mobilização, geralmente furiosa, contra escolhas particulares que não afetam em nada a vida de ninguém, a não ser aos diretamente envolvidos, caso da legalização do casamento gay, que acaba de ser aprovado na Argentina.

Se dois homens ou duas mulheres desejam viver amparados por todos os direitos civis que um casal hétero dispõe, em que isso atrapalha a minha vida ou a sua? Estarão eles matando, roubando, praticando algum crime? No caso de poderem adotar crianças, seria mais saudável elas serem criadas em orfanatos do que num lar afetivo? Ou será que se está temendo que a legalização seja um estímulo para os indecisos? Ora, a homossexualidade faz parte da natureza humana, não é um passatempo, um modismo. É um fato: algumas pessoas se sentem atraídas – e se apaixonam – por parceiros do mesmo sexo. Acontece desde que o mundo é mundo. E se por acaso um filho ou neto nosso tiver essa mesma inclinação, é preferível que ele cresça numa sociedade que não o estigmatize. Ou é lenda que queremos o melhor para nossos filhos?

No entanto, o que a mim parece lógico, não passa de um pântano para grande parcela da sociedade, principalmente para os católicos praticantes. Entendo e respeito o incômodo que sentem com a situação, que é contrária às diretrizes do Senhor, mas na minha santa inocência, ainda acredito que religião deveria servir apenas para promover o amor e a paz de espírito. Se for para promover a culpa e decretar que quem é diferente deve arder no fogo do inferno, então que conforto é esse que a religião promete? Não quero a vida eterna ao custo de subjugar quem nunca me fez mal. Prefiro vida com prazo delimitado, porém vivida em harmonia.

Sei que sou uma desastrada em tocar num assunto que deixa meio mundo alterado. Daqui a cinco minutos minha caixa de e-mails estará lotada de agressões, mas me concedam o direito ao idealismo, que estou tentando transmitir com a maior doçura possível: não há nada que faça com que a homossexualidade desapareça como um passe de mágica, ela é inerente a diversos seres humanos e um dia será aceita sem tanto conflito. Só por cima do seu cadáver? Será por cima do cadáver de todos nós, tenha certeza. Claro que ninguém precisa ser conivente com o que lhe choca, mas é mais produtivo batalhar pela erradicação do que torna nossa vida ruim, do que se sentir ameaçado por um preconceito, que é algo tão abstrato.

Pode rir, mas às vezes acho que acredito mais em Deus do que muito cristão.

(Fonte: Zero Hora)

Abertas as inscrições para o “IV Fórum do Livre Pensar Espírita de João Pessoa”

 

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As inscrições para o IV Fórum do Livre Pensar Espírita já podem ser realizadas Clicando aqui. O evento acontece de 12 a 14 de novembro de 2010, no Auditório do Centro de Educação da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e tem como investimento o valor de R$ 20 (inteira) ou R$ 10 (meia). As vagas são limitadas.

Com o tema “A construção da identidade espírita: de Kardec aos dias atuais” , a Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas de João Pessoa (ASSEPE), com o apoio da CEPA Brasil, realiza três dias de eventos buscando não só debater assuntos relacionados ao espiritismo, mas unir o universo do Movimento Espírita com a Academia.

De acordo com o Diretor Presidente da Assepe, Matheus Laureano, o tema do evento foi escolhido por se achar que a identidade espírita está em constante construção. “As diferenças de perspectivas do Movimento Espírita suscitam debates intensos e, muitas vezes, com intuito proselitista de todas as partes. Pensamos esse tema, pois entendemos que há uma Doutrina Espírita sob diversas frentes de atuação na sociedade. Não somente na questão ser ou não religião, mas também no aspecto da atuação das instituições espíritas frente às demandas sociais. Portanto, esperamos debater e compreender a identidade espírita como uma construção”, comentou.

Onde obter mais informações? www.livrepensarespirita.com.br

Onde realizar inscrições?  http://livrepensarespirita.com.br/?page_id=15

Onde fazer o pagamento? Depósitos: Banco do Brasil – Agência 3502-5 – Conta Corrente: 27.993-5, em nome da Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas de João Pessoa. CNPJ: 08.318.391/0001-07

As travas, os banheiros e os nossos preconceitos

 

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Por Mirgon Kayser*

 

 

 

Afinal, o que define um homem e uma mulher? Se alguém recitar o mantra reducionista de que "homens tem pênis, mulheres tem vagina", estará ignorando outros tantos fatores de peso igual ou mesmo superior a esse.

As pessoas possuem personalidade. A personalidade molda quem a pessoa é, incluindo a sua sexualidade e, também, o seu gênero. Essa é a formatação da sua identidade interior.

As pessoas possuem identidade visual, reflexo de toda a construção da sua personalidade, incluindo aí, os reflexos oriundos das características de gênero assumidas pelo indivíduo. Dessa forma, mesmo diante de toda a gama de variantes visuais possíveis de serem imaginadas, sempre identificamos os indivíduos como sendo masculinos ou femininos. Depois abrimos outras identificações tribais, geracionais, etc...

Portanto, nós identificamos o masculino e o feminino sempre, e o fazemos partindo do conjunto de características visuais e espirituais do indivíduo. Não identificamos o gênero a partir de órgãos genitais.

Como uma pessoa que vive como uma mulher, pensa como uma mulher, comporta-se como uma mulher, veste-se com uma mulher - e em muitos casos adquire corpos de mulher, através de hormônios e cirurgias - pode ser debilmente classificada como sendo um homem?

Esse conjunto de características não pode, nas complexas relações humanas, estar subordinado aos órgãos genitais. E mesmo essa subordinação é relativa e escalonada, pois com o advento das cirurgias de mudança de sexo, em tese, pelo menos essa transsexual deveria ser reconhecida como uma mulher, e no entanto, não é. Na falta do argumento do órgão, nosso preconceito pauta o que? A conformação física original do indivíduo?

Se assim fosse, não chamaríamos borboletas por borboletas, e sim, por crisálidas. Lógico que a analogia com o processo das borboletas não é absoluta, mas não fica distante. É possível encarar a adolescência, etapa final do processo de construção da auto-identidade, como a fase da crisálida, o momento em que os jovens tomam consciência do que são de fato, nos mais variados campos da individualidade. Organizam sua vida adulta, sua fase borboleta, em todos campos, incluindo profissional, sexual, etc... No caso dos meninos, nessa fase de “crisálida”, muitos descobrem-se como sendo femininos e não masculinos. Aqui não falo de sexualidade, falo de gênero mesmo. Descobrem também sua sexualidade e o gênero pelo qual sentem-se atraídos, mas me refiro a descoberta de seu próprio gênero.

A sexualidade é uma outra questão que não cabe discutir aqui. Apenas ressalto que são discussões diferentes, uma vez que um homem pode ser homossexual sem que isso signifique descontentamento em relação à sua condição masculina, o mesmo acontece com as mulheres. Temos aí o exemplo da menina gay que participou do BBB, a Morango. Ela é gay, mas não questiona sua feminilidade, pelo contrário.

Agora entro na questão central do título desse artigo, ou seja, a hipocrisia e o preconceito contra as travestis e transexuais, materializados na utilização de banheiros.

Essa questão de banheiros parece ser bem simples, existe o banheiro masculino e o banheiro feminino. Mas como em tudo, a humanidade consegue tornar tudo complexo. Que banheiros gays, lésbicas e travas devem utilizar?

A resposta me parece óbvia: gays, o masculino e lésbicas, o feminino, uma vez que suas identidades de gênero são, respectivamente, masculina e feminina.

As travas, evidentemente, tem que usar o banheiro feminino, uma vez que suas identidades de gênero são femininas. As travas são e devem ser reconhecidas como mulheres na concepção de gênero, portanto, o banheiro é sim, o feminino.

Lamentavelmente, as travas sofrem todo tipo de discriminação e violência moral. Comumente, as travas são obrigadas a utilizar o banheiro masculino, ferindo gravemente sua própria dignidade, num lamentável atentado contra seus direitos humanos.

A poucos anos, em Nova Iguaçu, no RJ, houve uma tentativa completamente atrapalhada e desnorteada de solucionar o problema através de “banheiros alternativos”, onde os estabelecimentos comerciais deveriam adaptar-se para ter um terceiro banheiro, designado para gays, lésbicas e travas.

Apesar de possivelmente bem-intencionada, a proposta era a tragédia total, uma vez que segregava algo que encaixa-se ao natural nos conceitos feminino ou masculino, como se fosse uma “terceira coisa”, gerando um processo que lembraria muito a África do Sul do Apartheid. Para além disso, a proposta do banheiro misturava a questão de gênero com a sexualidade do individuo como se fossem tudo a mesma coisa.

Soluções miraculosas não existem. Aliás, o caminho é somente um: derrotar a hipocrisia através do parlamento, com a definição legal de que as travas devem utilizar o banheiro que corresponde à sua identidade de gênero, portanto, o feminino.

Parece só um detalhe bobo, mas é nos detalhes que o preconceito se fortalece ou é derrotado.

*Blogueiro e militante social. Secretário de Comunicação da 1° Zonal do PT/Porto Alegre. Texto publicado com autorização do autor.

quarta-feira, julho 28, 2010

Seja bem-vinda, Paralellus!

 

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Número Inaugural da Paralellus

Revista Eletrônica dos Estudantes do Mestrado em Ciências da Religião da UNICAP

Ano 1, n. 1, jan./jun. 2010

Apresentação

Prof. Dr. Gilbraz de Souza Aragão

Coordenador do Mestrado em Ciências da Religião - UNICAP

O conceito de Ciências da Religião, cunhado por Max Müller (1823-1900), deu origem a uma área acadêmica que busca esclarecer a experiência humana do sagrado. Sobre a base da história geral das religiões, ergue-se o estudo comparativo das religiões, que aborda as religiões e seus fenômenos com questionamentos sistemáticos. Ele forma categorias genéricas e se esforça para apreender o mundo dos fenômenos religiosos de tal modo que transpareçam linhas fundamentais, sobretudo fazendo uso da fenomenologia. Enquanto a história das religiões constitui a base das Ciências da Religião, a pesquisa sistemática das religiões deve mostrar semelhanças e diferenças de fenômenos análogos (sobre o sagrado) em diversas religiões e apresentar a hermenêutica dos “textos” sacros em seus contextos. As relações entre religião e suas condições contextuais são então aclaradas por distintas disciplinas.

Leia na íntegra essa a Apresentação e veja o Sumário do número inaugural da Revista Paralellus no Blog "Ciências da Religião na UNICAP.

Clicando na imagem é possível baixar a edição integral da Revista.

_________________________

Aproveito para parabenizar aos professores e alunos do Mestrado em Ciências da Religião da UNICAP pelo lançamento deste novo meio de divulgação do estudo científico das religiões.

Que seja bem-vinda, Paralellus! E que tenha longa vida!

Augusto Araujo

Em Campina Grande, Paraíba

Luteranos dos EUA acolhem pastores gays

 

 

Com uma imposição de mãos, a Igreja Evangélica Luterana na América (ELCA), nos Estados Unidos, no último domingo, recebeu em seu rebanho sete pastores abertamente gays, que haviam sido barrados, até recentemente, do ministério da Igreja.

A reportagem é de Laurie Goodstein, publicada no jornal The New York Times, 25-07-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
A cerimônia na Igreja Luterana St. Mark, em San Francisco, foi a primeira de várias cerimônias planejadas desde que a denominação obteve uma ampla margem de votos em sua convenção do ano passado para permitir que ministros gays não celibatários em relacionamentos comprometidos sirvam a Igreja.

"Hoje, a Igreja está falando com uma voz clara", disse o Rev. Jeff R. Johnson, um dos sete pastores gays que participaram da cerimônia. "Todas as pessoas são bem-vindas aqui, todas as pessoas são convidadas a ajudar a conduzir esta Igreja, e todas as pessoas são amadas incondicionalmente por Deus".

A Igreja Evangélica Luterana na América, conhecida como ELCA, com 4,6 milhões de membros, é hoje a maior Igreja protestante dos Estados Unidos que permite ministros homossexuais não celibatários a servir nas fileiras do seu clero – uma questão que tem provocado divisões dolorosas para ela, assim como para muitas outras denominações.

Desde que a Igreja votou, no ano passado, pela permissão de que membros do clero gay não celibatário pudessem servir a Igreja, 185 congregações usaram as duas votações consecutivas exigidas para sair da denominação, disse Melissa Ramirez Cooper, porta-voz da Igreja, citando um número que ela afirma ser atualizado mensalmente. Há 10.396 congregações em todo o país.

A Igreja Episcopal e a Igreja Unida de Cristo também permitem ministros gays. E a Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana dos EUA votou, em sua convenção no início deste mês, pela sua aprovação, apesar de que a votação irá se tornar lei da Igreja só se for ratificada por uma maioria de 173 presbíteros regionais da Igreja. Duas denominações luteranas menores, a Lutheran Church Missouri Synod e a Wisconsin Evangelical Lutheran Synod, não ordenam ministros que tenham relacionamentos homossexuais.

Os sete ministros  acolhidos na cerimônia de domingo já tinham sido ordenados e estavam servindo em igrejas ou ministérios da Bay Area de San Francisco, mas não haviam sido oficialmente reconhecidos na lista do clero.

"O efeito deles serem trazidos ao nosso plantel é que agora eles farão parte do nosso banco de dados nacional de pastores que estão disponíveis para o serviço em qualquer uma de nossas 10.500 igrejas", disse o bispo Mark W. Holmerud, que lidera o Sínodo de Sierra Pacific, que inclui San Francisco. Ele observou que, embora algumas congregações sejam abertas para considerar a contratação de ministros abertamente gays, outras não são – e cada congregação é livre para escolher.

 

Os luteranos evangélicos marcaram o rito especial de domingo como um "rito de reconciliação" para marcar a inclusão formal dos ministros homossexuais que foram ordenados em "ritos extraordinários", que não haviam sido reconhecidos pela Igreja, por terem sido conduzidos por um grupo chamado Ministérios Luteranos Extraordinários. Mais três pastores gays serão acolhidos em cerimônias em setembro e outubro, duas na área de St. Paul-Minneapolis e uma em Chicago, disse Cooper.

Amalia Vagts, diretora-executiva dos Ministérios Extraordinários Luteranos, disse: "Foi uma viagem longa e difícil para muitas pessoas, e parece que este é um novo começo na história da ELCA".
Ela disse que, somando todos, havia 46 ministros abertamente homossexuais que haviam sido previamente excluídos da lista do clero da Igreja e que agora passariam a ser aceitos.

A mudança foi possível depois que a Churchwide Assembly, o principal órgão legislativo dos luteranos evangélicos, votou em sua reunião de 2009 pela permissão da ordenação de pastores gays não celibatários que estão em relações monogâmicas. A denominação indicou uma força-tarefa para estudar a questão em 2001 e passou os outros oito anos em debate. No final, a proposta de permitir membros abertamente homossexuais ao clero ganhou apenas dois terços dos votos, o mínimo exigido para sua aprovação.

Alguns dos que se opuseram à decisão estão prestes a sair. O Rev. Mark Chávez, diretor da Lutheran CORE, uma coalizão de Igrejas luteranas teologicamente conservadoras, disse que seu grupo deve formar uma nova denominação, a North American Lutheran Church, em agosto.

Ele disse que da cerimônia do domingo "é apenas mais um passo firme tomado pela ELCA para mover a denominação para mais e mais longe da maioria das Igrejas luteranas ao redor do mundo e de toda a Igreja cristã, infelizmente".

Antes da cerimônia, um dos pastores gays, a Rev. Megan M. Rohrer, disse que tinha sido uma longa jornada desde sua casa em South Dakota – onde seus companheiros luteranos consideravam a sua sexualidade como um demônio a ser exorcizado – para finalmente ser acolhida como uma ministra da Igreja Luterana.

"É um convite", disse ela sobre a cerimônia, "para se unir a nós nos bancos da igreja todos os domingos, onde nenhum destes pastores vai se importar se você concorda conosco ou se você pensa que as nossas famílias são apropriadas. Vamos lhe dar a comunhão, vamos rezar com você e vamos visitá-lo no hospital".

(Fonte: IHU - Instituto Humanitas Unisinos)

domingo, julho 25, 2010

“Não temos nada a temer frente ao amor e ao compromisso”.

 

Diante da insistência por parte de fundamentalistas religiosos em confundir a união civil entre pessoas de mesmo gênero e o casamento religioso, creio que precisamos aprender com a Senadora Diane Savino, do Estado de Nova York, Estados Unidos.

 

Por uma única pessoa plural - Sociedade Inclusiva - Quem Cabe no Seu TODOS?

 

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Rabino Nilton Bonder *

(Fonte: Amai-vos)

 

 

 

Não existe uma pessoa plural que inclua a todos. A primeira pessoa do plural - nós -- poderia ter essa característica inclusiva, não fosse pela percepção de uma da segunda pessoa do plural - vós -- que invariavelmente constrói uma terceira pessoa -- eles. No entanto, a lógica importada da individualidade, onde um "eu" depende de um "tu" e produz um "ele", não é a única possível para o coletivo. O "nós" que não inclui todos não é uma necessidade existencial como o "eu" que não engloba o "tu". Portanto, é teoricamente possível sonhar com uma primeira pessoa do plural que inclua todas as pessoas - um "nós" que é também "vós" e "eles".

Tão simples como mudar o conceito "plural" de nossa civilização é o desafio que Claudia Werneck propõe em seu livro Sociedade Inclusiva. Seu poder maior é nos fazer refletir sobre o conceito de "Todos". Quem incluiríamos em nosso "todos"? Não o "todos" do discurso e da moral, mas o "todos" de pele, um "todos" que nos venha natural. Não o "todos de mentirinha", como explica a autora, que é um "todos" da curiosidade e da diplomacia, mas um "todos" que é fato e crença.

Sua preocupação primeira é desmascarar, com a gentileza que lhe é um dom, a diversidade de significados da palavra "todos". Não só os indivíduos falam de "todos" que compreendem as mais diferentes noções, como as próprias instituições fazem uso de distintos "todos". Sociedade Inclusiva propõe o enxergar radical de que se "todos" não incluir "tudo" então não é "todos".

O livro se assemelha a um grande diálogo entre o ser humano e sua consciência. Levanta perguntas e responde, confronta lucidez e interesses, aponta saídas e reconhece limites. A primeira sensação é de que vamos nos defrontar com um texto de crítica e reprovação.

No entanto, o texto é, acima de tudo, humano. Ao mesmo tempo em que expõe a crueldade de nossas exclusões, tem o grande mérito de se manter voltado mais ao grito e ao fazer conhecer do que ao julgamento. Por isso sua leitura é convidativa. O leitor se enxerga prisioneiro de seus "todos" parciais mas não sai de cada capítulo com um sermão e sim com um convite à ação e ao desafio do comprometimento. De carrascos executando as exclusões de todo o dia, Claudia Werneck faz do leitor um potencial parceiro na tarefa de incluir. Seu segredo, sua mensagem maior, é que um "todos" que inclua todos, não seja uma utopia, mas percebido como a única possível estratégia.

O beneficiário maior da inclusão não é o incluído, como pensaríamos, mas quem quer que amplie o seu "todos". O custo de um "todos" composto de tão poucos é a razão da dívida que a sociedade está pagando. Seu custo é menos alegria e menos bem estar para todos-tudo. Há porém um ar de novidade nas denúncias de Claudia. Esta novidade não está nas informações prestadas, mas em sua abordagem doce e afirmativa, misto de desabafo e maturidade: "Dá para ser feliz num país com tanta exclusão?". Quando imaginaríamos na angustia da pergunta sua própria resposta, a autora surpreende: "Dá!".

Dá para ser feliz em meio a qualquer situação desde que se busque no momento, no agora, a incondicionalidade da inclusão.

A verdade é que quando nos damos conta da dimensão da dívida social, seja no plano nacional ou mundial, nos tornamos prisioneiros da esterilidade de acusações, de denúncias e até mesmo de reflexões. A originalidade de Sociedade Inclusiva é não ser uma teoria sobre o humano mas, acima de tudo, uma tentativa de proposta, de estratégia.

O impensável e o inconcebível têm mais serventia como uma estratégia do que como uma utopia. Incluir não é o sonho, mas incluir é o método para alcançar um "todos" que seja pessoa única do plural. Por isso identificar o menos incluído de todos nos "todos", se faz importante como estratégia e como ação na busca de um "todos" incondicional. E a autora aponta no "deficiente físico" um "outro" que é singular, que é chave, pois é um "outro" de todos. Não importa quem sejam os seus "todos", o "deficiente" é o excluído "coringa". Ele é o excluído até dos excluídos. Categoria daquele que é definido por suas deficiências e não de suas suficiências, não há "todos" que os incluam a não ser o "todos-tudo". São, portanto, nosso grande patrimônio. Num mundo onde o sonho é produzir o ser humano perfeito fazendo uso da engenharia genética, o "deficiente" é messiânico. É ele que pode nos ensinar a suportar a diversidade e os limites; é ele que pode nos afastar do "todos-eu" e nos aproximar do "todos-tudo".

Sociedade Inclusiva não fala de escolas inclusivas, de trabalho inclusivo, de medicina inclusiva, de cidadania inclusiva ou de natureza inclusiva como um sonho. Fala de tudo isso como uma estratégia. Uma escola inclusiva, por exemplo, não é uma meta a ser alcançada no futuro. Mas é hoje, no desafio do presente, um instrumento do futuro. A diversidade na escola não é um entrave à educação mas seu mais importante instrumento.

A homogeneidade é empobrecedora como regra: intelectualmente ela emburrece, espiritualmente ela corrompe, emocionalmente ela aliena e fisicamente ela esteriliza.

Nossa dívida para com nosso "todos" já tão minguado, se contabiliza na pobreza e na falta de sentido que caracterizam nosso mundo de exclusão. Um mundo sem surpresa, um mundo de controle e, sem dúvida, um mundo de menos vida e menos humano. O ato de fazer entrar outros em nosso "todos" é um ato libertador e, em si, a única tarefa da sociedade, da educação e da religião.

O filósofo Martin Buber construiu sua obra mostrando que a questão do "singular" está nas relações "eu-tu" e relações "eu-isto". Quando não há um "eu" de verdade e o reconhecimento de um "tu" de verdade, e vice-versa, não há diálogo e encontro. Sociedade Inclusiva, traz esta questão para o "plural". No entanto, no plural, um "nós" que seja verdadeiro, inclui o "vós" e o "eles". É possível no plural, ao contrário do singular, uma primeira pessoa absoluta que venha a produzir encontro e sentido.

A sensação de estar lendo um livro de "auto-ajuda" quando seu conteúdo é de Ação Social é, com certeza, mais do que um estilo em Sociedade Inclusiva. Parece conter em sua forma um importante ensinamento: a solidariedade e a cidadania, através da síntese da inclusão, são as formas mais profundas e duradouras de "auto-ajuda". Incluir o outro, nos inclui ainda mais. Permite que façamos parte de um "todos" que vale a pena, um "todos" que não é um vazio numérico - um singular fingindo-se de plural. Porque há apenas duas formas matemáticas do plural virar singular: ou na plenitude de D'us ou no vazio do egoísmo.

Quem cabe em seu "todos"?

____________________________________

*Nilton Bonder, nasceu em Porto Alegre, em 27/12/57. Ordenou-se Rabino, pelo Jewish Theological Seminary, N.Y, em 1987. Escreveu 14 livros vários deles best-sellers no mercado editorial brasileiro e estrangeiro. (http://www.cjb.org.br/)

sábado, julho 24, 2010

Ecos do 23º Congresso Internacional da SOTER

 

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Entre os dias 12 e 15 de julho de 2010 reuniu-se na Pontifícia Universidade Católica (PUC Minas), em Belo Horizonte, o 23º Congresso Internacional da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (SOTER). Na ocasião celebrou-se os 25 anos da entidade que reúne teólogos (as) e cientistas da religião atuantes em Universidades, Igrejas e Escolas Confessionais do Brasil. Os 370 congressistas discutimos, durante os três dias do evento, o tema “Religiões e Paz Mundial”.

Antônio Carlos Ribeiro, da Ciberteologia: Revista de Teologia e Cultura, fez a cobertura parcial do Congresso numa série de artigos. No primeiro deles, intitulado Teólogos e cientistas analisam religiões e paz mundial, descreve a sessão de abertura com o pronunciamento dos ex-presidentes da SOTER. Em Reconciliação para superar a violência, analisa a conferência da comunicóloga Magali do Nascimento Cunha, da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), que falou sobre “Religião e violência: conflitos e contribuições à paz, refletindo sobre o conflito religioso e a violência”. A seguir, em Cristianismo: religião de referência ou uma entre as demais?, o autor descreve a mesa de debates “Teologia Pluralista e Teologia da Revelação”, que  reuniu os teólogos Andrés Torres Queiruga, da Universidade Santiago de Compostela, na Galícia, Espanha; o teólogo Faustino Teixeira, do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião, da Universidade Federal de Juiz de Fora; e o teólogo José Maria Vigil, da Associação de Teólogos e Teólogas do Terceiro Mundo (ASETT), de El Salvador. Por fim, no artigo Teólogo galego aborda modernidade e diálogo das religiões, relata a conferência de encerramento do Congresso proferida pelo teólogo galego Andrés Torres Queiruga, com o tema “Diálogo das Religiões e Desafio para a Renovação Teológica”.

Contudo, houve ainda outros momentos marcantes como a vídeo-conferência “Não terás outros deuses além de mim” (é o monoteísmo uma fonte de violência), da teóloga Maria Clara Luchetti Bingemer. E a participação do professor e babalorixá Erisvaldo Santos que, a partir do contexto das religiões de matriz afro-brasileira, questionou a legitimidade de um Congresso convocado por religiões de matriz judaico-cristã (com seu histórico de dominação hegemônica calcada em violência) falar sobre religiões e paz mundial.

Minha participação foi modesta, como a da maioria dos 370 congressistas. Como havia anunciado aqui, apresentei a comunicação “O Espiritismo segundo Allan Kardec: um médium para a tradição cristã”, no GT – A Bíblia e suas leituras. Em meu trabalho tentei apresentar um Kardec leitor e intérprete da Bíblia e da tradição cristã que, no afã de legitimar o espiritismo (doutrina e movimento) e configurar sua identidade, o apresenta como um espaço de mediação desta tradição para o século XIX. Em breve o texto das comunicações apresentadas durante o Congresso estará disponível no formato de e-book, no site da Revista Ciberteologia. Assim que isso acontecer, anunciarei aqui o link para o meu trabalho.

sexta-feira, julho 23, 2010

“A Espiritualidade não pode ser barata”

 

Pondé

 

O filósofo e colunista da “Ilustrada” da Folha de São Paulo, Luiz Felipe Pondé, em resposta a uma leitora que o questionou sobre seu posicionamento frente à religião, declarou: “Não sou contra toda forma de espiritualidade. Eu só acho que a espiritualidade não pode ser barata”.

Ouça aqui a declaração na íntegra.

domingo, julho 18, 2010

Allan Kardec: o autor da doutrina dos espíritos? *

 

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Da comparação e da fusão de todas as respostas, coordenadas, classificadas, e muitas vezes retocadas no silêncio da meditação, foi que elaborei a primeira edição de O Livro dos Espíritos, entregue à publicidade em 18 de abril de 1857. (Allan Kardec) [1]

Quem quer que tenha tido em mãos um livro de história da filosofia deve ter notado que logo nos primeiros capítulos são apresentadas as doutrinas filosóficas dos chamados filósofos “pré-socráticos” ou “fisiólogos”. O que, talvez, poucos saibam é que não existe, a rigor, a doutrina filosófica de Tales de Mileto, ou de Heráclito de Éfeso, por exemplo. De fato, a maioria dos textos que dispomos desses pensadores é insuficiente para se afirmar a existência de tal doutrina. O que se tem são fragmentos (frases, pedaços de frases, às vezes, uma única palavra) citados ou parafraseados por outros autores e filósofos. Uma lista tão variada que inclui pensadores como o grego Aristóteles e o cristão e pai da Igreja Clemente de Alexandria; e tão extensa que cobre o período desde o século IV a.C. até o século VI d. C.

Assim, se tomarmos Heráclito como exemplo, é preciso que se diga que não há o livro "Sobre a natureza", a ele atribuído [2]. Nem sabemos ao certo se ele escreveu mesmo um livro; ou, em caso afirmativo, se era esse mesmo seu título. Aquilo que nos manuais de história da filosofia é apresentado como a doutrina de Heráclito é tão somente uma interpretação arbitrária dos fragmentos encontrados e catalogados [3]. No século XX, o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) demonstrou que, dependendo da ordem em que os fragmentos são considerados ou organizados, ou dos pressupostos filosóficos assumidos na leitura desses fragmentos, diferentes interpretações se estabelecem. E, dessa forma, as interpretações serão sempre arbitrárias, uma vez que nem a obra original nós temos para comparar e verificar a validade delas [4].

Agora, se, num exercício de analogia, olharmos de maneira isenta para o modus operandi de Allan Kardec (1804-1869) veremos que se passa algo muito semelhante ao que acontece com os historiadores da filosofia no caso acima. Kardec, ao publicar suas obras sempre insistiu que a doutrina não era sua, mas dos Espíritos. No entanto, a confiar ainda nos relatos de Kardec, como se dá esse procedimento de “codificação” da doutrina dos Espíritos? Ele tem fragmentos de ensinos que vêm de fontes diversas e tem de arbitrariamente "codificá-los", ordená-los. E o faz. Nós não podemos verificar se essa interpretação é a mais adequada porque não temos acesso às fontes kardecianas (especificamente não temos acesso ao conteúdo bruto das comunicações por ele interpretadas). Esse impedimento metodológico de verificação tem me impedido de caracterizar o espiritismo como uma ciência.

Em outras palavras: penso que afirmar a existência da "doutrina de Heráclito" nas interpretações dos fragmentos a ele atribuídos, e afirmar que existe uma doutrina dos espíritos na interpretação das comunicações recebidas por Kardec, possui o mesmo grau de incerteza. Ora, como afirma o próprio Kardec na frase citada acima: “Da comparação e da fusão de todas as respostas, coordenadas, classificadas, e muitas vezes retocadas no silêncio da meditação, foi que elaborei a primeira edição de O Livro dos Espíritos, entregue à publicidade em 18 de abril de 1857”. O original diz: "C'est de la comparaison et de la fusion de toutes ces réponses coordonnées, classées et maintes fois remaniées dans le silence de la méditation, que je formai la première édition du Livre des Esprits qui parut le 18 avril 1857" (o grifo é meu).

Aqui gostaria de fazer um breve comentário sobre a escolha do uso do verbo “retocar” para traduzir o francês “remanier”. Não que esta tradução esteja equivocada, em minha opinião ela apenas enfraquece o sentido original do termo francês. A etimologia do verbo “remanier” remete a “manier” que tem o sentido primeiro de “manipular”, tocar com as mãos. Daí que o Dictionnaire de l’Académie Française (6eme Édition, 1835), defina o verbo “remanier” como: manipular novamente, reparar, modificar, refazer. Ou, ainda, segundo o Dictionnaire Poche Larousse (2008): mudar a composição, modificar. No contexto dessa pequena observação, uma tradução mais precisa talvez fosse: "Da comparação e da fusão de todas estas respostas coordenadas, classificadas e muitas vezes reparadas (modificadas, refeitas) no silêncio da meditação, que eu formei a primeira edição do Livro dos Espíritos, o qual apareceu a 18 de abril de 1857".

Uma última analogia, talvez esclareça melhor meu posicionamento. Embora o trabalho de pesquisa que venho realizando, e que culminará na publicação de minha tese de doutoramento, se baseie todo na leitura e interpretação da obra de Allan Kardec, e neste trabalho não se encontre nada que Kardec não tenha dito e pensado, há que se concordar que se trata de meu trabalho e não de Kardec. Penso que não importa se as fontes de uma pesquisa sejam os Espíritos ou um pensador “de carne e osso”; se alguém compila, classifica, modifica, edita, interpreta suas fontes, ele é o autor.


[1] KARDEC, Allan. A minha iniciação no espiritismo. In: ______. Obras Póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2009. P. 353. (Trad.: Evandro Noleto Bezerra). O texto original em francês é: "C'est de la comparaison et de la fusion de toutes ces réponses coordonnées, classées et maintes fois remaniées dans le silence de la méditation, que je formai la première édition du Livre des Esprits qui parut le 18 avril 1857". (Cf.: KARDEC, Allan. Ma première initiation au espiritisme. In: ______. Oeuvres Posthumes. Union Spirite Française et Francophone. s/d. p. 128).

[2] O título Péri Physeos (em grego) é um título genérico atribuído a grande parte das supostas obras dos pensadores gregos originários.

[3] No início do século XX, o helenista alemão Hermann Alexander Diels (1848-1922) publicou a obra Os fragmentos dos pré-socráticos, na qual colecionou os fragmentos dos chamados pré-socráticos e os classificou, após tê-los retirado das obras onde se encontravam citados ou parafraseados. Posteriormente, Walther Kranz (1884-1960) acrescentou um comentário interpretativo aos fragmentos catalogados por Diels. Esta obra tornou-se, desde então, referência para todos os trabalhos críticos e interpretativos da filosofia antiga. A classificação DIELS-KRANZ, tornou-se normativa para todas as referências aos fragmentos.

[4] Ver: HEIDEGGER, Martin. Heráclito. A origem do pensamento ocidental. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1998. (Trad.: Márcia Sá Cavalcante Schuback). Para outra interpretação, ver: BERGE, Damião. O Lógos Heraclítico. Introdução ao estudo dos fragmentos. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1969.

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* Este artigo foi originalmente publicado em Opinião, Órgão do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre (CCEPA). Agradeço a Néventon Vargas e a Milton Medran a especial gentileza em publicá-lo e, assim, dar a conhecer ao público espírita as reflexões de um não-espírita estudioso da obra de Allan Kardec. Desde que iniciei minhas pesquisas, tem sido inegável o auxílio – sob a forma de uma interlocução honesta e isenta de prevenções – destes dois amigos, bem como a instituição que representam, a Confederação Espírita Pan-americana (CEPA).

Da nossa imagem de deus e da esquizofrenia religiosa

 

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Hoje, logo após escrever o post anterior, lembrei-me do livro que primeiro me fez refletir sobre essas coisas - “Curando nossa imagem de Deus” – e da história narrada em seu primeiro capítulo: a história de “Tio George, o Bom Velhinho”. Gosto muito dessa narrativa alegórica, pois quando a li pela primeira vez tive um verdadeiro despertar de compreensão. Como encontrei, aqui na casa de meus pais, o referido livro, transcrevo para vocês esta pequena parábola. Espero que apreciem.

Abraços:

Augusto Araujo

Em Barbacena, Minhas Gerais.

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Tio George, o Bom Velhinho

“Eu […] cresci com uma imagem de Deus que se assemelha ao tio George, o Bom Velhinho, tal como descrito por Gerard Hughes:

‘Deus era pessoa da família, muito admirado por papai e mamãe, que o descreviam como alguém muito amoroso, grande amigo da família, muito poderoso e interessado em todos nós. Até que um certo dia nós fomos visitar o ‘tio George, o Bom Velhinho’. Ele vive numa formidável mansão, é barbudo, carrancudo e ameaçador. Não pudemos compartilhar da admiração declarada de nossos pais por essa joia da família. Ao final da visita, tio George dirigiu-se a nós:

   - Escutem, meus queridos – começou ele mirando-nos severamente – quero ver vocês aqui uma vez por semana. Se vocês deixarem de vir, vou mostrar o que lhes vai acontecer.

E então nos levou para baixo, até os porões da mansão. Era escuro, ia-se tornando cada vez mais quente à medida que descíamos, e começamos a ouvir barulhos que não pareciam ser deste mundo. As portas do porão eram de aço. Tio George abriu uma delas:

   -  Agora deem uma olhada por aí, queridos – disse ele.

O que se apresentou a nós era uma visão de pesadelo, com fileiras de fornalhas ardentes atiçadas por pequenos demônios, que lançavam às chamas aqueles homens, mulheres e crianças que falhavam em suas vistas ao tio George ou que não agiam do modo que ele desejava.

   - E se vocês não vierem me visitar, queridos, é para aí que com certeza vocês irão – disse tio George.

Em seguida, levou-nos de volta escada acima, ao encontro de nossos pais. Na volta para casa, enquanto agarrávamos fortemente as mãos de papai e mamãe, ela se inclinou sobre nós e perguntou:

   - E agora, vocês não vão amar tio George de todo o coração, de toda a alma, de todo o entendimento e com todas as suas forças?

E nós, abominando o monstro, respondemos:

   - Sim, vamos – porque responder qualquer outra coisa significaria entrar na fila para a fornalha.

Já desde a mais tenra idade, a esquizofrenia religiosa se havia instalado, e nós continuamos a dizer ao tio George o quanto o amávamos, quão bom ele era, que nós queríamos fazer apenas aquilo que lhe agradava. Agíamos conforme seus desejos e sequer ousávamos admitir, ainda que só para nós, que nós o odiávamos’.”

(LINN, Matthew; et al. Curando nossa imagem de Deus. Campinas: Verus Editora, 2002. p. 13-14).

sábado, julho 17, 2010

Juíza se nega a casar gays mesmo que ‘custe sua própria vida’

 

Uma juíza de paz argentina afirmou nesta sexta-feira que jamais realizará o casamento de casais homossexuais, um dia depois de o Senado aprovar uma lei que autoriza essas uniões.

“Que me acusem do que quiser. Deus me diz uma coisa e eu vou obedecer, mesmo que custe meu posto, e mesmo que me custe a vida, porque primeiro está o que Deus me diz”, afirmou Marta Covella, juíza de paz da cidade de General Pico.

“Fui criada lendo a Bíblia e sei o que Deus pensa. Deus ama a todos, mas não aprova as coisas ruins que as pessoas fazem. E uma relação entre homossexuais é uma coisa ruim diante dos olhos de Deus”, assinalou ainda.

(Fonte: Bule Voador)

 

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Algumas palavras sobre este fato

Há muito tenho comentado neste blog sobre a pretensão que fundamentalistas têm em conhecer a mente de Deus apenas com base em sua leitura radical da Bíblia.

Diante disso apenas me lembro de uma experiência que gostaria de compartilhar com vocês. Quando decidi que era o momento de falar abertamente a meus pais sobre o fato de eu ser homossexual, fiquei preocupado de que nossa relação ficasse abalada a tal ponto que eles preferissem que eu me mantivesse distante deles. Felizmente eles são muito melhores que eu. E não apenas superaram o choque inicial, como não permitiram que nossa relação sofresse qualquer dano. E mais, acolheram meu companheiro como a filho.

Essa generosidade e esse amor incondicional, abriram meus olhos para compreender muito melhor o que significa amar alguém. Hoje sinto engulhos toda vez que leio ou escuto quem diz que Deus ama os homossexuais – e a todos os demais “pecadores” – mas só pode fazer algo de bom a eles – por exemplo, não permitir sua ida inevitável para o inferno por toda a eternidade – se os mesmos se converterem e agirem não como eles pensam ser o melhor para si, mas de acordo com um conjunto de livros com preceitos contraditórios e, muitas vezes, imorais para os padrões civilizados.

Quando penso no amor incondicional demonstrado por meus pais e penso nesse deus amargurado que querem me enfiar goela abaixo, não posso deixar de pensar que não preciso dele. Se há um deus – e, falando honestamente, não posso afirmá-lo ou negá-lo – e se ele é amor, como me dizem; não há a possibilidade de que ele me ame menos do que as pessoas que mais me amam no mundo. Caso contrário, esse deus, supondo que exista, é completamente dispensável para mim, e viver no inferno parece ser uma alternativa mais atraente.

Uma divindade que, para ser propiciada, precisa que eu negue minha natureza, não merece minha atenção. Contudo, se ele pode me acolher e me respeitar, me amar e desejar que eu esteja sempre com ele, aí sim posso concebê-lo e amá-lo.

Ao contrário, a imagem de um deus que, ao menor desagrado, permite passivamente que aqueles a quem diz amar vivam em sofrimento eterno, não condiz com o epíteto “amor”. E, aqueles que o adoram, em nome desse deus impiedoso e cruel, tornam-se igualmente impiedosos e cruéis. Amargos reflexos, à imagem e semelhança do deus a que adoram.

Augusto Araujo.

Em Barbacena, Minas Gerais.

terça-feira, julho 06, 2010

Ensino religioso e laicidade: relação possível?

 

laicidade

LAICIDADE E ENSINO RELIGIOSO NO BRASIL
Livro de Diniz, Debora; Lionço, Tatiana; Carrião, Vanessa
Brasília: UNESCO, Editora Letras Livres, Editora UnB, 2010. 107 p.

 

O Brasil é um país rico em expressões culturais e tradições religiosas. A escola é um espaço de apresentação desse fabuloso horizonte de crenças, valores e práticas sociais. Um importante desafio de direitos humanos é como representar a diversidade brasileira nas ações e políticas educacionais. Este livro enfrenta uma das facetas mais inquietantes do encontro entre as religiões e o dispositivo da laicidade – a oferta do ensino religioso nas escolas públicas brasileiras. De uma forma original e sistemática, as autoras percorrem leis e livros didáticos a fim de responder à pergunta sobre o significado do ensino religioso nas escolas públicas brasileiras.

Se o ensino religioso nas escolas públicas brasileiras deve promover a diversidade e vedar o proselitismo, conforme determina a Constituição Federal e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, os livros didáticos da disciplina estão reprovados. Numa amostra de 25 obras publicadas pelas maiores editoras do país, é clara a hegemonia cristã, ocupando 65% do conteúdo abordado, contra 3% de componentes ligados a religiões espíritas ou afro-brasileiras, por exemplo. Algumas referências desrespeitosas a determinados grupos da sociedade também foram verificadas na pesquisa: entre os livros que compuseram a amostra, apenas um trata da homossexualidade, utilizando expressões como "desvio moral" e "não natural". Em outra passagem, um texto com o título "Quem matou Deus?", sobre agnósticos, é ilustrado com foto de um campo de concentração. Pesquisa imperdível para quem estuda a relação entre religiosidade e educação!

(Fonte: Ciências da Religião da UNICAP)

P.S.: Ao clicar na imagem acima, você será redirecionado ao site da Anis: Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero, onde poderá adquirir seu exemplar.

sábado, julho 03, 2010

IV Fórum do Livre Pensar Espírita em João Pessoa - PB

 

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João Pessoa sediará IV Fórum do Livre Pensar Espírita ASSEPE inicia preparativos para Fórum que terá como tema central: “A construção da identidade espírita – de Kardec aos dias atuais”. A Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas de João Pessoa – PB, já realizou duas reuniões de planejamento do IV Fórum do Livre Pensar Espírita, confirmado para 12, 13 e 14 de novembro de 2010, que está incluído no calendário de eventos da CEPABrasil no corrente ano.

O evento nordestino reveste-se de significativa importância para a disseminação dos ideais cepeanos, reunindo os delegados da CEPA na região, incluindo companheiros de Recife e Fortaleza, além de buscar a integração com a diversidade de pensamento na discussão da identidade espírita.

O pluralismo já se manifestará na abertura, com a exposição de Augusto Araújo, agnóstico, mestre e doutorando em Ciências da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF/MG), falando sobre "Espiritismo: a questão da identidade espírita e a obra de Allan Kardec”.

O tema central do evento será “A construção da identidade espírita: de Kardec aos dias atuais”, objetivando elencar os diversos caminhos seguidos pelo espiritismo, desde Kardec, sem a pretensão de definir, ao seu final, uma identidade definitiva, mas reconhecer a diversidade em que nos inserimos.

Para maiores informações visite o site da ASSEPE.

(Fonte: CEPA Brasil)

Harry Potter e as Relíquias da Morte

 

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sexta-feira, julho 02, 2010

Enquanto o país pára por causa da Copa…

 

Adolescente de 14 anos é assassinado por skinheads, e Judiciário quer reajuste de 56% e salário de quase R$ 9 mil para copeiro!

E, mais: STF suspende aplicação da ficha limpa para senador Heráclito Fortes (confira no portal G1).

Pelo visto há muito mais que lamentar do que a eliminação!

 

heraclito-300 Senador Heráclito Fortes (DEM-PI)